Bairro das Amendoeiras: promessa, desencanto e revolta criar PDF versão para impressão
30-Nov-1999


texto de nuno ramos de almeida
fotos de paulete matos
 

Desencanto e Revolta

Há revolta no bairro: há mais de 30 anos que mais de 2.500 pessoas vivem aqui, em 933 habitávıes. As casas foram ocupadas por gente humilde no ano de 1975. Depois de vários anos de negociáveis, ficou acordado com as várias instituições do Estado que durante 30 anos os habitantes das Amendoeiras pagariam rendas fixas e no final deste período as casas passariam para os moradores. Passado este tempo, o Estado entregou as casas a uma Fundação Privada (D. Pedro IV) que agora quer obrigar os moradores a pagar rendas astronómicas, com aumentos superiores a 2.000 por cento.

Estranho negócio com uma, não menos, estranha fundação que tem o estatuto de IPSS, e que ganhou, sem dar nenhuma contrapartida ao Estado, o direito de ficar com o dinheiro dos moradores. Um relatório da Inspecção-Geral da Segurança Social - entretanto misteriosamente arquivado e posteriormente substituído por outro mais favorável - considerou que “a fundação tem vindo a ser gerida por pessoas que não desenvolvem actividades tendentes a concretizar os seus fins, desenvolvendo antes outras actividades que nada têm a ver com os mesmos, das quais retiram proveitos pessoais”.
O relatório denunciava, entre outras coisas, tentativas de aliciamento por dirigentes da fundação para a realização de vultuosos negócios imobiliários e concluía pela necessidade da extinção da mesma.
O Esquerda faz um pouco da história deste bairro, em luta pelo direito à habitação, através dos seus comerciantes

Américo Oliveira, 44 anos, trabalha na Farmácia, já viveu no bairro. Conhece todo o mundo. Diz que a população do bairro é gente trabalhadora e muita gente reformada. “São pessoas que não têm muito dinheiro, eu vejo que muitas vezes não conseguem comprar os remédios receitados pelos médicos, devido a terem muito pouco dinheiro da reforma”. Américo acha que as pessoas idosas estão assustadas. Segundo sabe, técnicos da fundação disseram a alguns moradores que eles tinham casas muito grandes e talvez fosse melhor serem realojados noutros bairros, em casas mais pequenas. À porta da farmácia, encontrámos Filomena Costa, tem a cargo um filho deficiente, com 47 anos. Os técnicos da fundação disseram-lhe que teria certamente um bom apoio no processo de atribuição de uma renda subsidiada pela instituição. Neste momento, Filomena paga 9,5 euros de renda, a sua renda  aumentada passou para 372 euros, a fundação dá-lhe um euro de apoio!

Eugénio Grilo, 73 anos, é o dono do quiosque, Pertenceu à primeira comissão de moradores que acordou com o Estado o montante das rendas a pagar durante 30 anos e o compromisso que, findo este prazo, seriam entregues aos moradores. Mostra-se revoltado com as negociatas que pretendem fazer à custa dos habitantes das Amendoeiras. “Esta gente pensou que como muitos dos moradores são velhos poderia facilmente enganá-los, esqueceu-se que neste bairro as pessoas já conquistaram uma vez o direito à habitação e que isso não se esquece”.

Maria Amália é dona da mercearia, esta pequena loja foi comprada com o dinheiro ganho pelo marido que trabalhou na Suíça, como jardineiro, durante 10 anos. Neste momento, a mercearia quase não dá para sustentar a família. “A crise é muito grande, as pessoas ficam a dever, ou então pedem para comprar um ou dois ovos e uma cebolinha, em vez de gastarem o que costumavam”, diz Amália, concluindo que, “está muita gente com medo de perder a sua casa e há muita falta de emprego”.

Benjamim Marco, é o dono do Café. Vive no Bairro há 32 anos. O café foi comprado ao IGAPHE, ainda não tem escritura. A renda da sua casa passou de 11,55 euros por mês (quantia que pagou durante 32 anos) para 523 euros. Como fez com todas as casas, a fundação considerou que o café se encontrava em excelente estado, avaliou-o como se fosse novo. O que mais revolta Benjamim é a consciência que as poucas obras que foram sendo feitas nos prédios, foram à conta dos moradores. Da fundação só se conhece o asfaltamento e pintura das imediações da sua delegação no bairro. Foi no seu café que os primeiros comunicados foram sendo colocados para alerta dos moradores.

Alcides tem 55 anos e uma loja de ferramentas. Há 27 anos saiu da Marinha e foi para uma das casas das Amendoeiras. Estava ainda tudo em obras. Chegou com a filha, recém-nascida, deitada numa alcofa. Na altura, fez muitas obras na casa até a tornar habitável. Na sua profissão executava pequenas obras e vendia material de construção. Ele sabe, como ninguém, que ao longo de 30 anos, o bairro não foi abaixo porque os moradores foram cuidando dele e que mesmo grande parte dos espaços comunitários foram reparados e preservados à custa do trabalho e dinheiro dos habitantes. Como a maioria dos moradores, recusa-se a pagar o aumento das rendas pedido pela fundação. A fundação ameaça multar, pesadamente, os contestatários. Alcides comenta que o dinheiro da multa “daria para pagar 10 anos de renda”.

 
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