Foi você que pediu para ser torturado? criar PDF versão para impressão
17-Mai-2007
jose_guilhermegusmao.jpgTodos os anos as cenas se repetem. A praxe, apresentada pelos seus entusiastas como uma forma de integração dos novos estudantes, faz mais vítimas entre os que a ela são submetidos. Recentemente foram divulgadas mais algumas consequências, daquilo a que os praxistas chamam o são convívio académico: um estudante foi imobilizado e ferido na zona púbica, enquanto lhe rapavam os pêlos com uma lâmina de barbear; outro ficou com as unhas negras devido a um ritual que consiste em bater com uma colher de pau nos nós dos dedos; outro ficou com hematomas e nódoas negras na zona do cachaço e costas; outro ficou com uma perfuração no couro cabeludo, quando o seu cabelo estava a ser cortado. Tudo sã camaradagem, portanto. Mas aquilo que, em circunstâncias normais, seriam casos de polícia, no contexto das nossas universidades, passam a ser um ponto de partida para processos absurdos, em que entidades fictícias pronunciam-se e tomam decisões enquanto as Universidades e as autoridades judiciais se remetem à mais absoluta passividade, quando não colaboram no encobrimento dos factos, como aconteceu no caso de Ana Sofia Damião.

Uma dessas entidades fictícias é o Conselho de Veteranos, liderado pelo "Dux Veteranorum", uma figura que se distingue por ter que contar pelo menos 9 matrículas na Universidade. José Luís Jesus, o actual Dux tranquilizou a comunicação social dizendo que o Conselho de Veteranos iria "fazer as averiguações" [1] e, caso se verificasse a veracidade das acusações, iria "até às últimas consequências". Mais tarde, presume-se que após as "averiguações", veio a público dizer: "já sabemos que é tudo mentira! Se o estudante tem um rompimento no escroto, foi porque fez outra coisa qualquer!".

Esta singular jurisprudência é da responsabilidade da mesma entidade que tutela o próprio ritual que dá origem aos abusos. Nunca melhor exemplo se encontrou de juízo em causa própria. Mas há uma novidade: a demarcação clara dos abusos (quando estes não podem ser desmentidos) e a afirmação de que estes nada tema ver com o espírito da praxe. Diz Paulo Fernandes da Académica de Coimbra que estes incidentes "ultrapassam o âmbito da praxe". Ora, aqui é que bate o ponto. Não ultrapassam nada.

A violência e a submissão estão inscritas em toda a lógica da praxe. O código da praxe define, por exemplo, que o caloiro não tem direitos e deve obediência aos veteranos. Se, por exemplo um caloiro olhar um veterano nos olhos, este pode mandá-lo olhar para baixo. É desta simbologia grotesca que é feita a praxe. A isso se soma a ausência de outros mecanismos de integração dos novos estudantes nas faculdades, que tornam a praxe a única alternativa à marginalização. Da cultura à coacção, da coacção à violência aberta, é depois um passo. Os abusos são inevitáveis nesta cultura e é por isso que é a cultura que é necessário alterar. Pela raiz.

José Guilherme Gusmão



[1]           in Comunicado do Mata

 
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