Respostas específicas a um certo tipo de opressão criar PDF versão para impressão
23-Mai-2007
cristina_portella.jpgO feminismo é um movimento social que identifica e combate a desigualdade de género e defende os direitos da mulher, entre os quais o direito de dispor do seu próprio corpo. Não é uma corrente teórica, mas incentivou o surgimento de estudos de género. Existem, sim, várias correntes teóricas e políticas no interior do "feminismo", isto é, entre aqueles que defendem a igualdade de género e lutam pela libertação da mulher. Não considero correcto dividir as correntes feministas entre direita e esquerda. Por exemplo, no caso do NOW (National Organization for Women), o movimento feminista norte-americano fundado por Betty Friedan, seria muito difícil classificá-lo como um movimento de direita, já que, desde os anos 70, é um dos principais promotores de campanhas de igualdades de direitos no país, defendendo uma completa participação das mulheres em todos os aspectos da sociedade americana, em colaboração com os homens. Mas também não é um movimento de esquerda, na medida em que não defende o socialismo como paradigma de sociedade e integra feministas de vários quadrantes políticos, inclusive de um dos dois maiores partidos burgueses dos EUA, o Partido Democrata. Seria mais correcto classificar o NOW e outros movimentos similares como democráticos.

Há, também, correntes de pensamento feministas formadas por organizações vinculadas à classe trabalhadora e defensoras de uma transformação social. O feminismo de esquerda seria aquele que, mesmo caracterizando a luta pela igualdade de género como uma luta democrática, isto é, comum a todas as mulheres, independentemente da sua classe social, entende que esta deve estar integrada na luta por uma sociedade socialista.

Também não é correcto definir qualquer colectivo dedicado ao tema feminino como feminista. Este é o caso, por exemplo, dos agrupamentos de mulheres que defenderam o "Não" na recente campanha do referendo do aborto. Ao não defenderem o direito da mulher optar entre continuar ou não uma gravidez, subalternizaram-na e incorporam uma concepção retrógrada e machista - claramente de direita - em relação à questão de género - portanto, não feminista.

O feminismo é uma resposta social a um fenómeno que o capitalismo manteve e agudizou: a opressão da mulher. Esta opressão manifesta-se de várias formas, consoante o período histórico, o grau de desenvolvimento social, a organização das mulheres, etc., mas mantém sempre um denominador comum que é a subalternização do papel feminino. O seu objectivo último também se mantém: aumentar ainda mais a exploração sobre o conjunto da classe trabalhadora. São as mulheres a receber os piores salários e a exercer as funções menos prestigiadas; são elas as principais vítimas da precariedade e do desemprego; são elas que são tratadas como objectos sexuais e enfrentam a dupla jornada de trabalho; são elas as principais vítimas da violência doméstica.

Para combater uma opressão específica é natural que existam reivindicações e lutas igualmente específicas, como o movimento pelo "Sim" no referendo do aborto, como a tradicional bandeira do "salário igual para trabalho igual" ou a mobilização contra a violência doméstica. O papel da uma organização de esquerda deve ser, justamente, o de reflectir sobre esta luta e procurar generalizá-la ao conjunto da sociedade, dando-lhe uma perspectiva socialista, mobilizando as mulheres nos seus locais de trabalho, estudo e moradia, em unidade de acção com colectivos feministas. Mas esta reflexão não pode ser um compromisso genérico e/ou pontual, mas realizado de forma permanente por um grupo de trabalho aberto dedicado a esta finalidade no interior do partido de esquerda.

Quer isto dizer que este grupo só contará com mulheres? Pelo contrário, pode e deve estar aberto aos camaradas que queiram participar. A opressão de género é dirigida contra as mulheres, mas atinge e prejudica também os homens de várias formas. Quer, a constituição deste grupo, dizer que as mulheres só devem dedicar-se à luta feminista? Também não. O seu objectivo será, justamente, o de integrar as bandeiras feministas nas lutas gerais travadas pelo partido. Por fim, quer isto dizer que a luta contra a opressão só será conduzida pelos integrantes deste colectivo? Mais uma vez não, mas serão eles os responsáveis por propor políticas e iniciativas ao conjunto da organização.

A criação de um grupo de trabalho deste tipo facilita a generalização do debate sobre a opressão da mulher no interior da organização e a elaboração de propostas de intervenção próprias. Esta visão é realmente contrária a outras que só enquadram a intervenção feminista dos partidos de esquerda a reboque dos grupos feministas autónomos, na maior parte das vezes fechados sobre si mesmos e afastados das lutas sociais. Às organizações de esquerda cabe uma intervenção política global, tanto no combate à exploração laboral, quanto no enfrentamento às diversas formas de opressão, entre as quais a da mulher.

Cristina Portella

 
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.