Indymedias: bem hajam criar PDF versão para impressão
08-Jun-2007
natasha_nunes.jpgNos nossos dias, a promiscuidade entre os media e os grandes grupos económicos, e por arrasto, os centros decisórios, é um dado concreto e palpável. As estratégias de construção e fabricação de notícias, e os mecanisos, tecnológicos e discursivos, de transmissão das mensagens, servem, em dadas e determinadas circunstâncias, mais do que o objectivo do interesse pela verdade, o intuito da formação direccionada da opinião pública. Casos como o do arrastão das praias lisboetas (2005) ou o do derrube da estátua de Sadam em Bagdad (2003) são exemplos, hoje já desmontados, de ocasiões em que os media, ao invés de fornecerem a informação propagaram a desinformação, sendo que aqui se pode ler o processo jornalístico com elas relacionado, no mínimo, como acrítico.

O recente acontecimento da manifestação não oficial do 25 de Abril (2007) é também exemplificativo de um tratamento jornalístico pouco criterioso, do qual resultaram um rol de notícias em nada comprometidas com a fidelidade dos factos. Perante uma carga policial desregrada sobre manifestantes o poder sistémico necessitou de justificar a coisa e então os media justificaram-na.

Os principais jornais diários trataram de demonstrar não apenas que a violência foi legítima, mas mais do que isso, pedida e merecida. Para isso guetizaram a descrição sociológica dos manifestantes, enquadrando-os numa tipologia propiciadora de agitação social, retratando-os enquanto pertencentes a um grupo juvenil, suburbano, "negro e rasta", "anarco-libertário", anti-globalização e ambientalista, radical e, acima de tudo, perigoso. A polícia dignou-se apenas a gerir uma situação de potencial conflito entre dois campos políticos polarizados e antagónicos. O grosso da opinião pública, que não se revê nem identifica em extremos, aceitou que os "seus" agentes de autoridade tivessem usado alguma "força proporcional" para preservar a "ordem". Pouco interessa que a história não se tenha passado bem assim. Importante mesmo foi assegurar que, aos olhos da dita opinião pública o estatuto de autoridade das forças policiais saia salvaguardado.

Os que viram a evidência da simplificação orquestrada destes relatos veiculados nos diários e nas televisões encontraram no espaço dos media alternativos outras fontes sustentadoras de que os eventos da rua do Carmo talvez se tivessem passado de uma outra forma. Já se sabe que é através da Internet que os caminhos da informação alternativa se vão trilhando nestes dias, e foi de facto na blogosfera que surgiram uma panóplia de fotos, de vídeos e de relatos, que vieram a pôr em causa o tratamento que os media oficiais vinham dando ao assunto.

A relevância destas ambiências proporcionadoras de recolha, tratamento e divulgação de informação alter-normativa é premente na medida em que permite a edificação de sistemas de pensamento e de práticas culturais questionadoras do senso comum dominante. Reinvenções das resistências enquanto ardis de re-elaboração dos consensos hegemónicos societários. Também um pouco disso.

Natasha Nunes

 
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