França: O fim do Gaullismo? criar PDF versão para impressão
22-Mai-2007
immanuel_wallerstein.jpgNicolas Sarkozy, o recém-eleito presidente da França, afirmou na sua primeira declaração pós-eleitoral que a França escolheu a mudança. É normal que os que chegam ao poder afirmem uma postura de mudança. Será que Sarkozy queria mesmo dizê-lo, e se sim, qual o significado dessa afirmação? A sua eleição está a ser interpretada nos Estados Unidos como a do mais amigável presidente francês na história da Quinta República. Sem dúvida que o é, mas quer isso dizer que a política externa francesa vai mudar?

Devíamos começar por analisar as condições da sua eleição. Nos sistemas eleitorais ocidentais, há normalmente dois partidos principais, um mais à esquerda e um mais à direita. Isto é verdade também na França, onde o principal partido de direita é a União por um Movimento Popular (UMP), o partido de Sarkozy, e o principal de esquerda é o Partido Socialista, cuja candidata era Ségolène Royal. Normalmente, na maioria das eleições, a base de cada partido vota nos seus candidatos. Em França, com um sistema de duas voltas, é isso que acontece. Para ganhar uma eleição, há três lugares onde se podem ir buscar os votos que mudam na segunda volta - a extrema-esquerda, a extrema-direita e o centro. O centro é composto pelos eleitores que estão dispostos a mudar entre os dois partidos, e fazem-no muitas vezes. A extrema-esquerda e a extrema-direita normalmente escolhem entre o apoio aos partidos principais e a abstenção.

Quando François Mitterrand ganhou como candidato socialista em 1981 e de novo em 1988, claramente conquistou votos adicionais do centro. Quando Jacques Chirac ganhou como candidato da direita em 1995, apresentou-se numa plataforma "social" e assim conquistou os seus votos adicionais do centro. Não foi o que aconteceu desta vez. A extrema-esquerda votou em Royal. O centro parece ter-se dividido da forma habitual - 2/3 para a direita e 1/3 para a esquerda. Sarkozy obteve os seus votos adicionais da extrema-direita. Apesar do pedido explícito de Jean-Marie Le Pen, o principal candidato da extrema-direita, de que os seus eleitores se abstivessem na segunda volta, eles não lhe deram ouvidos. Votaram em Sarkozy.

A questão é porque votaram em Sarkozy. A maioria dos eleitores não se preocupam com as relações da França com os Estados Unidos. Como também pouco se preocupam com o tipo de medidas económicas conservadoras que Sarkozy prometeu. Votaram principalmente porque ele representa a seus olhos o tipo de postura anti-muçulmana que consideram importante ter. Sarkozy respondeu-lhes de três maneiras diferentes. Prometeu actuar duramente contra o crime nos banlieues. Prometeu apertar os controlos sobre a imigração. E prometeu opor-se frontalmente à entrada da Turquia na União Europeia. Vai certamente cumprir as três promessas, e assim os eleitores da extrema-direita vão obter o que queriam.

Mas que implicações tem isto sobre o resto do seu programa? Não necessariamente muitas. A UMP é o partido cujas raízes históricas são em primeiro lugar o gaullismo. O que é, ou era, o gaullismo? Charles de Gaulle, no seu primeiro mandato, logo após a Segunda Guerra Mundial, adoptou três políticas: uma afirmação do direito da França a ter um papel fundamental, independente, na política mundial; dirigisme, uma espécie de política económica keynesiana com um papel principal do Estado francês; e anticomunismo interno.

Quando voltou ao poder em 1958, manteve os mesmos três princípios. Quando falou sobre as armas nucleares francesas, disse que o seu objectivo era defender a França tous azimuts, isto é, em todas as direcções. Retirou a França da estrutura de comando da Nato. Mas apesar disso sempre insistiu que a França estava do mesmo lado global dos Estados Unidos, isto é, era anticomunista. Continuou comprometido com um Estado de bem-estar social francês. Desde De Gaulle, a França já teve quatro presidentes. Nenhum deles se desviou verdadeiramente da trindade de posições gaullista - poder independente da França, pró-Estado de bem-estar social, anticomunismo - mesmo se apenas dois dos quatro presidentes se diziam gaullistas.

Será que o apelo de mudança de Sarkozy é realmente um repúdio a esta trindade de posições? Duvido. Nos Estados Unidos, Sarkozy disse que a França foi "arrogante" na forma como tratou a intervenção americana no Iraque, mas que concordava com a posição básica. Há uma semelhança entre isto e a linha de Angela Merkel - falar mais delicadamente com os Estados Unidos mas, apesar disso, prosseguir com uma política de certa forma independente. Recentemente, Merkel mostrou como funciona esta política quando usou uma linguagem suave com Washington mas que exprimiu a sua forte oposição à intenção dos Estados Unidos de instalar sistemas de intercepção nuclear na Polónia e na República Checa.

Há uma citação famosa de Lorde Palmerston, o secretário de Negócios Estrangeiros britânico em meados do século XIX: "A Grã-Bretanha não tem aliados permanentes; tem interesses permanentes." Quais são os interesses da França? De facto, a França precisa de pouco dos Estados Unidos. São mais os Estados Unidos que precisam do apoio da França. Os principais interesses da França estão no contexto da Europa, e nas suas relações com as antigas colónias em África. Na Europa, os interesses da França são de manter uma relação estreita com a Alemanha. Merkel pode bem servir de modelo a Sarkozy, muito mais que a senhora Thatcher. Quanto às ex-colónias africanas, mostraram abertamente o seu desconforto com a eleição de Sarkozy, precisamente pelas suas posições em assuntos que dizem respeito à extrema-direita francesa. As principais prioridades de Sarkozy na política externa serão trabalhar as suas relações com a Alemanha e consertar a sua imagem nas ex-colónias francesas.

Abandonar a herança gaullista não vai ajudar em nenhuma das duas questões. Pode-se esperar, evidentemente, que ele avance algumas medidas económicas, como a eliminação da semana de 35 horas e algumas reformas fiscais. Mas isto está longe de destruir o Estado de bem-estar social. Sarkozy também levantou o tema do repúdio da herança de 1968, o que parece uma maneira, em 2007, de ser anticomunista. Mas é difícil por enquanto dizer o que isto significa em termos práticos.

Em termos de política interna, Sarkozy está a tentar desmantelar o máximo possível o grupo organizado do centro francês que deseja tomar distância da principal força de direita e criar um "verdadeiro" partido do centro. Provavelmente terá sucesso. E o desnorte do Partido Socialista sem dúvida vai ajudá-lo a confirmar a sua base eleitoral em futuras eleições. Tudo isto, contudo, está longe de ser uma ruptura fundamental com o consenso político com que a França operou desde 1945.

Immanuel Wallerstein, 15 de maio de 2007

 
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