Escudo anti-mísseis: ideia maluca ou objectivo racional? criar PDF versão para impressão
22-Jun-2007
immanuel_wallerstein.jpgGeorge W. Bush tem feito muita pressão para instalar o que ele chama de escudo de defesa anti-mísseis na República Checa e na Polónia. Poucas pessoas acham que esta é uma ideia sã. Enquanto os dois governos leste-europeus parecem apoiá-la entusiasticamente, as sondagens mostram que as suas populações estão contra. A Rússia denunciou-o abertamente. A Alemanha tem-no combatido de forma mais calma. O Irão mostrou total indiferença. E Joseph Cirincione, que devotou a sua carreira profissional ao combate à proliferação nuclear, diz que Bush está a impulsionar "uma tecnologia que não funciona contra uma ameaça que não existe."
Trata-se então de uma ideia maluca, mais uma prova de que o regime de Bush é irracional e pouco astuto? Nem tanto. Há um objectivo racional por trás de tudo isto, e nem sequer é segredo.

Comecemos pela pretensa explicação. Bush diz que os Estados Unidos querem proteger a Europa, e em última instância os Estados Unidos, de uma ameaça nuclear feita por um estado pária (leia-se Irão).

A Rússia diz que estes chamados escudos de defesa estão de facto apontados para a própria Rússia, facto que merece o protesto de Moscovo e a ameaça de apontar mísseis à Europa. Os governos checo e polaco não podem realmente estar muito nervosos em relação à ameaça iraniana, mas parecem temer uma ameaça russa. Por isso, o motivo que os leva a estar tão entusiasmados com a ideia é concordarem com os russos - que estas manobras têm a Rússia como alvo. Esta é também, na realidade, a posição da Alemanha em privado. E, também em privado, provavelmente todos os governos europeus ocidentais partilham este ponto de vista.

George W. Bush insiste que tudo isto é falso, que os russos são amigos, e que ele não tenciona ameaçá-los. Diz que os checos e os polacos não têm de escolher entre os Estados Unidos e a Rússia. Podem ser (e deveriam ser) amigos de ambos. Provavelmente, ele acredita em tudo isto, no sentido de que nem Bush nem mesmo os neo-cons querem que a Rússia se torne num inimigo adicional no século XXI. Que se passa então?

Donald Rumsfeld já nos disse há muito tempo o que se passa. A política do actual governo dos EUA é usar a chamada Nova Europa para constranger e limitar o papel político da chamada Velha Europa - isto é, usar os governos leste-europeus contra os governo da Europa ocidental. Os Estados Unidos, especialmente o regime Bush, não querem ver uma Europa forte, que levasse a cabo uma política separada dos Estados Unidos. E pode-se dizer que a doutrina Rumsfeld foi razoavelmente bem-sucedida até agora. O objectivo de levantar escudos de defesa anti-míssil na Europa do Leste é proteger os Estados Unidos, não contra o Irão e não contra a Rússia, mas contra a Europa ocidental, o que explica a atitude da Alemanha.

O período de domínio soviético sobre a Europa do Leste foi uma experiência altamente negativa para os países-satélite, assim como para os vários estados ex-soviéticos que são hoje independentes. Todos eles vivem a síndrome de stress pós-traumático. Forças de direita no interior destes países estão a explorar este medo para favorecer as suas agendas internas. Estas forças não temem verdadeiramente a pressão directa militar da Rússia, ou mesmo a pressão política. Elas temem que a Europa ocidental faça um acordo político com a Rússia, e que elas não sejam tidas nem achadas sobre os termos deste acordo

Isto também não é inteiramente irracional da sua parte. Houve acordos semelhantes, selados no decorrer dos últimos séculos, e é uma séria possibilidade que venham a ocorrer uma vez mais. Por isso, os países leste-europeus estão a proclamar o seu amor imorredouro pelos Estados Unidos (exibido de uma forma tão incrivelmente efusiva na Albânia durante a visita de oito horas de George W. Bush em 11 de Junho).

O objectivo destas tão efusivas proclamações de amizade é duplo: enfraquecer os europeus ocidentais e criar uma situação na qual os Estados Unidos sejam forçados a apoiar os leste-europeus. Esta é uma clássica táctica dos países mais fracos em relação aos países fortes que parecem ser aliados ideológicos. Cuba e Vietname usaram-na em relação à União Soviética. A Coreia do Norte usou-a em relação à China.

É uma táctica que funciona frequentemente. Mas tem as suas limitações. O calcanhar de Aquiles de uma táctica como esta é que depende de que continuem as necessidades do país mais forte, neste caso o governo dos Estados Unidos. De momento, os Estados Unidos estão parecem preparados para isso. Mas quando retirarem do Iraque e recalibrarem a sua atitude global para readequá-la à diminuição do seu poder geopolítico, achando que os regimes polaco e checo podem ser menos úteis, pode mesmo desvanecer-se totalmente a sua importância. Neste ponto, os governos leste-europeus ficariam por sua conta - dependentes económica e militarmente dos mesmos poderes europeus ocidentais que agora desdenham, mesmo quando, ou especialmente quando há uma reaproximação Paris-Berlim-Moscovo.

Assim, a curto prazo, a construção de um escudo de defesa anti-míssil na Europa do Leste serve as necessidades dos Estados Unidos e as dos governo leste-europeus. Mas, no longo prazo, tudo indica que os leste-europeus estão a apostar num cavalo que pode não acabar a corrida.

 

Immanuel Wallerstein, 15/6/2007

 
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