A nova lei de Lavoisier criar PDF versão para impressão
20-Abr-2007
Alice BritoDurante os 13 dias que durou o mediático sequestro dos marinheiros ingleses, o mundo sofreu aquela angústia acrílica e pontual com que se costuma sobressaltar à hora certa do telejornal.
As imagens mostravam-nos a marinheira Faye Turney, a voz lacrimejante a certificar um medo genuíno, a cabeça ambígua coberta por um Tchador coercivo, num discurso golpeado de pedidos e confissões.
Eis senão quando, como em qualquer série da TV os reféns são libertados por entre toneladas de sorrisos, abraços quentes, apertos de mãos sólidos e continências contidas produzidas pelos dedos rígidos e paralelos da hierarquia militar.

O mundo encenou, como de costume, um suspiro aliviado sendo que os marinheiros libertados se apressaram a desmentir todas as declarações produzidas no cativeiro.

Poder-se-ia pensar que o assunto tinha chegado ao fim - the end - não fora a notícia surgida depois, que declarava terem estes heróis sequestrados, aprisionados, vilipendiados e sofridos, recheado a sua conta bancária à custa da venda desta experiência aos jornais, que se apressaram a comprá-la.

Seguindo a carta náutica do mercado, os reféns transformaram o sofrimento o medo e a humilhação por que passaram, em mercadoria coisificando os sentimentos, numa alquimia perversa como só o mercado no seu toque de Midas brutal e velhaco consegue fazer.

O mercado. Essa realidade que nos apresentam como a salvação, que nos sussurram ser intransponível, e que absorve sequioso e expectante tudo o que lhe surge pela frente, dos recursos naturais à mão -de -obra infantil, da ciência à religião, do trabalho trespassado por mais-valias absurdas até ao ócio enquanto sonho fugaz e sazonal; Diligente e dirigente, o mercado coloniza com eficácia a vida quotidiana, rentabilizando os media, aliados formidáveis na grande empresa de nos transformar em meras e tenras marionetas - cruzam uns fios e nós andamos, puxam outros e nós trabalhamos, pára a sessão e vamos dormir. A televisão e o resto da acústica mercantil, falam por nós.

O mercado e os media, o binómio-síntese de um mundo, em que as longuíssimas tardes nostálgicas e insalubres de um cativeiro, se transformam em mercadorias de altíssimo preço num leilão de afectos e angústias.

A velha Lei de Lavoisier - na natureza nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma - parece assim ter sido cirurgicamente aplicada ao velho sistema doente em que vivemos - No mercado nada se perde, tudo se transforma em mercadoria.

Só que, dizem os cientistas, o conhecido postulado de Lavoisier, está hoje irreversivelmente ultrapassado.

Inquestionado e inquestionável durante muito tempo, revela-se hoje apenas uma memória. Foi possível desmenti-lo...

Alice Brito, Advogada

 
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