Deslocalizações na Indústria criar PDF versão para impressão
08-Ago-2006

DESLOCALIZAÇÕES GLOBAIS

Texto de Carlos Santos

Desde o início dos anos 90 um fenómeno recente começou a reproduzir-se com rapidez: as deslocalizações. Desde então o fenómeno não tem parado de se multiplicar. Em cada ano, empresas em catadupa encerram fábricas num local, num país e transferem a sua produção para outro país, para outro continente, para o outro lado do globo até.

Antes dos anos 90 do século passado já existiam fenómenos semelhantes. Em Portugal no início dos anos 70 e sobretudo depois do 25 de Abril, inúmeras empresas encerraram as suas fábricas e foram produzir noutros países. Na indústria electrónica e automóvel são diversos os exemplos, Signetics, Applied Magnetics, Standard ITT, Ima, Barreiros, e tantas mais.

Porém as deslocalizações, em toda a sua amplitude e extensão, são um fenómeno recente possibilitado e desenvolvido pela globalização capitalista.

Uma empresa por exemplo fecha uma fábrica em Portugal e passa a produzir em Marrocos ou na Europa de Leste, ou transfere para a Índia ou a China um sector da sua produção.

As empresas deslocalizam em primeiro lugar para passarem a produzir em países onde o preço da força de trabalho é mais baixo. Transferir a produção para a Europa de Leste pode significar reduzir salários na proporção de dez para um, proporção que pode ainda ser multiplicada se a transferência for para a Ásia.

A globalização capitalista constitui assim uma pressão objectiva para a baixa dos salários.

Mas não são só custos com o trabalho que contam, também os impostos ou as despesas com a se­gurança social alteram os cálculos. Esta globalização é assim também uma pressão contra o Estado social e a justiça fiscal. Quanto menos as empresas pagarem em impostos ou em despesas com a segurança social, maiores as possibilidades de maximização de lucros.

Existem muitos outros factores. O mercado local pode ser muito importante: a produção na China é hoje um desafio apelativo para qualquer transnacional não só pelos baixos custos sociais, mas também pelo mercado de 1 300 milhões de pessoas.

Há ainda outros custos que entram na ponderação das decisões de qualquer transnacional, nome­adamente os custos logísticos.

O espaço de intervenção política é hoje diferente e qualquer governo deveria ter esta situação em conta, tal como a União Europeia também deveria ter uma política para a Europa. No entanto predomina a ideologia de que o Estado apenas tem a dar benefícios para atrair os investimentos, o liberalismo que só conta para um lado: levantar barreiras e desregulamentar, mas subsidiar os investimentos, a formação ou até outros custos. É a ideologia que serve aos grupos económicos. Muito há a intervir para alterar esta política negativa para os empregos e o Estado social.

 
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