Sul, margem Sul criar PDF versão para impressão
29-Mai-2007
Alice BritoCom a impante desfaçatez que o poder empresta, o Eng. Mário Lino, tonitruante e seguro, veio dizer-nos que a margem Sul é um deserto - "não há gente, não há escolas, não há hospitais, não há cidades, não há indústria não há comércio, não há hotéis".
As palavras escorregavam-lhe velozes pelo corredor certeiro do discurso, cavalgando em direcção às câmaras que como esponjas absorviam o batalhão de asneiradas arremessadas assim à toa, sem rei nem roque numa retórica absurda. A margem Sul - o Deserto.
O Tejo, fronteira líquida e azul, a separar desenvolvimentos, cosmopolitismos, primores da civilização.

Viria depois o ministro, com o discurso da emenda, que não disse o que disse e se disse não queria dizer. Só que o ministro não diz que o que disse corresponde exactamente àquilo que o Ministro pensa.

E foi por isso mesmo que na margem Sul, as ministeriais afirmações desérticas caíram pesadas no chão de uma 4ª feira de trabalho, transportes e televisão.

Não há gente.

Os milhões de habitantes a Sul do Tejo são absolutamente invisíveis para o governo, como aliás, sê-lo-ão também os da margem Norte; a invisibilidade só desaparece pontualmente de quatro em quatro anos, alguns meses antes do ritual da urna.

No dia seguinte, o dia de todos os perjúrios, ou mesmo na própria noite da euforia ou do desespero, a gente do Norte e a gente do Sul deixa de existir. Gente com rosto e com vida, e com raiva e com afecto, desaparece do mapa visível na vertigem dos negócios, dos acordos, dos lugares.

Não há gente - disse o ministro no traçado das palavras que edificaram o discurso consentâneo, não só com o que ele próprio pensa, mas também com o que pensa o ministro da Economia quando prometeu aos trabalhadores da Delphi a criação de postos de trabalho que afinal já tinham sido ocupados há meses noutras geografias e necessidades.

Esse outro refugiar-se-ia depois num silêncio crispado, no exílio da ideia, incumprida a promessa unilateralmente revogada.

Estes ministros mostram-nos que estas políticas supostamente salvadoras e modernizantes não salvam nem modernizam coisa alguma fazendo unicamente parte duma estratégia de sobrevivência imediata.

As palavras que escorreram doidamente do texto discursivo de Mário Lino, falavam de um Sul, de um meridião de obscura existência, como se fosse um mero caminho, uma auto-estrada para o outro Sul, o Sul do lazer - O Algarve inglês, multinacional, das férias, da 2ª habitação.

Para trás, fica o Alentejo abandonado e árabe, medularmente mourisco, a planície a oferecer-se ao olhar em tapetes de flores nas Primaveras cada vez mais inconstantes e esquivas.

Para trás fica a margem Sul, meridional e laboriosa, onde milhares trabalham e vivem em colmeias, subúrbios maltratados e aviltados por construções acanalhadas.

Não há gente, afirmou o cândido ministro, ex militante do PCP, socialista convicto, a OTA a vibrar no peito como uma medalha.

Se não tivéssemos assistido ao ministerial chorrilho quase não acreditávamos no que ouvimos; mas de facto, tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado e governo de Sócrates.

Alice Brito

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.