Sines: um modelo de desenvolvimento falido criar PDF versão para impressão
14-Jun-2007
joao_madeira.jpgAs comemorações dos 20 anos da “greve verde” em Sines incluíram, por pressão da Câmara Municipal CDU, uma Conferência singularmente intitulada “Pacto para a Saúde e Ambiente”.
O que esta Câmara Municipal do PCP quis foi sentar à mesa os representantes das empresas – da Galp à Águas de Santo André ou da EDP à Repsol, que vieram evidentemente debitar generalidades ou apregoar os “vultuosos investimentos” com que estariam a resolver os problemas ambientais de Sines.

Há anos que a conversa desta gente é a mesma sem que a situação dê mostras de melhorias significativas.

Sines é hoje uma das zonas mais poluídas do país e na sua área industrial contam-se das empresas mais poluentes, mesmo a nível europeu, como o caso da central da EDP que quanto às emissões de CO2, ainda recentemente subiu no ranking das mais poluentes da Europa.

O que aqui está em causa é, evidentemente, o modelo de desenvolvimento industrial baseado no petróleo e em energias sujas que tendo sido fundado nos últimos anos da ditadura, atravessou incólume enquanto modelo cozinhado para a região, mais de 30 anos de democracia e é agora particularmente incensado por este governo que lhe acresce mais um conjunto de investimentos, todos no sector da refinação e derivados ou da energia e todos considerados como projectos de interesse nacional. Mais do mesmo, portanto.

Sobre esta matéria, o convidado da API, Agência Portuguesa de Investimentos acabaria por demonstrar não haver qualquer diversificação do tipo de investimentos em Sines e aqueles que são anunciados, representando quase 1300 milhões de euros, isto é 21,6% do total de investimentos previstos pelos PIN no Alentejo, apenas correspondem a uma suposta criação de trezentos e tal empregos, isto é, 2,1% do que dizem ir criar no Alentejo.

Ou seja, capital intensivo, para exploração intensivo e sem lugar, portanto, a uma força de trabalho significativa.

A Águas de Santo André, do Grupo Águas de Portugal, que gere a ETAR de Ribeira de Moinhos e o depósito de lamas industriais a céu aberto, veio reconhecer os problemas com que se debate o degradado emissário que drena para o mar efluentes industriais deficientemente tratados. E veio ainda reconhecer, que apesar do concurso aberto para o tratamento das lamas industriais, não saber que solução vão ter as muitas toneladas de resíduos industriais perigosos que continuam a céu aberto.

Os problemas ambientais persistem na região. São, a par do emprego, os grandes problemas que se vivem nesta faixa do litoral alentejano e cujos efeitos se repercutem quer para norte quer para sul, até à costa vicentina.

As descargas da ETAR de Ribeira de Moinhos, como da Estação de Tratamento do Porto de Sines, cujo representante, apesar da monotorização conjunturalmente realizada, não teve coragem de avançar com um único número concreto dos seus resultados, os efeitos provocados na águas usadas no arrefecimento da Central da EDP, os efluentes domésticos que continuam a ir directamente para o mar no Cabo de Sines, na Costa Norte e em Porto Covo, os acidentes ocasionais ou voluntários ocorridos nas operações portuárias e marítimas pelos petroleiros são fontes de poluição marítima há muito identificados e sem solução á vista.

Para a Câmara parece que a solução vem dum projecto de monitorização ambiental e epidemiológico que irá funcionar num horizonte de três anos e que, podendo contribuir com elementos de diagnóstico da situação, já.generalizadamente apercebidos pelo comum dos habitantes, não tem explícitos nenhuns mecanismos de continuidade.

Mais, não conta sequer com a participação, absolutamente indispensável no acompanhamento de todo o processo, de outras organizações para além da autarquia e das empresas, designadamente as organizações ambientais e os sindicatos, que não foram pura e simplesmente convidados. Para Câmara CDU, não está mal!

É patética a insistência da Câmara no mesmo modelo de desenvolvimento, como é completamente lamentável ver os autarcas da CDU de braço dado aos homens do capital pelas ruas e pelos restaurantes de Sines, depois dos seus negócios terem sido já apoiados e reconhecidos como PIN pelo governo.

O exemplo da “greve verde” foi o contrário de tudo isto. Foram os pescadores e os restantes sectores do Trabalho em Sines que se levantaram contra a poluição em defesa das suas condições de vida e da própria qualidade de vida, obrigando governo e empresas a recuarem, a tomarem medidas.

Esta é a grande lição da “greve verde” projectada nos dias de hoje, na contracorrente, contra o governo e, pelos vistos, agora também contra a autarquia, como tem de ser.

João Madeira

 
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