A tentação totalitária criar PDF versão para impressão
04-Mai-2007
Rui BorgesAs actividades da extrema-direita têm preenchido regularmente os noticiários e páginas de imprensa em tempos recentes. O vergonhoso concurso televisivo que elegeu Salazar o maior português de todos os tempos criou entre a franja nazi da nossa sociedade a crença de que há um espaço para a afirmação daquilo que eufemisticamente chamam de nacionalismo. O barulho que fazem é claramente desproporcional àquilo que representam, mas vai servindo para dar nas vistas. No sábado passado (28 de Abril) o semanário SOL trazia na primeira página uma chamada de atenção para o facto de o PNR usar uma imagem de propaganda nazi no seu cartaz do primeiro de Maio. Nada de surpreendente vindo de quem vem. Na página 7 o líder do grupo explicava não se sentir desconfortável com a questão e até explicava que para eles o 1º de Maio não é o Dia do Trabalhador mas sim o dia do trabalho nacional. É que isso do Dia do Trabalhador advoga a luta de classes e portanto é um incitamento ao ódio. E incitamentos ao ódio são coisa com que estes rapazes sempre se sentiram desconfortáveis.

Mas mais importante que o folclore nazi é a coluna que José António Saraiva (JAS) dedica à extrema-direita sugestivamente intitulada "A tentação totalitária". O director do jornal começa por afirmar - erradamente - que a extrema-direita é um caso de polícia e não um caso de política. Mas alerta que para evitar que se dê essa transformação é necessário atacar alguns problemas. O primeiro deles seria a imigração visto que "muita gente socialmente desfavorecida já protesta em surdina contra o facto de africanos, ucranianos ou brasileiros estarem a tirar o emprego aos portugueses". Para quem espera de JAS propostas de direitos de cidadania iguais para evitar os abusos patronais ou uma política de promoção do emprego desengane-se. A solução é mesmo o "controlo" da imigração. O segundo problema é o do nacionalismo. O "fim do império" (??), o euro, e o encerramento de empresas nacionais andam a criar um "certo estado de desalento nacional". Talvez uns euros a mais nos bolsos de quem trabalha pudessem ajudar a esquecer o escudo e a gozar um pouco mais a vida. Mas não, a solução passa mesmo por cultivar "um certo orgulho de ser português". O terceiro problema prende-se com a forma como o 25 de Abril nos afastou do mar e das relações com África. Mais dias de férias para o pessoal ir até à praia? Uma verdadeira política de auxílio ao desenvolvimento do terceiro mundo? Nada disso, o que é preciso é recuperar as relações com as ex-colónias porque faz parte da nossa identidade e representa óptimas oportunidades de negócio. Por fim, JAS conclui, o estado tem que ter autoridade. Mas nesse campo estamos em muito melhor posição pois Cavaco e Sócrates garantem uma governação de pulso firme. Resumindo, para combater a ameaça da extrema-direita o que é necessário é controlar a imigração, promover o orgulho nacional, promover o capitalismo português em África e reforçar a autoridade do estado. Resumindo um pouco mais, para combater a extrema-direita nada melhor do que adoptar as políticas da extrema-direita.

Será "A tentação totalitária" uma autocrítica, uma confissão da atracção de JAS pelo abismo? Este fascínio do centrão pelas ideias nazis já teve consequências graves noutros países. Em França, a Frente Nacional foi durante anos um grupo insignificante a pregar o ódio aos imigrantes. Até que nos anos 80 o governo PS em apuros com a crise económica se recusou a combater a propaganda de Le Pen que acusava os imigrantes de serem os culpados pelos dois milhões de desempregados. Os partidos da direita por sua vez apressaram-se a estabelecer coligações eleitorais com Le Pen. O resultado é conhecido de todos, ao longo dos anos o veneno racista - com diferentes graus de diluição - tem-se infiltrando no centro do debate político em França. Basta lembrar Sarkozy. Outras "Frentes Nacionais" têm surgido por vários países europeu pela mesma razão simples: se discutimos os problemas do país partindo do princípio que os imigrantes são os culpados pela crise então estamos a abrir a porta às ideias dos partidos fascistas. É que lançar a histeria sobre a "invasão imigrante" só pode ser feito à custa de muito preconceito e desumanidade. E nesse jogo os nazis jogam em casa. Assim que um oportunista ganhe coragem para dizer em público o inaceitável, a imundice racista contaminará todo o debate político. E os nazis ganham a dobrar: crescem eleitoralmente e as suas ideias racistas ganham um verniz de normalidade.

Por isso JAS se engana - a extrema-direita pode transformar-se rapidamente de um caso de polícia num caso de política. E o facto de cronistas e políticos à procura de atenção se deixarem seduzir pelas suas ideias só lhes facilita o caminho.

Há, em tudo isto, um elemento que não podemos esquecer. A actividade da extrema-direita não surge do nada, ela tenta aproveitar um contexto em que o país está mergulhado numa grave crise social, com a agenda neoliberal de José Sócrates a arruinar a vida de milhares de pessoas. Face a esta crise, a extrema-direita terá tanto mais espaço para crescer, quão ausente a esquerda estiver das lutas sociais. E neste campo tem sido a esquerda a marcar posição. Em Outubro e Março a CGTP juntou na rua mais de cem mil trabalhadores em protesto contra o governo, em Fevereiro a despenalização do aborto foi finalmente aprovada por uma clara maioria. O 25 de Abril e o 1º de Maio foram comemorados na rua por milhares de pessoas. Pela primeira vez, os trabalhadores precários organizaram-se para celebrar o 1º de Maio, desfilando lado a lado com trabalhadores imigrantes. Aliás, no 25 de Abril a polícia teve que usar a violência para proteger o PNR e a sua propaganda racista dos jovens que saíram à rua para celebrar a conquista da liberdade. A greve geral convocada para 30 de Maio promete ser um grande momento de luta e mobilização. Talvez por tudo isso o dia do trabalho nacional organizado pelo PNR - e depois de um mês de intensa exposição mediática - não tenha passado de mais um convívio de skinheads.

Mas não tenhamos ilusões. A extrema-direita não anda a dormir e não vai deixar de tentar conquistar algum espaço político. E o melhor antídoto é uma esquerda combativa organizada nas escolas e nas empresas, que ao racismo e à intolerância saiba contrapor a solidariedade na luta contra o neoliberalismo.

Rui Borges

 
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