Só podem sentir vergonha! criar PDF versão para impressão
25-Jun-2007

Mariana AivecaAs perguntas eram inevitáveis e, foram colocadas durante a discussão das alterações ao regime de aposentação dos funcionários públicos, que ocorreu na AR na passada sexta feira. Como se sentem as deputadas e deputados do PS quando são confrontados com os seus companheiros de trabalho sabendo que muitos deles contribuíram para a vossa eleição como deputados da Nação na expectativa de que, convosco no parlamento e no governo teriam um futuro melhor?

Como se sentem quando ouvem e vêem colegas duma vida inteira de trabalho dizerem que... "daqui a quatro meses receberei pouco mais de 400 euros?"

Como se sentem quando vêem aquele casal de funcionários para quem os dois subsídios de refeição eram fundamentais para pagar o quarto do filho, que estuda fora da terra?

Como se sentem quando têm colegas que trabalharam já 40 anos, mas que lhes falta idade para se poderem aposentar e que terão que trabalhar mais dez anos, só porque a vida os empurrou para o trabalho aos 14 anos de idade?

Como se sentem quando sabem que milhares de funcionários operários e auxiliares que recebem no fim da carreira cerca de 650 euros e que viram definitivamente os escalões congelados?

Como se sentem quando sabem que existem muitas e muitos jovens qualificados, investigadores, professores, enfermeiros, psicólogos, arquitectos, a falsos recibos verdes há anos e anos?

Só podem sentir vergonha. Vergonha dum governo que duma forma autista e arrogante vai de "convergência em convergência" de "adaptação em adaptação" nivelando salários, pensões e direitos, tudo por baixo. Tudo abaixo da média Europeia. Tudo mais abaixo do que os governos das direitas conseguiram fazer.

Vergonha dum governo que nos empurra cada vez mais e mais para os "primeiros lugares dos piores".

Em 2005, o governo fez aprovar uma lei que fazia a convergência das pensões da função pública com as do regime geral de segurança social. Por uma questão de "equidade e justiça social" dizia o 1º Ministro, sustentando que o que se pretendia era igualizar e, fez com isso a sua campanha demagógica "dos privilegiados".

Passado um ano e meio, a solução que era milagrosa deixou de o ser, porque, entretanto, o governo alterou para pior o regime geral de segurança social e, agora vem dizer que é preciso adaptar de novo os regimes, e, penaliza de novo os funcionários públicos.

Este malabarismo com que o governo presenteia todas e todos os portugueses, inventando fórmulas labirínticas de factores e mais factores, parcelas e mais parcelas, visa esconder a sua real incapacidade de respostas claras, que garantam uma vida digna no final duma vida de trabalho.

O que o governo não quer é fazer uma verdadeira reforma da segurança social, que garanta a sua sustentabilidade financeira, que responda ás pensões de miséria, que seja verdadeiramente universal e solidária.

O governo não quer tocar nas mais valias das empresas, nos fabulosos lucros da banca, no chamar à responsabilidade a solidariedade nacional.

O governo prefere penalizar sempre "os do costume". Obrigando-os a descontar mais, a trabalhar mais tempo, e no final receber menos pensão.

Portugal transforma-se assim num país de mínimos garantidos, onde o estado social já é um estado de desgraça.

Um Estado Social a sério só pode ser concretizado se a esquerda for Socialista.

Mariana Aiveca

 
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