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30-Jul-2006

A ORIGEM "TERRORISTA" DE ISRAEL
kingdaviddestroyedEnquanto as forças israelitas matavam mais de 300 civis e expulsavam de suas casas mais de meio milhão de pessoas para erradicar o “terrorismo”, uma pequena e amarga ironia histórica passava despercebida no início desta guerra em Israel.
Os veteranos de uma outra organização “terrorista” reuniram-se, nos narizes das forças israelitas, para comemorar a matança de 91 pessoas, entre as quais 28 britânicos, num hotel de Jerusalém.

Por Johann Hari

Relembraram com saudade os dias em que punham bombas que fizeram em pedaços civis nos autocarros, mercados e cafés, introduzindo estas tácticas no tango do Médio Oriente.
Recordaram quando cercaram toda a população de uma aldeia - de 251 homens, mulheres e crianças – e os mataram à bala. Inclusive celebraram a captura de soldados inimigos a quem mantiveram em cativeiro durante semanas até que os libertaram.
Esta organização terrorista, foi castigada por um bombardeamento da força aérea israelita? Nada disso.
O grupo chamava-se Irgún, e era composto por nacionalistas judeus cujos folhos formam parte da elite governante israelita.
Durante as décadas de 1930 e 1940 colocou bombas por toda a Palestina, tomando como alvos tanto soldados britânicos como civis palestinianos. Tinha dois objectivos: expulsar os imperialistas britânicos e obrigar através do terror que a população palestiniana aceitasse incondicionalmente a criação de Israel.
É duvidoso que Ehmud Olmert, primeiro ministro de Israel que declarou “guerra ao terror”, alguma vez condenasse o Irgún. Ele passou três anos da sua vida em campos de treino da organização, enquanto os seus pais faziam contrabando de armas para a mesma. Tzipi Living, a ministra dos Negócios Estrangeiros a quem muitos consideram ser a próxima primeira ministra, é filha do director de operações militares do Irgún e o principal orquestrador das matanças de civis palestinianos.
Enquanto a guerra no Líbano passava para o primeiro plano da actualidade, os combatentes do Irgún ainda vivos descerraram uma placa para assinalar o 60 aniversário da sua deisão de fazer voar o hotel Rei David. Se Olmert, Livni e o público israelita puderam relembrar a sua própria história familiar de “terrorismo”, então seriam capazes de ver a inutilidade das suas actuais campanhas militares contra os “terroristas” em Gaza e no Líbano.
Quando o povo israelita não tinha Estado, uma parte da sua população tomou as armas e lutou por esse objectivo... muitas vezes com tácticas terríveis.
Alguns inclusive tiveram sonhos dementes de limpeza étnica. O povo palestiniano está exactamente na mesma situação hoje, alimentada e financiada pelo Hamas e o Hezbollah.
Há três verões conheci, num frio e austero local de Gaza, um grupo de jovens que se treinava para ser combatentes suicidas. Enquanto falava com estes jovens temperados pela raiva, estremecia-me por escutar quão conhecidas me pareciam as suas palavras. Nessa altura, lia as memorias de Menajem Begin, comandante do Irgún que chegou a ser primeiro ministro de Israel pelo partido Likud. “O sangue deu vida à nossa revolta”, escreveu. “Só quando estás preparado para enfrentar o próprio Zeus para levar o fogo à humanidade poderás enfrentar a revolução do fogo”. Os presumíveis assassinos suicidas diziam-me: “Criaremos a Palestina a sangue e fogo. Os judeus só entendem o sangue e o fogo”.  
 Olmert e Livni precisam de perguntar como haveriam de ter respondido os seus pais, decididos combatentes terroristas, ao bombardeamento aéreo que Israel inflige nestes dias. Os membros do Irgún não pararam de assassinar civis árabes porque os detiveram os barcos de guerra britânicos e os helicópteros Apache: pararam porque o mundo lhes deu um talhão daquilo que eles queriam. Não tudo: eles queriam toda a terra que se estende do rio Jordão ao Mediterrâneo, porem transigiram para ter um Estado próprio dentro de fronteiras mais modestas.  
Hamas e Hezbollah não podem ser silenciados por meios militares.
Pode ser que consigam neste ano destruir-lhes o arsenal de mísseis, mas a sua renovada ferocidade e ódio garantirá que se reconstruam no próximo ano. Não ficarão parados observando como os seus filhos são reduzidos a níveis de desnutrição perto dos de África, como acontece em Gaza e a mortalidade infantile cresce na Palestina.
A única forma de os silenciar é dar-lhes, por uma vez por todas, o que eles querem, não tudo. Os dois acordaram que se se permite uma solução real de dois estados respeitando as fronteiras de 1967, não voltarão a fazer um disparo para Israel, Querem toda a terra, limpa etnicamente dos seus inimigos, tal como queriam os pais de Olmert e Livni há 60 anos… mas conformarão-se com menos.
No entanto o governo de israelita não escolheu este caminho para diminuir o conflito e negociar para atingir o objectivo de dois estados para dois povos no estreito pedaço de terra que estão condenados a compartilhar. O governo israelita escolheu a guerra.
E por isso, daqui a 60 anos, combatentes libaneses e palestinianos reunir-se-ão com orgulho na cidade de Gaza e Beirute para descerrar placas em honra dos “terroristas” que mataram e morreram combatendo Israel nesta semana.


Johann Hari

* Dramaturgo e jornalista britânico.

Publicado no The Independent

 
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