A representação das minorias sexuais nos media criar PDF versão para impressão
21-Jun-2007
lgbt_media_4A homossexualidade é representada de forma variada. É definida por laços de afectividade, valorizando a esfera amorosa, e caracterizando os homossexuais por uma vulgaridade não distintiva, produzindo um efeito normalizador e não estigmatizante. Mas também é representada pelo lado folclórico, exibicionista da sexualidade, do corpo e da indiferenciação de género- assimilando as questões de género à homossexualidade, sem as tratar na sua especificidade.

Artigo de Clara Pinto Caldeira, autora de A representação das minorias sexuais na informação televisiva portuguesa, Lisboa: Livros Horizonte (2006).

 

Os meios de comunicação social são, como lhes é amplamente reconhecido, agentes sociais poderosos, com efeitos sobre a representação que temos da sociedade e do mundo. No caso da população LGBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgéneros), a sua força representacional é maior, por vários motivos. Por um lado, tornam visível uma minoria estigmatizada pela sua diferença em relação a um padrão de «normalidade» sexual, e por isso muitas vezes auto-ocultada. Por outro, na medida em que a visibilização de uma população em luta pelo reconhecimento dos seus direitos e historicamente discriminada, pode ser integradora ou reforçadora dos preconceitos enraizados.

No âmbito desta problemática, o discurso jornalístico é particularmente relevante, por ser este que assume um compromisso de representação com o real, e nos fornece um mosaico daquilo que é, supostamente, o todo social. Naturalmente, o jornalismo constitui apenas um olhar, de que resulta um recorte sobre esse todo, e é nele que interessa compreender o lugar dado aos LGBT. Um estudo realizado no âmbito de uma tese de mestrado analisa a representação das minorias sexuais nas notícias da Sic, entre 1995 e 2000. (1)

Considerando o fluxo total das notícias (2), as minorias sexuais representam uma parcela muito pequena enquanto tema noticioso, mas é inegável que passam a ter uma presença no espectro dos espaços informativos, verificando-se uma crescente integração dos assuntos LGBT na agenda da estação estudada, a que não serão alheias as alterações sociais vividas na sociedade portuguesa, nomeadamente o crescimento e a afirmação de um cenário associativo em torno da defesa dos direitos LGBT. Apesar de se observar um decréscimo de notícias nos últimos anos do período contemplado, nunca volta a atingir uma situação de quase invisibilidade que caracteriza o período inicial deste estudo.

Os temas mais frequentes (3) no agendamento noticioso deste grupo revelam que a sua representação é enquadrada em âmbitos temáticos que afectam directamente a vida quotidiana das minorias sexuais ou que têm a ver com iniciativas das próprias, conferindo-lhes legitimidade no plano político, e no plano cívico, respectivamente, pelas categorias temáticas "Questões Legislativas" e "Manifestações". Há assim um eixo de representação das minorias sexuais que tende a constituí-las como grupo reconhecido na luta pelo direito de igualitarização e expressão identitária pública, sobretudo a propósito da discussão do diploma das uniões de facto.

Verifica-se também, em várias notícias analisadas, uma assimilação da diversidade identitária abrangida pela sigla LGBT à homossexualidade, sobretudo masculina, o que evidencia uma tendência para tratar estas temáticas no âmbito do binómio hetero/homo. Em relação ao modelo da heterossexualidade, emerge o seu contrário. A bissexualidade é absolutamente inexistente e a transexualidade é um tema pouco frequente.

A homossexualidade é representada de forma variada. É definida por laços de afectividade, valorizando a esfera amorosa, e caracterizando os homossexuais por uma vulgaridade não distintiva, produzindo um efeito normalizador e não estigmatizante. Mas também é representada pelo lado folclórico, exibicionista da sexualidade, do corpo e da indiferenciação de género- assimilando as questões de género à homossexualidade, sem as tratar na sua especificidade.

No que diz respeito às notícias sobre criminalidade, emergem dois padrões de representação associados aos homossexuais: vítimas e vilões. No primeiro caso, os crimes de ódio por discriminação são retratados de forma negativa, alertando para a existência de homofobia. No segundo caso, a homossexualidade é associada à pedofilia, e merece tratamento geralmente mais aprofundado.

É, pois, complexa, a representação produzida pelas notícias, e apresenta vectores negativos e positivos. De uma forma geral, no caso estudado há uma integração de temáticas LGBT no agendamento noticioso televisivo, de uma forma integradora da existência de um grupo em busca de um lugar público reconhecido. É muitas vezes a análise conjugada de texto/imagem que revela a prevalência de alguns preconceitos e reduções identitárias. No entanto, as mudanças vividas nos últimos anos no cenário associativo, com consequências na visibilidade deste grupo, têm efeito sobre o discurso jornalístico, permeável às dinâmicas sociais.

Notas:

1) Caldeira, Clara (2006) A representação das minorias sexuais na informação televisiva portuguesa, Lisboa: Livros Horizonte

2) Apresentam-se aqui os resultados relativos ao corpus restrito, ou seja, notícias de origem nacional, por se considerar mais relevante no contexto da sociedade portuguesa.

3) Foram identificadas as seguintes categorias temáticas e respectivas sub-categorias: Questões Legislativas (união de facto, casamento, adopção, descriminação e regulamentos profissionais), Manifestações (gay pride, protesto, homenagens); Casos de Tribunal/Polícia (crimes de pedofilia, crimes contra minorias e luta por direitos), Pessoas (come out, vida, opinião); Repressão (política e policial); Debates/Polémicas; Eventos Culturais; Media; Fait Divers; Vida Associativa e Apoios; Transexualidade; Histórias de Vida; Religião; Sida

Clara Pinto Caldeira

Junho de 2007


 
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