O que são assuntos especificamente femininos? criar PDF versão para impressão
14-Mai-2007
anfrea_peniche.jpgO feminismo, como todas as correntes de pensamento, não fala a uma só voz. O feminismo é, essencialmente, uma corrente teórica que tem como objecto de estudo as mulheres e as relações de género subordinadas. Mas, ao contrário do que se possa pensar, o feminismo não é, necessariamente, de esquerda. Bem pelo contrário. Basta reportarmo-nos à campanha do referendo do aborto para percebermos as diferentes maneiras como a teoria feminista pode ser apropriada. Tanto o campo do Sim como o do Não se referiram às mulheres. No campo do Sim, as mulheres foram entendidas como vítimas de uma lei injusta, que as impedia de serem cidadãs, no sentido em que as suas escolhas eram entendidas pela sociedade e pelo poder legislativo como carentes de responsabilidade e moralidade. A afirmação e reconhecimento da autonomia das mulheres nas decisões sobre a sua fecundidade foi, pois, o central no discurso do Sim. E este discurso pode ser considerado de esquerda, ou emancipatório, porque se orienta no sentido da igualdade e, portanto, da transformação das relações sociais de género.

Mas, também o discurso do Não se reportou largamente às mulheres. Aqui, as mulheres dividiram o protagonismo com o embrião, tendo estas ocupado a base da pirâmide valorativa no dilema ético instaurado. A identidade feminina esteve, neste discurso, sempre agrilhoada ao papel social que está reservado às mulheres: a maternidade. A maternidade, nesta elaboração, é entendida como passaporte das mulheres para a cidadania. As mulheres são aqui percebidas como seres humanos por relação à sua capacidade procriativa e não como seres humanos que fazem escolhas livres e informadas nas suas vidas, que poderão não passar sequer pela maternidade. E este é um discurso conservador porque não tem como horizonte a igualdade nem a transformação das relações sociais de género, estabelecendo, ao invés, uma sociedade dividida em sexos, onde cada qual tem a sua função, sendo que esta função é estanque e tem valores sociais e simbólicos associados diferenciados, que menorizam e depreciam as mulheres.

Por isso digo que o feminismo não é todo de esquerda. O feminismo de esquerda é aquele que olha as mulheres como criadoras e porta-vozes das reivindicações que transformam a sua situação de subordinação, mas também como agentes da transformação social global. O feminismo de esquerda é aquele que não acantona as mulheres nos assuntos de mulheres, mas antes as reconhece como sujeitos da transformação social global.

Por isso pergunto: o que são assuntos especificamente femininos? Em meu entender, esses assuntos são aqueles cujas únicas vítimas reais e concretas são as mulheres. São aqueles que resultam do machismo e da misoginia. O controle da fecundidade é, seguramente, um deles. Mas, o desemprego, por exemplo, apesar de afectar maioritariamente as mulheres, não é, em meu entender, um assunto especificamente feminino, apesar de afectar de forma particular as mulheres. Por isso, atrelada a esta questão vem uma outra que, creio, ajuda a clarificar a primeira: como deve uma organização de esquerda relacionar-se com as mulheres, sabendo que nem o machismo nem a misoginia são património exclusivo da direita? Do meu ponto de vista, e defendendo a autonomia dos grupos feministas e de mulheres, as organizações de esquerda devem procurar integrar as propostas feministas progressistas na sua agenda. Mas esta integração não deve ser encarada como uma questão de refinamento democrático, porque ela é antes condição elementar de igualdade e justiça sociais. Isto significa que uma organização de esquerda deve olhar a sociedade como ela é: composta por dois sexos, em que um está subordinado ao outro. E não há igualdade nem justiça possíveis se do projecto de emancipação não fizer parte a transformação de todas as relações sociais subordinadas.

Por isso recuso o reconhecimento das mulheres apenas como porta-vozes das ditas questões especificamente femininas. Combater a subordinação feminina passa não só por integrar as reivindicações feministas na agenda da transformação social, mas também por reconhecer as mulheres como porta-vozes e agentes da transformação social global. As mulheres não podem ser acantonadas nos assuntos específicos da sua condição porque isso significa a reprodução do sistema de dominação, mesmo que travestido de uma pretensa preocupação igualitária.

A esquerda socialista é, em meu entender, aquela que sabe integrar o pensamento e as reivindicações feministas, mas que, simultaneamente, não acantona as mulheres nos ditos assuntos de mulheres.

Uma esquerda socialista é, pois, aquela em que os seus e as suas militantes traduzem na prática quotidiana todas as propostas emancipatórias, percebendo, por exemplo, que o combate ao desemprego passa também por compreender e combater a segregação das mulheres em algumas profissões e a divisão sexual do mercado do trabalho. Não é tarefa específica das mulheres combater o desemprego feminino e a divisão sexual do trabalho. Esta tarefa é uma tarefa de todas e todos que se reivindicam do socialismo.

Por isso recuso a dupla jornada militante. Em meu entender, os grupos de mulheres fazem sentido para preparar a discussão, para introduzir novas questões na agenda da organização, mas o trabalho de concretizar a proposta política transformadora na sociedade, isso é tarefa de todas e todos.

Andrea Peniche

 
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