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08-Ago-2006

NOVAS POLÍTICAS ALTERNATIVAS NA EUROPA

 

Texto de Nuno Ramos de Almeida. Fotos de Paulete Matos 

 

A Universidade de Verão do Partido da Esquerda Europeia (PEE), que se realizou em Tavira de 13 a 16 de Julho, reuniu cerca de 180 activistas de vários países da Europa. No primeiro congresso do PEE, em Atenas, considerou-se que juntamente com as campanhas comuns, a Universidade de Verão seria um instrumento fundamental para a construção de um novo espaço político europeu. o eurodeputado do GUE Miguel Portas organizou durante o evento uma sessão pública contra a guerra, com a presença de centenas de pessoas 

Walter Bayer, da Áustria, abriu a sessão relembrando aos presentes que a construção de uma nova esquerda na Europa depende de iniciativas deste tipo, que possam criar um pensamento crítico novo e actuante que sirva para construir uma outra Europa. Bayer elogiou as condições desta primeira experiência e agradeceu ao Bloco de Esquerda o empenho na organização deste evento.

Miguel Portas, deputado europeu do BE, agradeceu o elogio e sublinhou que é preciso mais esquerda para a Europa, não só para lidar com os problemas sociais e económicos, como para construir uma política de paz a nível global. Portas alertou para a escalada cega que a situação no Médio Oriente conduz o planeta.

As duas conferências do primeiro dia foram dedicadas à reinvenção do Estado Social e à defesa dos serviços públicos europeus, direitos sociais e questões ambientais.

Yves Salesse, que liderou o "Apelo dos 200" pelo "Não" da esquerda à Constituição Europeia, afirmou que mais do que reinventar o "Estado Social" é preciso reinventar a "transformação social". Qualquer defesa do Estado Social deve passar pela melhoria das condições de vida das pessoas, pelo combate ao desemprego e pela afirmação dademocracia. Salesse relembrou que nos últimos 20 anos, só em França, a repartição de rendimentos entre capital e trabalho significou um ganho de 10% por parte do capital. Esta percentagem, disse, significa uma quantidade de dinheiro suficiente para investir nos necessários gastos públicos. No entanto, Salesse alertou: "embora a recuperação destes 10% não queira dizer uma revolução - o capital, em França, vivia feliz há 20 anos -, os capitalistas não colaborarão nesta correcção. É preciso um verdadeiro empenhamento democrático e popular para se conseguir esta alteração".

Por seu lado, Robin Blackburn, académico e editor da revista New Left, chamou a atenção para a necessidade de se conseguirem importantes verbas para financiar as políticas sociais e desafios que se avizinham. Blackburn sublinhou o problema que o aquecimento global coloca à sobrevivência da humanidade e a necessidade de alterar profundamente o nosso modo de vida. No mesmo sentido, a deputada do Bloco de Esquerda Alda Macedo falou no imperativo de encontrarmos uma nova geração de políticas económicas que defendam o ambiente e garantam condições sociais justas para as pessoas.

CIENTISTAS E MILITANTES

O segundo dia da Universidade de Verão do Partido da Esquerda Europeia discutiu as questões da globalização e o papel da Organização Mundial do Comércio (OMC) na perda de direitos democráticos e sociais no planeta. Raoul Marc Jennar, cientista político e autor do livro sobre o processo europeu "A Traição das Elites", fez uma aprofundada intervenção sobre o processo de globalização capitalista e as suas consequências do ponto de vista da degradação dos direitos das populações.

A intervenção de Raoul Jennar centrou-se no papel da Organização Mundial do Comércio, que considerou ser "a mais poderosa organização internacional", visto concentrar, em si, vastos poderes que ultrapassam fronteiras e não são fiscalizados democraticamente. "As regras da OMC não são como as regras das outras organizações internacionais. A OMC faz as regras, actua como o poder legislativo; a OMC implementa as suas próprias regras, actua como poder judicial; a OMC pune os Estados que não cumprem as suas regras, actua como poder judicial. Toda a gente sabe que a ausência de divisão de poderes gera um poder sem controlo", alertou Jennar. Para o investigador, a política da OMC segue a cartilha ideológica do neoliberalismo, pretende colocar nas mãos do mercado todas as esferas da vida humana e não se preocupa com "a liberdade do comércio" quando ela é ameaçada pelas corporações e monopólios. O conferencista relembrou a significativa afirmação do antigo presidente desta organização Supachai Panitchpakdi: "nós não nos preocupamos com o sector privado". Para Jennar, "a OMC é o instrumento que serve os monopólios internacionais para desmantelar os direitos fundamentais e a soberania dos povos". Seguidamente, o interveniente abordou algumas áreas que são duramente afectadas pelas políticas neoliberais desta organização: os direitos humanos, o conhecimento e o progresso, a questão da água e o emprego.

