A música de Van Zeller criar PDF versão para impressão
30-Abr-2007

Mariana AivecaA frase que ilustra a entrevista de Van Zeller, ao Semanário Económico na passada sexta feira, "se houver mais flexibilidade poderemos aceitar menos precariedade" não deixa nenhuma dúvida sobre os verdadeiros propósitos do capital, quando falam de flexi-segurança.
O Sr. da Confederação dos Patrões do alto do seu pedestal e, sem qualquer complexo ou inibição, disse que quer ter uma voz mais forte, chamar a si mais sectores, nomeadamente das comunicações. Disse ao que vinha e deu o mote aos seus subordinados e aliados, patrões e primeiro-ministro, sobre a forma como devem jogar o "jogo" nas empresas e nos serviços, públicos ou privados, nos próximos tempos.

Esse jogo é claramente o da chantagem. É o jogo onde vão condicionar as pessoas, fazer-lhes sentir que poucas escolhas têm, que a inevitabilidade é normal. Ou aceitam ser mais submissos "flexíveis" ou serão eternamente precários "transitórios".

É o jogo da corrosão das suas vidas e até do seu carácter. Ou aceitam apenas o almoço ou ficam sem nada para comer. É o absoluto estado de necessidade.

É o jogo de quem quer que se provoque competição e a disputa entre trabalhadores, lançando a ideia de que "ou lhes passam a perna ou são eles próprios ultrapassados".

É o jogo de quem quer que se acredite que a inteligência das pessoas nada vale porque elas próprias nunca serão capazes de ultrapassar barreiras, de forjar a unidade necessária para transformar e mudar as suas vidas, de determinar o seu futuro.

É o jogo de quem quer que se oprimam e se calem injustiças, se pervertam valores e solidariedades.

Mas este jogo de Van Zeller é viciado à partida. Quer ter sempre e sempre os mesmos ganhadores e, como nos filmes policiais, mesmo no princípio já se antevê o culpado final", o mordomo naturalmente".

E do alto do seu pedestal falou de tudo, ou quase tudo, o que está ou vai estar em discussão nos próximos tempos.

Falou da necessidade de mais flexibilidade funcional, geográfica ou de horários, de part-time, especialmente para as mulheres pois claro! Nada que o Governo não esteja a fazer. nomeadamente na função pública com a lei da mobilidade.

Falou das limitações do Código do Trabalho, considerando que o mesmo é rígido e o causador da baixa produtividade e por isso tem trabalhado no sentido de ser alterado. Nada que o Governo não tenha já feito pois a única alteração que fez ao Código foi para pior.

Falou do Simplex e do Prace, nada que o governo não exalte a todo o momento, em nome da desburocratização e do rigor. Mas o que temos, quer num aspecto quer noutro, é a mais completa falta de rigor: veja-se o que se passa com o episódio do relatório do tribunal de contas, sobre as nomeações de assessores, ou com as novas propostas do governo, sobre as alterações dos PDMs e Planos de Pormenor.

Falou bem da UGT e considerou que pode ser um parceiro privilegiado e importante.

Falou da falta de capacidade dos desempregados de longa duração em encontrarem um novo emprego, culpando-os dessa situação.

Falou entusiasticamente, bem, muito bem, de Sócrates, exaltando a sua teimosia, classificando-o acima do governo, acima de Santana, Durão e Guterres. O melhor dos últimos tempos.

Creio que um leitor mais incauto chegará ao fim desta entrevista com uma dúvida certamente. Será Van Zeller o inspirador de Sócrates? Ou, ao contrário, Sócrates inspira Van Zeller.

Esta é uma música, tocada por músicos duma mesma orquestra, e que faz parte de um grande "concerto" ao som do qual não podemos nem adormecer nem deixar-nos embalar, sob pena de em vez de ter um breve sonho acordarmos certamente com um enorme pesadelo.

Acredito que as portuguesas e os portugueses que trabalham saberão eles próprios compor e tocar a música da igualdade fraternidade e da liberdade, será essa que faremos passar por aqui.

Mariana Aiveca

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.