Reabilitar a cidade e o espaço público, entrevista com Sá Fernandes criar PDF versão para impressão
02-Jul-2007
Entrevista a Sá FernandesNuma curta pausa de campanha, entrevistámos José Sá Fernandes, o vereador que marcou o anterior mandato, pela luta que travou pela transparência, que foi decisivo na queda da Câmara e que é, de novo, o cabeça de lista da candidatura "Lisboa é gente". A fluidez das respostas tem a marca de quem sabe do que fala, de quem não pactua com cambalachos, de quem tem propostas inovadoras para a cidade.
Entrevista de Carlos Santos
Ouça também parte da entrevista à RCP
Leia o artigo de Carlos Marques, Os assessores de Sá Fernandes

 

Porquê votar na candidatura de José Sá Fernandes nestas eleições em Lisboa?

Duas ordens de razões, em igualdade de circunstâncias. Uma é porque nós conhecemos muito bem a cidade, constituímos uma excelente equipa, temos excelentes soluções e apostamos decisivamente na transparência, o que foi visível ao longo deste ano e meio. Os cidadãos de Lisboa têm o direito de saber o que se passa na sua Câmara e essa é uma mais valia que a nossa candidatura dá.

Com as apreciações negativas de alguns candidatos, não se poderá pensar que o Sá Fernandes, no futuro mandato, irá ser mais moderado, mais cuidadoso com as apreciações, com a "vigilância"?

Não, porque contra factos não há argumentos. E os lisboetas não devem querer, certamente, que Lisboa regresse à anterior "normalidade", seria um mau sinal.

É importante que haja uma pessoa que não feche os olhos dentro da Câmara e esse é o meu compromisso, já foi o meu compromisso durante este ano e meio. Por outro lado, há que insistir em propostas muito positivas para a cidade e que demoram, há anos.

Que propostas?

Por exemplo, o plano verde do Gonçalo Ribeiro Telles.

Os eléctricos na cidade, uma aposta decisiva nos transportes públicos que não tem sido feita ao longo dos últimos anos. Em termos de eléctricos só há uma linha neste momento.

Uma aposta decisiva no estacionamento para residentes, nomeadamente em áreas como Benfica, S. Domingos de Benfica, Lapa, Campo de Ourique, Ajuda, as encostas da Almirante Reis, para citar apenas alguns exemplos.

No fundo, dar melhor qualidade de vida aos cidadãos de Lisboa, nomeadamente aos idosos e ás crianças. E depois reabilitar a cidade, com a Câmara a intervir no próprio custo das casas. As pessoas não vivem em Lisboa, porque as casas são muito caras e ainda por cima o espaço público não oferece boa qualidade de vida às pessoas. Se o caminho não for este, vai ser outro, que é péssimo para a cidade e para os cidadãos, que é continuarmos na especulação imobiliária, nas negociatas.

Numa Câmara saída de umas eleições intercalares, portanto um período mais curto, com uma crise financeira, haverá espaço para esses projectos?

Há espaço exactamente. Porque a grande aposta, para resolver a crise financeira a médio e longo prazo da Câmara, é precisamente na reabilitação da cidade, é isso que vai, no fundo, trazer novas receitas para a Câmara.

O grande paradigma da cidade é: como é que nós vamos arranjar mais receitas para fazer face às despesas que temos? Esse grande novo paradigma só tem uma solução: reabilitar a cidade e o espaço público dentro da cidade, para as pessoas poderem querer vir viver para cá. Se as pessoas quiserem vir viver para cá, se a Câmara conseguir intervir no mercado, arranjando casas para todos os tipos de pessoas, temos aí um aumento de receita directo dessa vinda.

Nós pretendemos que nos próximos seis anos venham cinquenta mil pessoas para dentro da cidade, o que vai ter reflexos económicos muito bons na própria crise financeira da Câmara.