Finalmente, o cientista político abordou os desafios que se colocam à esquerda europeia no quadro do processo de globalização capitalista. Para Jennar, é cada vez mais verdadeiro o pensamento de Pierre Bourdieu que defendia que, nos tempos de hoje, "os investigadores sociais devem tornar-se militantes e os militantes tornar-se investigadores". Raoul Jennar concluiu: "é preciso sermos capazes de construir uma esquerda genuína e popular que consiga criar um caminho que se oponha a este processo de globalização capitalista e esta Universidade da Esquerda Europeia é um bom começo".

LUTA CONTRA A GUERRA

Seiscentas pessoas participaram, no dia 15 de Julho à noite, numa jornada de solidariedade com a Palestina, promovida pelo Bloco de Esquerda, no âmbito da Universidade de Verão do Partido da Esquerda Europeia. Meia hora antes, portugueses e estrangeiros encheram o anfiteatro ao ar livre situado no centro de Tavira. Intervieram Adel Athie, representante da Palestina na União Europeia, Daphna Sharfman, presidente do partido israelita de esquerda Meretz, e Miguel Portas, do Bloco.

A sessão começou com a música dos Kumpania Algazarra que deu o mote para o orador da Palestina, Adel Athie. "A vossa música é bonita, infelizmente na nossa terra só temos direito a uma nota - o barulho das bombas e dos bombardeamentos", disse. O representante da Palestina na UE realçou a importância da mobilização das opiniões públicas para impedir a continuação da escalada da guerra e permitir o regresso ao processo de paz. "A vossa presença nesta noite é muito importante para nós. Espero regressar para o próximo ano a Tavira como cidadão de um Estado palestiniano independente", concluiu Adel.

A presidente do partido israelita de esquerda Meretz, Daphna Sharfman, sublinhou a luta de muitos israelitas ao longo dos anos contra a guerra e contra os governos  militaristas do Estado hebraico. Lembrou que na sua cidade, Haifa, bombardeada pelos mísseis do Hezbollah, durante muitos anos israelitas e palestinianos viveram em paz. Para Daphna, a paz é o único caminho possível para a região.

Miguel Portas finalizou a sessão acusando Israel de usar os soldados raptados para destruir a Palestina. O objectivo do governo israelita seria a eliminação sistemática de todos os possíveis interlocutores de um processo de paz, impedindo o estabelecimento de um qualquer processo político para a resolução do conflito.

Já durante a tarde, discursando na Universidade, o dirigente do Bloco Francisco Louçã responsabilizou a administração norte-americana pela instabilidade na região:  "Esta barbárie que está agora a ocorrer nas fronteiras de Israel com a Palestina e o Líbano é autorizada, promovida e impulsionada por George W. Bush, porque acha que no fim da estrada está mais uma guerra contra o Irão".

Para Louçã, "a Europa politicamente não existe enquanto for dirigida por Tony Blair ou por Angela Merkel, que são os aliados de George Bush para fazerem a guerra". "A Europa só existe se fizer a paz, se promover os direitos humanos e se tiver a grandeza de promover a paz contra a barbárie", defendeu.

"E quando o chefe dos salteadores, George W. Bush, conduz esta guerra, eu creio que pensar na esquerda como uma alternativa de responsabilidade, seriedade e democracia é decisivo para enfrentarmos a barbárie", disse o dirigente do Bloco.

Com uma intervenção centrada na guerra no Médio Oriente e na resposta política que a esquerda, à escala europeia, tem de dar à agressividade neoliberal que tomou de assalto a agenda da maioria dos governos europeus, o presidente do Partido da Esquerda Europeia, Fausto Bertinotti, encerrou os trabalhos da Universidade de Verão.

Fausto Bertinotti relembrou que o Partido da Esquerda Europeia nasceu a partir da dinâmica do "movimentos dos movimentos" e das grandes mobilizações contra a guerra. Sobre a escalada de violência que se assiste no Médio Oriente, Bertinotti defendeu que o retomar do processo e paz é o único caminho possível, e que hoje, como ontem, se verifica que "não é o movimento pacifista que é impotente, mas a guerra que é incontinente" para gerar qualquer situação de estabilidade na região. Para o líder do Partido da Esquerda Europeia, a Europa só será Europa, e não um apêndice do sistema de poder dos Estados Unidos, se escolher um outro caminho diferente do neoliberalismo e a guerra. "Chamem a estes termos da equação outros nomes, mas a escolha na Europa continua a ser, como escreveu Rosa Luxemburgo, entre socialismo e a barbárie", disse.

 
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