Jean Valjean, Javert, e o Lidl criar PDF versão para impressão
28-Jun-2007
Alice BritoJean Valjean, herói romântico de Victor Hugo, foi preso e condenado por ter roubado um pão.
Javert, um odioso chefe da polícia, perseguiu-o sistematicamente após a sua fuga, numa caçada implacável, descrita com mestria pela mão hábil do escritor.
Poder-se-ia pensar que a França do séc. XIX, com toda a sua galeria de deserdados famintos, acossados pelo estado liberal, defensor de ricos e poderosos e perseguidor de fracos e pobres, estaria longe do Portugal do séc. XXI, maquilhado de telemóveis, computadores e muitos carros.
Contudo, se atentarmos numa pequena notícia que os jornais publicitaram a semana passada, ver-se-á que a distância entre a França de Victor Hugo e o Portugal de Sócrates não é assim tão grande:
Em 2005, num dos múltiplos supermercados Lidl, uma senhora de 76 anos foi acusada de roubar um creme de beleza no valor de 3,99 €.

O Lidl apresentou queixa e, pressuroso, o Ministério Público deduziu acusação.

A arguida sentar-se-ia por 3 vezes no Banco dos Réus e a final seria absolvida, porque, afinal, tinha já pago o creme.

A senhora em causa é reformada.

Aufere de pensão 563,00 €. Paga 125,00 € de renda de casa. É doente. Paga água, luz e gás. Deduzidos estes montantes vive por dia com cerca de 12,70 €.

O Lidl, onde foi apanhada, faz parte de uma cadeia alemã que opera em 17 países europeus possuindo cerca de 5.000 lojas.

Pertence à Holding Schwarz, companhia fundada na Alemanha nos anos 30.

O Lidl, justiceiro feroz e musculado não prescindiu do hipotético castigo a aplicar exemplarmente à alegada infractora e com esse êxtase punitivo gastou ao Estado português muitas centenas de euros, num julgamento absurdo que se situou algures no território da indignidade

O M.P. acusou, tal como Javert perseguiu Valdejan.

Ainda esta semana o Público noticiou que uma inspectora do IGAT que há sete anos havia investigado Fátima Felgueiras nunca tinha sido ouvida em tribunal. Tratava-se de um processo referente a um loteamento estranhíssimo em que a referida inspectora havia pedido a perda do mandato desta estimada autarca. Por falta de provas foi absolvida.

Estes pequeníssimos casos mostram a textura da justiça que temos. Uma textura de pano puído, que um só puxão pode rasgar.

Uma textura saturada que derrama iniquidades, perdulária no gasto gratuito que faz de energias e recursos, atentatória das traves mestras dum músculo chamado coração, quando acusa solene todos os Jean Valjean deste país.

E assim sendo, continuamos a pautar-nos pela bitola d'Os miseráveis.

Alice Brito

 
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