Agro-combustíveis: energia limpa e sustentável? criar PDF versão para impressão
16-Jun-2007

biofuelewatch_3Embora existam diferentes tipos de agro-combustíveis, também chamados de bio-combustíveis1, os mais comuns são o biodisel e o bioetanol. Os primeiros são produzidos a partir de oleaginosas (como o girassol, soja, colza, palma), enquanto que os segundos são produzidos a partir de cereais (como o milho e o trigo), beterraba sacarina, cana de açúcar e biomassa florestal. Os cultivos mais usuais são: milho, trigo, soja, colza e cana de açúcar.
Dependendo das opções, os impactes globais deste tipo de energia podem ser alarmantes: não só as emissões com origem na produção de energia e na agricultura podem aumentar, como a produção de culturas energéticas para agro-combustíveis pode ter incidências na biodiversidade das terras agrícolas e noutras variáveis ambientais.

Ineficiência energética e maiores emissões

As culturas energéticas só são rentáveis em sistemas monoculturais intensivos, devido às economias de escala, consumindo elevadas quantidades de água, fertilizantes, fitofármacos e energia. Além de contribuírem para a perda de fertilidade do solo, a sua contaminação e a dos aquíferos, estudos estimam que o balanço energético do ciclo de vida dos agro-combustíveis é pequeno ou mesmo negativo. Ou seja, se todos os custos forem contabilizados conclui-se que a energia utilizável do agro-combustível é menor que o total da energia gasta em produzi-lo: isto põe por terra o discurso da neutralidade dos agro-combustíveis quanto às emissões de carbono. Por exemplo, no caso do etanol de milho são necessárias 1,3 kilocalorias de petróleo para produzir uma kilocaloria de bioetanol.

Um relatório da Agência Europeia de Ambiente (AEA, n.º 4/2004) indica que a conversão das culturas (biomassa) em agro-combustíveis para os transportes gera menores economias e reduções de GEE do que outras utilizações energéticas da biomassa. A título de comparação, a combustão directa de biomassa numa central eléctrica para produção de electricidade é significativamente mais eficiente em termos de rendimento energético.

E como refere a professora Mae-Wan Ho, especialista em genética e bioquímica da Universidade de Hong Kong, «os biocombustíveis têm sido propagandeados e considerados erradamente como "neutros em carbono", como se não contribuíssem para o efeito estufa na atmosfera: quando são queimados, o dióxido de carbono que as plantas absorvem quando se desenvolvem nos campos é devolvido à atmosfera. Ignoram-se assim os custos das emissões de CO2 e de energia dos fertilizantes e pesticidas utilizados nas colheitas, dos utensílios agrícolas, do processamento e refinação, do transporte e da infra-estrutura para distribuição». Para a investigadora, os custos extras de energia e das emissões de carbono são ainda maiores quando os agro-combustíveis são produzidos num país e exportados para outro.

1 Por que chamá-los agro-combustíveis e não bio-combustíveis? João Pedro Stédile (artigo Agro-combustíveis: A quem interessa o monocultivo?) afirma: "existe uma grande manipulação por parte desse capital em chamar aos combustíveis de origem vegetal, renovável, com o prefixo bio, que significa vida. Trata-se de uma aberração, porque todos os seres vivos têm o componente bio. Então, nós poderíamos nos chamar bio-pessoas, bio-joãopedro, bio-soja. Mas, ele (o capital) passa a utilizar o prefixo bio para dar a entender que é uma coisa boa, politicamente correcta. Por isso, ao igual que a Via Campesina Internacional acordámos chamá-los pelo seu verdadeiro conceito. Ou seja, combustíveis ou energia de origem produzida no agro. Portanto, o termo correcto é agro-combustíveis ou agro-energia."
No título deste dossier preferimos "biocombustíveis", por ser o termo mais divulgado.

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
tit_todosdosiers.png
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.