Os Banlieues de Sarkozy criar PDF versão para impressão
15-Mai-2007
Alice BritoHabituaram-se a orientar a vida em função de pontos cardeais diferentes. A República, negando-lhe o Norte, fê-los fabricar uma outra bússola.
O ecossistema familiar, económico e político dos jovens de Clichy-Sous-Bois tem gravitado em torno de um bastão policial que lhe serve de eixo.
Há ali naqueles "banlieues", uma outra cidade: mais feia, mais decadente e descrente de si, com memória de humilhações várias embutidas na pele como um ornato, inatingida pela esperança do fim da crueldade e da exclusão.
Esta outra cidade aceita a noite, que implacável se anicha nos cantos mais obscuros, propiciando ciladas e apontando certeira caminhos que conduzem ao ponto absurdo de uma violência sem regresso.

São jovens suburbanos. São aliás sempre sub qualquer coisa. Para Sarkozy, são seguramente subjovens, subpessoas, subgente, a escumalha.

Naqueles bairros vivem, pois, criaturas que não têm sido consideradas pelo Estado Francês como cidadãos.

Vivem numa espécie de reservas, como os índios americanos, com o tempo a escorrer pelas gretas que o desemprego, a falta de escola e de raiz foram abrindo.

Vivem um tempo de pele. Um tempo escuro, como a noite feroz que incendeia os carros.

Estes jovens não têm existido para o Governo Francês, que sem delicadeza lhes tem fechado as portas da cidade, do emprego e da cidadania.

Até Novembro de 2005 eram invisíveis. O braço do poder central, local e policial havia-os puxado sem brandura para fora dos bairros residenciais parisienses, muito brancos e limpos, a cidade da luz no seu melhor.

A magnífica cidade de Paris: Les Champs Elisées, o Arco de Triunfo, a Ópera da Bastilha; o Louvre, La Villete, o Quai D'Orsay, referências culturais de todo o ocidente, memórias vivas de Impérios e pilhagens, onde se guardam e exibem os primores da arte, da inteligência, da aventura humana. A magnífica e soberba cidade de Paris, onde se ancoram memórias como navios atracados em portos construídos pela História.

A Revolução de 1789, A Comuna, Maio 68 desfilam perante nós, como laboratórios onde a humanidade ensaiou novos dias.

E no entanto também essa França, que se revê com afecto nas mensagens póstumas da Comuna ou do improvável mês de Maio, ou ainda na resistência depois da capitulação, afastava incomodada, até há pouco, os olhos dos subúrbios que não reconhece como seus.

Também essa França tem rejeitado num desamor carregado de suspeições, estas periferias sem alma onde se (des)arrumam em prédios degradados, como em gavetas, gente que se prefere não ver.

E no entanto eles existem.

Existem, são duros e têm a ferocidade própria de quem nada tem a perder.

Existem e são temíveis na raiva enquistada e brutal que o subúrbio e a exclusão emprestam.

Na precisa noite em que Sarkozy foi eleito, o mesmo Sarkozy que em Novembro de 2005 os apodou de "escumalha", foram incendiados em toda a França 730 carros. A polícia prendeu 592 pessoas, tendo alguns agentes ficado feridos.

Pensará Sarkozy e a direita francesa, que conseguirão deter estas marés sísmicas à bastonada?

Pensará Sarkozy que o remédio para o ódio e o rancor, entesourados durante décadas, e tratados com a assepsia da indiferença, é a repressão, ou a continuidade alarve da arrogância racial?

Este terceiro milénio tem-se revelado impiedoso, apesar de jovem e prometedor.

Abrigou já no convés dos seus dias, guerras, massacres, torturas indizíveis, desatinos profundos.

De França, a pátria das ideias, do requinte e da cultura, chão valiosíssimo de uma Europa ensimesmada e autoreferencial, chega-nos um vento de inquietação, habitantes que somos de um espaço comum.

Os jovens de Clichy sous Bois, poderão ser a escumalha.

Mas quem promoveu o apartheid, o guetto, o desemprego, quem planifica a densidade da miséria e do insucesso de forma reiterada e consciente, não é seguramente menos escumalha.

Mais sórdida, porém!

Alice Brito

 
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