O sexo e os neoconservadores criar PDF versão para impressão
21-Mai-2007
Rui BorgesA demissão de Paul Wolfowitz da direcção do Banco Mundial marca mais um episódio da decadência do projecto neoconservador, que no último ano viu sair da ribalta figuras como Donald Rumsfeld ou John Bolton. Wolfowitz foi eleito presidente do Banco Mundial em Junho de 2005 com um salário de 500 mil dólares anuais. Os seus principais objectivos à frente da instituição que tem como missão "a redução da pobreza ao nível global e a melhoria do nível de vida" seriam o apoio à África subsahariana e o combate à corrupção. Quase dois anos depois, África continua a ser a maior concentração de miséria humana do planeta. Quanto a melhorias do nível de vida a missão foi parcialmente cumprida. Aquilo que se sabe da presidência de Wolfowitz é que nomeou como assessores alguns dos seus colegas da Casa Branca com salários principescos. À sua namorada Shaha Riza, também funcionária do Banco Mundial, atribuiu um aumento salarial sem precedentes na instituição (um aumento de 60 mil dólares por ano!). Resultado, Wolfowitz foi obrigado a demitir-se embora a troco de uma declaração do Banco a atestar a boa fé no desempenho das suas funções.

Outro caso interessante é o do vice Secretário de Estado Randall L. Tobias que se demitiu no passado dia 27 de Abril. Em 2003 Randall L. Tobias, ex-director executivo de uma poderosa empresa farmacêutica, foi convidado por Bush para dirigir o Programa de Emergência para o Combate à SIDA (PEPFAR). O PEPFAR, com um orçamento de 15 biliões de dólares para o combate e a prevenção da SIDA em África, Vietname, Haiti e Guiana, é o programa de apoio à saúde mais ambicioso alguma vez lançado pela Casa Branca.

Seria de esperar de um tal programa o apoio a estratégias eficazes como a educação sexual, a promoção do sexo seguro através do uso de preservativos ou a distribuição de seringas a toxicodependentes. No entanto não parece ter sido esse o entendimento do director do PEPFAR. Segundo o Instituto de Medicina em Washington, um terço do orçamento de 311 milhões de dólares para 2006 foi gasto em programas de promoção do adiamento da primeira relação sexual entre os jovens e da abstinência sexual entre adultos não casados. Pior, a atribuição de auxílio aos países mais afectados pela SIDA está dependente da tomada de posições oficiais contra a prostituição. Ou seja o auxílio no combate à SIDA não tem como pressuposto uma resposta às necessidades dos países mais afectados, mas sim o lançamento de uma cruzada global contra o sexo. Os resultados práticos são provavelmente nulos, mas os neocons podiam satisfazer-se a espalhar a sua superioridade moral pelos quatro cantos do mundo. Tudo corria bem até se descobrir que Randall L. Tobias recorria frequentemente aos serviços domiciliários prestados por um bordel de Washington. Não se sabe se usava preservativo, mas a credibilidade do programa estava posta em causa e a única solução foi a demissão.

Estes dois casos podem ter contornos quase anedóticos, mas são uma ilustração precisa daquilo que é o projecto neoconservador do grupo de Bush. O neoconservadorismo nasceu da aliança entre neoliberais e fundamentalistas cristãos em torno do Projecto para um Novo Século Americano. Os seus projectos de privatização da sociedade e dominação global criam uma cada vez maior desigualdade social e o empobrecimento de camadas cada vez mais largas da sociedade. Aqui entravam em jogo os fundamentalistas cristãos. A promoção dos princípios religiosos mais reaccionários garantia a formação de um bloco político, em que alguns dos sectores mais desfavorecidos da sociedade americana estavam dispostos a acusar os esquerdistas, os homossexuais, os promíscuos, ou as minorias étnicas pela sua miséria. O projecto social desta santa aliança entre neoliberais e fanáticos religiosos resume-se assim a mais dinheiro para os ricos e mais moral e bons costumes para os pobres.

Mas o projecto, entretanto, começou a atingir o seu prazo de validade. O desastre militar no Iraque e a forma catastrófica como a Casa Branca ignorou as vítimas do furacão Katrina deitaram por terra as ilusões na política de Bush. Para além disso os ricos, como é bem sabido, são pessoas que gostam de gozar a vida e por isso são pouco dados aos rigores do fundamentalismo cristão. A sua falsa moral desmascarada é também um precioso trunfo no combate à guerra e à privatização.

Rui Borges

 
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