A cultura não é uma medalha na lapela criar PDF versão para impressão
30-Jun-2007

João Teixeira LopesO Senhor Comendador Joe Berardo tem a jóia da sua coroa exposta no Centro Cultural de Belém. Até aqui, tudo vai bem. A colecção, não sendo, a nível europeu, de primeira água, merece destaque e contribuirá, decerto, para aumentar o número de visitantes das exposições de arte contemporânea em Portugal. O problema é que o Centro Cultural de Belém perde uma enorme área e fica reduzido no seu projecto e nas ambições de futuro. Além do mais, não são despiciendas as condições em que o Estado português paga um aluguer ao Senhor Comendador, que tinha as obras em caixotes e gostava, aliás, de as ter deixado no esplendor do Pavilhão de Portugal.

Compromete-se o Estado, aliás, a contribuir com 500 mil euros para um fundo de aquisições, verba que, em si mesma, com excepção da que resulta do protocolo com a Fundação de Serralves, é consideravelmente superior à quantia que resulta do somatório de todos os museus nacionais de arte, a maior parte dos quais padecendo de um enorme défice de funcionários, departamentos educativos inexistentes ou reduzidos ao mínimo, colecções sem renovação e vivendo quotidianamente na angústia das dificuldades mais comezinhas, como a de abrir com dignidade as portas ao público na manhã seguinte.

O problema, além do mais, é a pompa e o cerimonial com que o Governo ensaiou a majestática inauguração, aproveitando a vaidade imensa do Senhor Comendador que gosta de ver expostos os seus estandartes. O poder de Estado é sempre um poder simbólico, que se apresenta e representa em aparato de deslumbramento. Mas num país onde a verba para a cultura é inferior a 0,5% do Orçamento de Estado, o mais baixo valor desde o 25 de Abril, é caso para suspeitarmos de demagogia.

Consta que Sócrates ficou de tal forma deslumbrado com um quadro de Andy Warhol que mencionou a Pop Art dos anos sessenta do século XX como o regresso à alegria, depois dos anos de chumbo, acompanhando o crescimento económico e o renascimento da esperança.

José Sócrates deve saber do que fala, pois estes dois anos do seu Governo são os anos de chumbo da democracia portuguesa, sem crescimento económico, com pobreza e desemprego, vaidade dos poderosos e repressão de quem diverge, anos onde o seu intuito primordial consiste em destruir a esperança de quem diverge e luta. Para a alegria tonta da turma do croquete que enchia a inauguração da colecção do Senhor Comendador («- Foge cão que te fazem barão! - Para onde, se me fazem Visconde?»)...

João Teixeira Lopes

 
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