Listas de espera: as contas "marteladas" de Correia de Campos criar PDF versão para impressão
15-Jun-2007

João SemedoHá 2 anos, o ministro Correia de Campos afirmava que as listas de espera para cirurgia não constituíam um problema importante da política de saúde. Não admira, pois, o prolongado silêncio do governo sobre esta incómoda situação, finalmente, agora interrompido.
Infelizmente, e mais uma vez, o governo preferiu a ilusão à realidade, o facilitismo à responsabilidade, a propaganda à verdade, refugiando-se em novas promessas.

Diz o governo que no final deste ano serão 200 mil, os portugueses à espera de uma cirurgia e o tempo de espera será apenas de cinco meses. Nem mesmo um milagre conseguirá concretizar estes objectivos. E o martelamento das contas pode dar jeito ao governo mas não resolve o problema das listas de espera.

Em primeiro lugar, o tempo médio de espera. O governo diz que hoje é de 6 meses e que há 3 meses, no final de 2006, era de 7 meses. Isto é, em apenas três meses, o governo quer-nos convencer que conseguiu reduzir o tempo de espera em um mês.

Esta fantasia revela-se em toda a sua dimensão se dissermos que nestes três meses a lista apenas se reduziu em 3315 casos.

Alguém pode acreditar que a resolução durante três meses de 3315 casos em 225.409 permite baixar um mês o tempo médio de espera?

Mas infelizmente não se trata apenas de fantasia. Trata-se de um truque, de um estratagema destinado a manipular os números e a ocultar a verdade do que se passa com as listas de espera.

O truque é simples: o governo fala em média mas trabalha com a mediana, o que é um valor matemático abstracto que exclui deste cálculo o número de pessoas em cada tempo de espera.

Um exemplo para se perceber melhor o impacto desta habilidade.

O organismo governamental que faz a gestão das listas de espera publicou em Março deste ano um estudo sobre as listas de espera nas doenças oncológicas. No país, o tempo médio de espera era de 105 dias, isto é 3,5 meses.

Mas se fizermos as contas como o governo as faz, se martelarmos os números recorrendo não à média mas à mediana, os 105 dias reduzem-se a 44 dias, número oficial dado pelo Ministério. Fantástico truque!

O governo pode fazer as contas como quiser, pode tentar iludir a opinião pública recorrendo a todos os malabarismos. Mas não será por esse caminho que reduzirá a espera para as cirurgias das doenças cancerosas.

Nos três primeiros meses deste ano, o programa das listas de espera recuperou em cada mês 1105 casos. É um número baixíssimo, inferior ao verificado em 2006 (2000 de média mensal no 1º semestre) A este ritmo, até ao final do ano, a lista não baixará sequer mais dez mil casos, tanto mais que a produção cirúrgica abranda significativamente nos 3 meses de verão e em Dezembro. Se oficialmente há 222.094 portugueses em espera, como podemos acreditar que no fim do ano serão 200 mil?   

Seria preferível que em vez de promessas irrealizáveis o governo nos falasse com verdade sobre o colapso do programa de recuperação das listas de espera e das suas responsabilidades nesse colapso.

João Semedo

 
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