Francisco Louçã: As piadas a que o governo não acha graça nenhuma criar PDF versão para impressão
03-Jul-2007

francisco_louca.jpgÉ crónico e não é de hoje: em Portugal fazem-se muitas piadas, tanto com questões sérias e dramáticas como, por maioria de razão, com o que tem piada. E é sempre assim, os governos não acham graça. No entanto, é difícil encontrar um governo que, como o actual, deteste tanto as piadas que provoca.

O caso de Vieira do Minho é a prova provada da falta de humor do governo. O ministro não gostou de saber afixada na parede uma fotocópia de uma sua entrevista ao Jornal de Notícias, com o comentário ligeiro - que até lhe dava razão e recomendava aos utentes do serviço que seguissem o seu exemplo. Na verdade, nem foi bem o ministro quem começou por não gostar da sua própria entrevista. Foi um jovem da JS, prometedor político, que fotografou a fotocópia com o seu telemóvel, que deve ter comunicado ao chefe, o chefe levou à distrital, a distrital ao deputado, o deputado ao ministro, e veio a demissão impiedosa, todos concordando que não é admissível que alguém cite o ministro. A começar pelo próprio ministro.

A anedota ou a chalaça de um professor na DREN motivou a sua suspensão - porque alguém comentou à coordenadora que a piada tinha sido dita, e veio a suspensão.

As piadas não são o forte deste governo. As denúncias é que são.

O fechamento social que a atitude anti-piadética implica é grave. É mesmo muito grave. E é grave sobretudo porque ocorre ao mesmo tempo que começam a ser publicadas as listas dos supra-numerários na Função Pública. Os trabalhadores terão medo de ter opinião, e mesmo de ter piada, não só porque as piadas não são bem recebidas mas sobretudo porque há a ameaça de despedimentos.

Despedimento para uns, promoção para outros: em Vieira do Minho, o novo director é um afilhado do PS, um dos seus vereadores, embora "independente". Bastante independente, aliás: o homem é do CDS, já foi deputado municipal do CDS e só entrou na lista do PS porque o seu partido fez um acordo com o PS. Jobs for the boys, sejam os boys do PS ou do CDS. São estas as circunstâncias que fazem a política de um governo que não gosta de piadas. Tem sempre um CDS à mão para nomear. Afinal, uma boa nomeação vale uma boa piada.

Francisco Louçã

 
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