Palestina na encruzilhada criar PDF versão para impressão
03-Jul-2007
Rui BorgesVivem-se dias trágicos na Palestina. A tomada do poder pelo Hamas em Gaza parece um augúrio do fim do sonho da nação palestiniana. Muitos comentadores têm feito a apologia da incapacidade palestiniana para assumir o seu próprio governo ou lançado gritos de alerta contra o fundamentalismo. A realidade é no entanto bem diferente. Os últimos anos da Autoridade Palestiniana têm sido bem a imagem da democracia sonhada por Bush e os neoconservadores para o Médio Oriente. A OLP foi sendo levada de concessão em concessão sempre a troco de nada ao ponto de alguns líderes palestinianos serem vistos pelos seus compatriotas como colaboradores de Israel.

Quando os palestinianos fartos de concessões e corrupção deram a vitória ao Hamas, Israel e os seus aliados apressaram-se na aplicação de um severo castigo por tal insolência. Israel e os Estados Unidos foram pacientemente semeando o confronto, impondo o embargo económico e exigindo ao Hamas que renunciasse a todas as políticas que lhe deram a vitória eleitoral. O embargo económico obrigou o Hamas a partilhar o governo com a Fatah apesar de esta ter sido claramente derrotada nas urnas.

Entretanto os Estados Unidos tratavam de armar as forças ligadas à Fatah para estas combaterem os islamistas. Foi assim por uma questão de sobrevivência que o Hamas tomou o controlo da faixa de Gaza. Aqui Abbas encontrou a justificação que tanto lhe faltava para tirar do governo o partido mais votado pelos palestinianos. Agora que a necessidade de diálogo é mais forte para evitar o colapso da causa palestiniana, Abbas brindou o seu povo com mais uma lição de democracia, nomeando primeiro-ministro um ex-funcionário do Banco Mundial e do FMI, Salam Fayyad, que obteve 2,4% dos votos nas eleições. Em troca Abbas, tem sido bajulado por presidentes e primeiros-ministros de todo o mundo como um homem capaz, moderado e realista, ele que à menos de um mês atrás era uma patética imagem de impotência.

Israel num gesto magnânimo até já começou a devolver o dinheiro dos impostos roubados à Autoridade Palestiniana. Mas não esconde que apenas pretende que Abbas seja um fantoche. Na cimeira da semana passada em Sharm-el-Sheik, Olmert deixou bem claro que não vai dar resposta à pretensão palestiniana de ver levantados os check-points da Cisjordânia, a medida mais elementar para permitir à Cisjordânia ser um território minimamente funcional. Voltou a reforçar a habitual linha de fazer depender qualquer concessão por parte de Israel da capacidade de Abbas pôr fim à violência. A nova vaga de apoios a Abbas inclui o reforço do armamento das forças armadas que lhe estão próximas. Por outras palavras, o ocidente faz uma aposta determinada na guerra civil palestiniana.

Em Jerusalém devem viver-se momentos de grande satisfação. Enquanto os palestinianos se guerreiam Israel fica livre de negociações incómodas e os colonatos podem crescer longe da atenção da opinião pública. Mas a capacidade de resposta dos palestinianos não deve ser subestimada. Antes de mais convém não esquecer o importante detalhe de o Hamas ter tido uma maioria clara dos votos também na Cisjordânia e é portanto uma força com um peso social impossível de ignorar. Depois será pouco provável que os habitantes da Cisjordânia se contentem em usufruir das benesses concedidas pela Casa Branca enquanto os seus compatriotas passam fome em Gaza.

Hoje talvez muitos palestinianos e apoiantes da sua causa sintam que o sonho de dois estados a viver em paz e reconhecendo-se mutuamente se tenha desvanecido para sempre. Como poderia ser de outra forma quando o vizinho é um estado racista e militarista que não esconde os seus intentos de controlar todo o território da Palestina. Por isso toda a conversa sobre a necessidade de os palestinianos serem moderados e responsáveis soa a oco. A miséria palestiniana dificilmente acabará enquanto Israel for um estado segregacionista que recebe uma generosa ajuda militar dos Estados Unidos para pôr em prática a sua versão do apartheid e o permanente roubo das terras palestinianas.

As coisas não poderiam estar pior? Um espectro ameaçador paira agora sobre o Médio Oriente. O homem que se tornou o mentiroso de serviço na promoção da invasão do Iraque, que deu a Israel rédea solta para destruir o Líbano, que promoveu o asfixiamento económico da Autoridade Palestiniana após a vitória do Hamas, Tony Blair de seu nome, vai ser agora o representante ocidental para as negociações de paz na região.

Rui Borges

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2020 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.