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05-Jul-2007

Miguel PortasEntre Julho e Dezembro, o brio patrioteiro tomará conta do discurso dos políticos portugueses do "arco europeu", bem como dos media. Para o senso comum, a União é uma matéria de "interesse nacional", que a todos obrigaria à "solidariedade institucional".

Na realidade, este modo de ver a política europeia é uma herança soft de uma ancestral tradição nacionalista. É mesmo o seu reflexo provinciano. Em Bruxelas, o discurso português será, como convém, hiper-europeu; por cá, o que factura é dizer que o governo se está a "portar bem" aos olhos dos demais. Esta ambivalência é pequenina, pois é. Mas é o prolongamento óbvio de como sempre temos estado na União Europeia: como "bons alunos", sem fazer ondas e ao lado do "pelotão da frente".

A avaliação da presidência portuguesa vai depender, contudo, de factores bem menos atraentes para os holofotes. A União encontra-se num impasse estratégico e em rota de colisão com parte substancial da opinião pública. Em primeira e última análise, será este o critério de avaliação.

O nó górdio do divórcio entre os "de cima" e os "de baixo" condensa-se na questão do Tratado. Para os primeiros, o que trama a Europa é a dificuldade do processo de tomada de decisões quando já são 27 os seus Estados membros. Por isso, a arquitectura das instituições, as relações entre os Estados e a União, os sistemas de votos por maioria, etc, são as suas prioridades.

Mas para os "de baixo", a desconfiança face à UE rege-se por critérios bem mais prosaicos. Como andamos de desemprego, precariedade, direitos no sistema de saúde e de pensões, horizontes de futuro para os filhos, e por aí adiante. Consoante a cadeira onde se está sentado, assim se vê o Mundo...

As pessoas intuem que a Europa é necessária, mas sabem que ela é cada vez mais ingrata com os mais fracos. Do mesmo modo, sabem que Bruxelas, lá longe, é incapaz de bater o pé à desordem mundial, seja ela a do comércio, seja a da resolução dos conflitos por via da guerra e do terror. O encanto finou-se, ponto final.

Uma boa presidência seria a que olhasse priorita­riamente para as angústias e medos dos "de baixo". Infelizmente, não é expectável que tal venha a suceder. José Sócrates não quer ondas. Basta-lhe mostrar que é "tão bom como os demais". Neste caso, o seu problema não é de provincianismo. É o de uma Europa que se condenou ao minimalismo em tudo o que é importante.

Miguel Portas

 
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