Entrevista: “Um dos governos mais representativos do mundo” criar PDF versão para impressão
08-Jun-2007
moustafabarghoutiNesta entrevista concedida à Der Spiegel Online, o Ministro da Informação palestiniano Mustafa Barghouti defende o governo de unidade palestiniana, que considera o mais democrático e representativo do mundo, e adverte que não se pode separar o presidente do governo, não se pode separar um ministro de outro, pelo facto de serem de facções diferentes. "Creio que alguns países continuam a ser demasiado influenciados por Israel e pela abordagem irracional do governo israelita", diz. Para Barghouti, os palestinianos apoiarão a Iniciativa Árabe, que fala de reconhecimento mútuo, se Israel estiver preparado para a reciprocidade e para aceitar um Estado palestiniano. "Que querem para além disso? Mas se alguém espera que os palestinianos desistam dos seus direitos e que fiquem satisfeitos com isso, comete um erro."

 

"Um dos governos democraticamente mais representativos do mundo"

Entrevista com o Ministro da Informação palestiniano, Mustafa Barghouthi

Der Spiegel, 30/4/2007

No sábado, a Chanceler alemã Angela Merkel vai viajar a Israel e aos territórios palestinianos, onde o Hamas e a Fatah criaram recentemente um governo de unidade. Numa entrevista ao Spiegel Online, o Ministro da Informação palestiniano Mustafa Barghouti fala acerca das suas expectativas quanto à Alemanha e à União Europeia.

SPIEGEL ONLINE: A chanceler alemã Angela Merkel vai deslocar-se ao Médio Oriente este fim-de-semana. Que espera desta visita?

Barghouti: Esperamos que aceite a composição do novo governo, que é um dos governos democraticamente mais representativos do mundo, representando 96% dos votos do eleitorado. Esperemos que a chanceler reinicie os contactos directos com este governo. Esperamos ainda que apoie os nossos esforços para a implementação da Iniciativa Árabe, a qual é dirigida a todos os palestinianos e árabes, e representa uma boa oportunidade para mudar a situação. Agora precisamos de pressionar Israel para que volte ao princípio das negociações.

SPIEGEL ONLINE: Decorre neste momento em Riade a cimeira árabe e a Iniciativa Árabe para a Paz está a ser relançada, através da Liga Árabe. Acabou de mencionar que o Hamas apoia esta iniciativa. Está a dizer que o Hamas está efectivamente a ponderar a normalização das relações com Israel, sob a forma de um acordo de paz?

Barghouti: Desde que Israel termine a ocupação e esteja de acordo com o estabelecimento de um Estado palestiniano independente nos territórios ocupados. É isto que refere a Iniciativa Árabe. Khaled Maashal, líder do Hamas, disse que a sua organização aceitaria um consenso árabe. Neste momento existe um consenso árabe. Israel é que está a recusar a Iniciativa e está também a recusar conversações sobre um acordo quanto a um status final.

SPIEGEL ONLINE: Existe um debate interno no seio da União Europeia quanto a saber se devem ser mantidas conversações oficiais com o novo governo palestiniano. Alguns representantes dizem que só se sentarão com ministros que não pertençam ao Hamas. Parece-lhe um compromisso aceitável para o seu Governo?

Barghouti: Não. Não é uma posição normal e é antidemocrática. Pensamos que este governo é um só, é uma equipa, é o governo do presidente Mahmoud Abbas. Não podem separar o presidente do governo, não podem separar um ministro de outro. Creio que alguns países continuam a ser demasiado influenciados por Israel e pela abordagem irracional do governo israelita. Mas isto não pode continuar.

SPIEGEL ONLINE: Inclui a Alemanha entre os países "demasiado influenciados por Israel"?

Barghouti: Não, espero que não. Mas espero que a Alemanha adopte a posição certa. Creio que a ideia de diferenciação entre um ministro e outro, dependendo se se gosta desse ministro ou não, destruirá toda a construção do direito internacional e das relações internacionais.

SPIEGEL ONLINE: A chanceler Merkel representa, neste momento, toda a UE. Parece-lhe que existe também um papel especial a desempenhar pela Alemanha?

Barghouti: Completamente. A Alemanha tem sido bastante construtiva, apoiando bastante o povo palestiniano. A Alemanha desempenhou um papel vital no apoio à democracia palestiniana. Temos tido excelentes relações com diferentes representantes alemães, ministros dos negócios estrangeiros e chanceleres. Esperemos que esta visita consolide estas boas relações.

SPIEGEL ONLINE: Parece-lhe um objectivo realista o de que o primeiro-ministro do Hamas Ismail Haniyeh e os membros do Hamas do seu gabinete aceitem em breve as condições que a UE, Israel e os EUA estabeleceram? De acordo com estas condições, o Hamas deve reconhecer integralmente Israel, pôr fim à violência e observar os acordos anteriores. Ou estas condições são inaceitáveis para o Hamas?

Barghouti: É injusto continuar a impor condições aos palestinianos. Além do mais, o Hamas estava na delegação do grupo palestiniano na Cimeira Árabe, o primeiro-ministro estava com o presidente Abbas quando a delegação palestiniana aprovou por unanimidade a Iniciativa Árabe. A Iniciativa Árabe fala de reconhecimento mútuo, se Israel estiver preparado para a reciprocidade e para aceitar um Estado palestiniano. Que querem para além disso? Mas se alguém espera que os palestinianos desistam dos seus direitos e que fiquem satisfeitos com isso, comete um erro. O que é necessário é pressionar Israel, que é uma potência ocupante, para que termine a ocupação. Gostaria que todas as condições internacionais de que ouvimos falar fossem acompanhadas por exigências a Israel para que pare os colonatos.

SPIEGEL ONLINE: O governo israelita reagiu de forma fria ao novo governo palestiniano. O primeiro ministro Ehud Olmert está preparado para se encontrar com o presidentre Abbas numa base bissemanal, mas referiu que não haveria lugar para quaisquer discussões importantes. Estas reuniões serão úteis ou não?

Barghouti: São inúteis. E se estas reuniões continuarem a ser inúteis, não creio que Abbas continuará a participar. Neste momento, Israel rejeita negociações com os palestinianos, está a rejeitar a Iniciativa Árabe e não está preparado para lidar com o governo democrático palestiniano unido. Desta forma, Israel está a adoptar uma atitude bastante negativa. Recorda-nos a atitude do regime de apartheid na África do Sul. É necessário relembrar os israelitas de que estão a ser contraprodutivos - não só em relação aos palestinianos, mas em relação ao seu próprio povo.

SPIEGEL ONLINE: Ajudou a criar este governo, muito embora não seja membro da Fatah nem do Hamas. De uma perspectiva independente: acha que este governo pode ser eficiente?

Barghouti: É o governo mais eficiente que alguma vez tivemos. É a plataforma mais democrática e progressiva em relação a direitos das mulheres, saúde e bem-estar, direitos sociais e justiça social. Espero que também quanto à questão da educação venha a ser neutral. Não deve haver qualquer influência de qualquer ideologia no sistema de educação. É de facto um dos programas mais progressistas em toda a região. É também o governo mais representativo. Espero que este facto seja visto como uma oportunidade de ouro para promover a democracia, a paz e a estabilidade no Médio Oriente.

Entrevista conduzida por Yassin Musharbash. Traduzido do inglês, da versão publicada pelo site Al Mubadara

 
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