A tentação de Roseta criar PDF versão para impressão
18-Mai-2007

Jorge CostaCaindo na tentação da facilidade, Helena Roseta não se eleva para além dos partidos. Personalizando o seu projecto e reclamando a pureza do seu "independentismo", Roseta fica aquém de um programa de convergência por Lisboa, deixando a Sá Fernandes o mérito da abertura. Ironicamente, este fechamento poderá ser - haja votos - a via para encurtar a experiência independente de Roseta. Nestas eleições, a arquitecta protagonizará uma política sempre disponível e já testada em Portugal. Convém lembrar que uma organização "renovadora", focada na crise do sistema partidário, tão depressa encheu como esvaziou.

Helena Roseta é uma veterana da política. O seu percurso é longo, mas foi do lado certo que a encontrámos em muitos combates recentes, da luta pela despenalização do aborto à defesa do direito à habitação. Ao sair do PS, Helena Roseta criou na esquerda uma expectativa: o protesto que votou Manuel Alegre pode afinal não estar condenado a regressar em peso à normalidade socrática. E Lisboa poderia ser a primeira beneficiária. A capital não é questão "técnica", nem de figura providencial; precisa de um programa claro e de muitas vontades.

Esta hipótese merecia ser levada a sério: um movimento independente de cidadãos, à esquerda, mobilizado e sem tutela, poderia fazer da crise actual a oportunidade. Para descolar, tinha que fazer o ponto da situação - como se chegou tão fundo? Quem foi à luta? - e pensar uma alternativa.

Olhando para a crise actual da CML há duas evidências. Primeira: a crise não começou com a maioria de direita. Foi ainda com a coligação PS-PC que teve início a idade do ouro de empresas municipais, regimes de privilégio, negócios de betão. Foi João Soares que recuperou Fontão de Carvalho (homem de empreitadas vindo de Abecassis). Esta história, que agora acaba tão mal, começa aí. Segunda evidência: a crise não decorreu sem combate. O fim dos herdeiros de Santana é também a história de uma intervenção - Lisboa é Gente - identificada com o Bloco de Esquerda e que o transcende largamente. Esse mandato tem nome: José Sá Fernandes. Nestes dois anos, o vereador foi a pior notícia que os interesses instalados em Lisboa podiam ter recebido. Mas Lisboa é Gente não é apenas esta experiência e aquele rosto: Lisboa é Gente é um programa político, um programa social, ambiental e de transparência para a maior cidade do país.

Ora, as dificuldades de uma candidatura ampla de Cidadãos por Lisboa começaram justamente no momento de pensar uma alternativa. Não que se descobrissem divergências inultrapassáveis. Nenhuma divergência. Pelo contrário, ao fechar a porta ao debate, ao recusar qualquer encontro que fosse com José Sá Fernandes (um independente de sempre), Helena Roseta (independente há uma semana) preferiu a auto-suficiência e a retórica anti-partidos. Os limites da sua candidatura ficam à vista: o que conta não é a convergência, o que conta não é o programa.

Caindo na tentação da facilidade, Helena Roseta não se eleva para além dos partidos. Personalizando o seu projecto e reclamando a pureza do seu "independentismo", Roseta fica aquém de um programa de convergência por Lisboa, deixando a Sá Fernandes o mérito da abertura. Ironicamente, este fechamento poderá ser - haja votos - a via para encurtar a experiência independente de Roseta. Nestas eleições, a arquitecta protagonizará uma política sempre disponível e já testada em Portugal. Convém lembrar que uma organização "renovadora", focada na crise do sistema partidário, tão depressa encheu como esvaziou. Reeditar tal experiência é ambição pequena. A cidade (e a esquerda) precisa de mais.

Jorge Costa

 
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