Para resolver de imediato a crise financeira propomos que se faça um empréstimo. A dívida no fundo fica na mesma, mas que se pague aos fornecedores. Existem muitas pequenas e médias empresas, que operam em Lisboa, que neste momento estão à beira da falência, exactamente porque a Câmara não lhes paga. Conseguirmos que se pague imediatamente essa dívida resolveria e estimularia esses agentes económicos. Depois obviamente o aproveitamento dos excelentes recursos humanos da Câmara. Tem muitos trabalhadores, muito conhecedores da cidade, que são sistematicamente esquecidos pelo aparelho partidário, que normalmente entra na Câmara em todas as sessões legislativas.

O que diferencia a sua candidatura das candidaturas de António Costa, Ruben de Carvalho e Helena Roseta?

O programa. Temos um programa que apresentámos há dois anos, um programa de convergência de um grupo de independentes com o Bloco de Esquerda e outras tendências, como alguns renovadores comunistas. É um programa que pensa única e exclusivamente na cidade. E acho que essa é uma diferença que nos distingue de todas as outras três candidaturas.

Haverá hipóteses de entendimento futuro?

As convergências são sempre bem vindas desde que assentem em programas.

Se houver convergência em medidas programáticas que assentarem em três vertentes será positivo.

Resolver o problema da situação financeira com critérios de alguma justiça social. Não vamos permitir que se despeçam pessoas na Câmara, temos é que inverter a situação das receitas trazendo mais pessoas para cá.

Apostar na reabilitação do que já existe e do espaço público, em vez de novas construções e de especulações imobiliárias.

Que a recuperação do espaço público se faça através da estrutura ecológica do Gonçalo Ribeiro Telles.

As convergências fazem-se através de medidas programáticas, não se fazem através da distribuição de lugares por partidos ou pelo número de assessores que cada um pode trazer.

Está disposto a assumir pelouros?

Com certeza, com base num entendimento programático. Estou disponível, mas não aceito nenhum pelouro se a contrapartida for fechar os olhos. Imagine que me davam o pelouro do ambiente, nós faríamos certamente um grande trabalho no ambiente, mas eu não podia aceitar que se fizessem urbanizações ou pactuar com situações que invertessem este ciclo, que eu quero que seja dinâmico, que é reabilitar o existente e o espaço público.

Ao longo do mandato foram aprovadas algumas propostas que apresentou?

Várias e por unanimidade, o que quer dizer que a nossa perspectiva de cidade tem este lado de convergência. Algumas que não são novidades, tem é que haver alguém a propô-las. Não é admissível defendê-las nas campanhas e depois esquecê-las durante os mandatos. Nós não as esquecemos, felizmente.

Fizemos propostas que foram aprovadas por unanimidade, estruturais para a cidade: o Plano Verde do Ribeiro Telles, a proposta dos eléctricos, a proposta da rede das bibliotecas, a proposta de nos próximos loteamentos ou urbanizações haver uma parte para custos controlados, exactamente para termos uma cidade de todos e para todos e não apenas só para alguns.

São quatro propostas estruturais que foram aprovadas por unanimidade. Outra novidade que foi trazida por esta candidatura, ao longo deste ano e meio, é que já todos perceberam que tem que se reestruturar as empresas municipais. As empresas municipais têm que estar ao serviço da cidade e não ao serviço dos partidos.

Qual é a solução para o Parque Mayer?

Reabilitação do teatro que está lá, ligação ao Jardim Botânico e depois um pólo cultural que inclui o S. Jorge e o Clube das Portas de Santo Antão. A ideia não é nova, é simples, tem é que se executar e que não se comece a insistir na conversa da especulação imobiliária.

O Parque Mayer pode recuperar o Capitólio, pode recuperar provavelmente outro teatro, juntamente com o Maxime, o Hot Club, o Jardim Botânico, o S. Jorge. Pode ser um pólo fantástico, desde que também esteja ligado à reabilitação e à vinda de pessoas para viverem na Avenida da Liberdade e na encosta do Jardim Botânico. Por isso é que também é importante a estrutura ecológica do Gonçalo Ribeiro Telles, em que uma das vertentes é precisamente que o verde, que existe na encosta do Parque Mayer e na do outro lado da Avenida da Liberdade, seja um sítio de passeio, de lazer, quer para a população idosa que vive ali, quer para as próprias crianças terem um espaço para brincar, que actualmente não têm. Aproveita-se assim a jóia da Avenida da Liberdade que é o Jardim Botânico, de que infelizmente pouca gente se lembra.

