Cenas da luta de classes no Iraque criar PDF versão para impressão
19-Jun-2007

Rui BorgesO principal objectivo americano no Iraque, o controlo das reservas petrolíferas do país, está a ser posto em causa por um vibrante e militante movimento dos trabalhadores. A greve convocada pela Federação Iraquiana de Sindicatos do Petróleo obteve uma importantíssima vitória sobre os planos do governo fantoche iraquiano de assinar a entrega do petróleo do país às multinacionais.

O governo iraquiano está a ser pressionado pelos generais americanos para dar o seu aval a uma Lei do Petróleo que permita a exploração dos recursos energéticos do país pelas multinacionais americanas. George Bush está desesperado para mostrar alguma evolução positiva no terreno. Face ao desastre militar, a perpectiva dos lucros chorudos a obter com o petróleo iraquiano poderia apaziguar as críticas dos Democratas e fazer Bush recuperar alguma margem de manobra na condução da guerra. O ultimato ao primeiro-ministro iraquiano já é conhecido há alguns meses: até ao verão tem que haver "sinais de progresso" ou Maliki poderá deixar de contar com o apoio da Casa Branca.

George Bush depara-se no entanto com um obstáculo difícil de contornar: a combatividade dos sindicatos iraquianos. Perante os salários de miséria do sector e a ameaça da Lei do Petróleo, a Federação Iraquiana de Sindicatos do Petróleo iniciou uma greve a 4 de Junho. As reivindicações eram aumentos salariais e férias pagas, terrenos para a construção de habitações, contratos de trabalho para os milhares de jovens operários precários que trabalham no sector e acima de tudo a exigência de que a exploração do petróleo não seja entregue às multinacionais. Os trabalhadores encerraram dois pipelines e pararam o trabalho. O governo por sua vez acusou os trabalhadores de sabotagem económica e deu ordens para prender os líderes do sindicato enquanto mandava milhares de soldados para o sul do país para cercar os grevistas. A 6 de Junho o sindicato suspendeu a greve para conversações com o governo mas deixando bem claro que caso não houvesse cedências, a 11 de Junho reiniciariam a greve cortando os abastecimentos a Bagdad e interrompendo as exportações. Face à determinação dos trabalhadores Maliki foi obrigado a ceder a grande parte das exigências dos trabalhadores.

No entanto a principal reivindicação, a garantia de que o petróleo iraquiano permanece um bem público, ficou sem uma resposta clara. Isto porque na questão do petróleo o governo iraquiano não tem qualquer poder. A decisão será tomada na Casa Branca e o papel de Maliki será o de convencer as várias facções da Zona Verde a aceitar a vontade americana. No entanto o governo ficou numa posição ainda mais difícil ao ser obrigado a comprometer-se com conversações com o sindicato sobre a Lei do Petróleo.

Os trabalhadores da indústria petrolífera deixaram bem clara a sua determinação em não baixar os braços na defesa de um bem essencial para o futuro do Iraque. O exército americano cada vez mais encurralado já não alimenta ilusões numa vitória militar. Quando eventualmente bater em retirada, a posse do petróleo em mãos do estado será essencial para a reconstrução do país. Para além disso, ao exigirem a posse pública do petróleo, os sindicatos têm em mãos a principal reivindicação unificadora dos vários movimentos de resistência. Que seja um sindicato onde militam trabalhadores sunitas e xiitas a pôr em cheque o principal objectivo americano no Iraque, é um sinal positivo de que as diferenças religiosas podem ser ultrapassadas e o neoliberalismo bombista de George Bush ser definitivamente derrotado.

Rui Borges

 
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