A saída de Musharraf criar PDF versão para impressão
25-Mai-2007
manif_advogados_paquistaoNa crise que evolui rapidamente no Paquistão, aconteça o que acontecer, o presidente Pervez Musharraf - sobreviva politicamente ou não - é um peso morto. Não consegue controlar a talibanização do Paquistão ou conduzir o país a um futuro mais democrático.

Por Ahmed Rashid, publicado originalmente no Washington Post, 22/3/2007

Desde 9 de Março, quando Musharraf suspendeu o chefe de justiça do Supremo Tribunal, Iftikhar Mohammed Chaudhry, os protestos públicos ampliaram-se todos os dias, e o mesmo aconteceu à violenta onda repressiva da polícia e das agências de espionagem sobre os média e a fraternidade legal da nação.

As convulsões legais em torno da demissão de Chaudhry derivam de um único e simples facto: ele não era considerado suficientemente confiável para fornecer jurisdição favorável ao poder, num ano em que Musharraf procura estender a sua presidência por mais cinco anos, permanecer chefe das forças armadas e realizar o que seriam sem dúvida eleições gerais fraudulentas.

O desejo de Musharraf de substituir Chaudhry por um juiz mais maleável foi um tiro que saiu pela culatra. Depois de apenas dez dias de protestos, advogados por todo o país deixaram claro que não vão tolerar mais validações legais para a continuação do regime militar ou tolerar a permanência de Musharraf na Presidência. Pelo menos sete juízes e um vice-procurador geral renunciaram em protesto.

Por todo o país, nos escritórios de advogados, nos média, entre os partidos de oposição e noutras secções organizadas da sociedade civil, cresce o sentimento de que Musharraf vai ter de sair, e que é melhor cedo que tarde. Depois de oito anos de regime militar, parece que o povo se fartou.

Além disso, Musharraf está a perder o controlo de três elementos-chave que apoiaram o seu governo mas que hoje se distanciam ou se afastam dele completamente.

O primeiro é o Partido da Liga Muçulmana do Paquistão, que agiu como apêndice dos militares mas enfrenta hoje uma eleição e sabe que defender o impopular Musharraf vai afastar os eleitores. Os líderes do partido e os ministros do gabinete já estão a distanciar-se dele.

O segundo elemento são as três agências de espionagem do país, que discordam do controlo de Musharraf sobre a política externa do Paquistão e da sua atitude face aos média. O serviço de Informações Militares e a Espionagem Inter-serviços são agências militares, enquanto a maior agência civil, o Intelligence Bureau, é dirigido actualmente por um militar. Ironicamente, a Espionagem Inter-serviços, a mais poderosa agência do país, foi o elemento moderado que instou Musharraf a abrir o sistema político aos partidos de oposição. As outras duas agências são linha-dura e querem que Musharraf adopte medidas ainda mais duras.

A terceira perda de Musharraf foi o incondicional apoio internacional que tem recebido desde os ataques do 11 de Setembro. A irritação no Congresso dos EUA e nos média, e particularmente entre os membros do Partido Republicano, em relação à política ambígua de Musharraf no Afeganistão – ajudando a apanhar membros da Al-Qaeda mas apoiando os talibans – torna difícil que o presidente Bush continue a oferecer a Musharraf o seu pleno apoio.

Foi essa a mensagem que o vice-presidente Cheney levou a Musharraf em Islamabad no mês passado: a menos que Musharraf persiga os talibans, a administração Bush deixará de poder protegê-lo.

Qualquer perda de apoio ocidental seria crítica para o Exército, envolvido numa farra de compra de armas que depende da ajuda militar anual dos EUA de cerca de 300 milhões de dólares. Musharraf equilibrou as facções pró e anti-americanas no corpo de oficiais do Exército, mas se ambos os lados o virem como um peso morto, incapaz de fornecer bens ou de estabilizar o país, o apoio com que conta vai diminuir.

Hoje, Musharraf está demasiado fraco para seguir políticas que possam manter em cheque os que o querem apunhalar pelas costas, restaurar a sua credibilidade em casa e fora, e seguir o objectivo de permanecer no poder nos próximos cinco anos.

É de longe melhor que ele recue para a promessa que fez quando tomou o poder em 1999: devolver o país à democracia. O seu melhor curso de acção seria dizer que não é candidato à presidência, realizar eleições livres e justas, permitir o regresso dos exilados políticos, restaurar os direitos políticos plenos e elegantemente partir, com o seu legado, que é considerável, intacto.

É do interesse dos Estados Unidos apoiar esta estratégia de saída. Os militares já não podem conter o crescimento fenomenal do extremismo islâmico usando apenas ofensivas. O que o país precisa é de maior consenso político e de um governo eleito popularmente, e substituir as extorsões dos mullahs pelo regresso da política parlamentar quotidiana. O exército criou um vácuo político no qual o extremismo floresceu. O Paquistão precisa de um regresso à sociedade e ao governo civis.

Ahmed Rashid, jornalista paquistanês, é o autor de "Taliban" e de "Jihad: The Rise of Militant Islam in Central Asia."

 
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