De pequenos nadas... criar PDF versão para impressão
01-Ago-2006

Miguel PortasRegresso pela estrada de montanha por onde entrei, vindo de Damasco. A fronteira ainda está aberta. Por poucos dias, aliás. O cenário é distinto do da chegada. Descendo para o vale de Beckaa, novos camiões de alimentos jazem, calcinados, nas bermas. A caixa aberta de um, tem ainda os legumes à vista. Um pouco mais abaixo, uma jornalista da Al Jazzira faz o seu directo com uma vila por cenário. Também aí caíram os castigos do céu. Israel atacara pela manhã as encostas do vale.

Em Beirute, não visitei o Sul da cidade. Não veria por lá nada que as televisões não mostrem. Ao 15º dia de guerra, Hassam Hajj, deputado do Hezzbollah, estimava em duas centenas os edifícios destruídos nessa zona. Cinco mil famílias sem casa. Ou seja, 40 mil desalojados, uma gota mais de tragédia nos 750 mil que fugiram da guerra e se encontram espalhados pela Beirute poupada, e pelo centro e Norte do país. A maioria são crianças. Acotovelam-se em escolas, em casas desocupadas, ou recebidos por famílias. Sabe-se hoje que isto é pouco comparado com o tormento dos que não conseguiram sair ou, pelos mais variados motivos, não quiseram abandonar as suas terras. O massacre de Qana foi apenas o mais brutal. Não foi único, nem excepção.

Não fui para Sul, mas falei com pessoas que aí conhecera, homens e mulheres que iniciaram as suas fugas ao quinto e sexto dias de guerra. Estive também com os grupos de jovens que na Zico house se desdobravam em equipas de apoio humanitário. Entre todos e todas, recordo Fawaz Hanadi. Conhecia-a em Tiro, onde era vereadora, eleita como independente nas listas do Hezzbollah. Esta mulher, xiita e laica, que não usa lenço e veste à ocidental, dirigia um projecto de diálogo inter-comunitário. A sua história não pertence aos catálogos e epítetos da "guerra contra o terrorismo". Apenas a desmente. Como tantas outras. Agora em Beirute, depois de ter colocado avó e mãe em segurança, ela continua, apoiando clínicas móveis. Arranjou tempo para me agradecer. Não precisava. Neste reencontro, em que me perguntava que mal teria feito ao mundo por ser xiita, percebi o valor de uma visita, de uma pequena solidariedade. Para quem resiste e se sente abandonada por um mundo incapaz de travar a besta assassina, ajuda. Ajuda mesmo.

 
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