Que medidas para trazer mais gente para Lisboa?

Para já existem muitas casas devolutas na cidade de Lisboa que têm de ser taxadas. Porque não há o direito de as pessoas terem as casas devolutas à espera da especulação imobiliária: demolições, mais andares, ampliações, etc. Se taxarmos essas casas devolutas, elas vão ser postas no mercado.

Por outro lado, a Câmara, a partir do momento em que regularize a sua situação financeira, pode começar a investir no próprio mercado, de maneira a poder fazer investimento na cidade de modo a trazer pessoas para viverem cá. A Câmara deve comprar quarteirões, investindo através da EPUL, e mais tarde vendendo ou arrendando, mas obviamente controlando os custos das casas.

É fundamental que venham pessoas viver para cá, porque se vierem mais pessoas as receitas são maiores para a Câmara, se as receitas forem maiores a Câmara pode investir na reabilitação, se a Câmara investir na reabilitação pode trazer mais pessoas. É um ciclo que precisa de dinamismo. Se dermos dinamismo, os agentes económicos têm mais vontade de montar esplanadas, de dar mais vida à rua, o que traz mais cultu­ra, mais vivência e mais bem-estar a todos.

Na sua opinião qual é a solução para o novo aeroporto de Lisboa.

Ter o aeroporto aqui na Portela é um factor económico muito importante. Já há dois anos defendíamos a manutenção da Portela e um segundo aeroporto na Margem Sul. Este é um assunto de Lisboa. É nacional, mas também é de Lisboa. Qualquer candidato a Lisboa tem que falar se interessa ou não interessa a Lisboa ter um aeroporto no sítio da Portela.

Há algumas pessoas que se queixam da qualidade de vida, que fica muito degradada com o aeroporto da Portela, com o ruído...

Bom o ruído está menor. É evidente que não há situações ideais nestes casos, mas temos de nos lembrar que os impactes ambientais na Ota são violentíssimos, quer a nível dos aquíferos, quer a nível de derrube de montanhas, e tem que se ter em conta o próprio custo. Portugal, queiramos ou não, é um país que não é muito rico para grandes megalomanias. Admitimos a construção de um novo aeroporto, esse aeroporto deve ser estudado da forma mais racional possível, tendo em conta as nossas capacidades económicas, e achamos que a melhor solução até por causa do TGV, é a Margem Sul.

Mas na Margem Sul não terá grandes problemas ambientais?

Depende do sítio. Problemas ambientais o aeroporto traz sempre. Temos é que escolher o melhor sítio e aquele que tem um factor económico-social-ambiental mais positivo. Já o defendíamos há dois anos. O principal, para quem se candidata a Lisboa, é perguntar: o que serve melhor à cidade de Lisboa? Lisboa é a capital do país. A atracção turística de Lisboa é um factor decisivo para a economia do país. As pessoas vêm visitar Lisboa, porque Lisboa oferece umas condições únicas no país, para além de ser a capital.

No caso de ser construído um aeroporto na Margem Sul, a Portela seria para manter?

Pelo menos numa primeira fase sim, porque não podem haver medidas bruscas. Mais tarde admitimos que possa eventualmente sair. Mas para já mantínhamos os dois. Depois depende da evolução do segundo aeroporto. Não se podem correr riscos nisto.

Que objectivos para estas eleições?

Melhorar, melhorar a votação das últimas.

Qual a primeira proposta que vai apresentar quando chegar à Câmara?

Que os imóveis do Estado sejam taxados e que se proceda ao empréstimo para resolver o problema dos fornecedores e enfrentar a crise financeira.

 
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