Sexo, escândalos e videos: o Brasil de Lula no início de um segundo mandato criar PDF versão para impressão
07-Jul-2007

lula_ecranEnquanto Lula se reunia, alegremente, na Cimeira de Lisboa com os representantes da União Européia, preocupado em retomar negociações comerciais, o Brasil assistia, enraivecido, aos desdobramentos do último mega-escândalo nacional envolvendo ninguém menos que o presidente do Senado. Enquanto Lula se dedicava a satisfazer o apetite dos usineiros do etanol - promovidos pelo presidente à condição de heróis em recente discurso - que querem um maior acesso das exportações do agro-negócio aos mercados europeus depois do impasse da rodada Doha no quadro da OMC (Organização Mundial do Comércio), a maioria do povo brasileiro assistia, estarrecida, à denúncia de que milhares de mortes por exaustão dos cortadores de cana continuam sendo uma rotina, como nos tempos da escravidão.

Por  Valério Arcary, especial para o Esquerda.net

        O presidente do Senado - a Câmara alta do Congresso Nacional composta de três senadores de cada um dos vinte e sete Estados da Federação, mas, ao contrário dos deputados da Câmara de Representantes, com mandato de oito anos -, Renan Calheiros, um aliado tão estreitamente vinculado ao Governo Lula, desde o primeiro mandato, que conseguiu impedir que o seu partido, o PMDB, lançasse candidato próprio nas últimas eleições presidenciais para facilitar a reeleição de Lula em primeiro turno - que acabou não ocorrendo, sobretudo, porque PSOL e PSTU se uniram em torno a Heloísa Helena e, com a Frente de Esquerda, conseguiram uma expressão política para a reorganização sindical que criou a Conlutas, também, em 2006 - procura resistir às pressões pela sua renúncia, consciente de que esse gesto defensivo poderá abrir o caminho para a cassação do seu mandato de senador.

           A novela que as instituições de Brasília vivem como um drama hemorrágico une os mais variados e saborosos ingredientes. Os episódios pitorescos revelam, publicamente, o modo de vida das autoridades à frente do Estado. Há sexo fora do casamento: Renan Calheiros está sendo processado na Justiça por uma ex-jornalista da Rede Globo de TV com quem manteve um affaire amoroso secreto e uma filha, porque teria interrompido o pagamento de uma pensão mensal não declarada à Receita Federal de R$12.000,00 - algo como US$6.000,00 - que eram entregues, pessoalmente, por um lobista de uma das grandes empreiteiras de obras públicas. Há suspeita de enriquecimento fulminante e inexplicável, porque a defesa do presidente do Senado foi incapaz de explicar - pela venda de rebanhos de gado para corte - como o seu patrimônio teria atingido a espantosa cifra de quase R$2 milhões entre 2002 e 2006. Há suspeita de corrupção pela relação promiscua com a construtora Mendes Júnior que conquistou nesses mesmos anos contratos para obras no Estado de Alagoas. Há abuso de poder porque Renan recusa a renúncia da presidência do Senado, enquanto manipula os outros senadores com ameaças de denúncias como retaliação, e adverte até o Governo com represálias se vier a ser abandonado. Mas, isso não é tudo. Entretanto, acabou de renunciar esta semana outro senador, Joaquim Roriz, recém eleito pelo Distrito Federal, do PMDB, também, envolvido em uma denúncia que envolve o desconto de um cheque de R$2 milhões - algo próximo a US$1 milhão - do pai do presidente de uma das maiores companhias aéreas do país, a Gol.

        Em poucas palavras, depois da crise do mensalão de 2005, da crise da venda de dossiês de 2006, temos agora a crise do Senado. As instituições do regime democrático-liberal estão se desmoralizando umas após as outras: os partidos eleitorais que são financiados ilegalmente pelas grandes corporações e bancos, inclusive o PT; os tribunais que vêem juizes serem processados e, muito eventualmente, presos, quase como rotina, incluindo juízes dos Tribunais Superiores, como na recente operação que atingiu o jogo do bicho no Rio de Janeiro; a própria Polícia Federal que se viu obrigada a investigar vários dos seus superintendentes - os delegados que dirigem todas as operações - em diferentes Estados, alcançando até o número dois, logo abaixo de Paulo Lacerda.

          Mas, por enquanto, o Brasil permanece ainda retardatário em relação às situações revolucionárias que varreram a América Latina nos últimos cinco anos. A compreensão do contexto político-social ainda se explica por uma experiência desigual das massas com o Governo Lula. A paciência nos setores organizados dos trabalhadores e da juventude vem diminuindo, e as lutas populares aumentaram neste início de segundo mandato, mas não ocorreu ainda uma inversão na relação de forças entre as classes. Há, no entanto, sinais de maior disposição de luta. Os controladores de vôo nos aeroportos desafiaram, mais de uma vez, o controle militar da Força Aérea depois do acidente de setembro de 2006 que levou à queda de um Boeing da Gol na Amazônia. No dia 23 de maio, mais de um milhão de trabalhadores responderam ao chamado da Conlutas, da Intersindical e do MST, e paralisaram fábricas, repartições públicas, Universidades e estradas, e saíram às ruas na maior jornada nacional unificada de protestos desde 1998, quando a campanha pelo Fora FHC foi sabotada pela direção do PT, com Zé Dirceu e Lula à cabeça. Na USP, em São Paulo, a ocupação da Reitoria por um novo movimento estudantil conseguiu derrotar o Governo Serra.  A decisão do grupo LG-Philips de fechar a fábrica de televisores em São José dos Campos e transferi-la para a China levou à ocupação dos trabalhadores que a estão operando em auto-gestão.

           O apoio externo dos EUA, da União Européia e do Japão ao governo Lula, que o consideram, com razão, um fator de estabilização social interna e de pressão política externa sobre Caracas, La Paz e Quito, assim como o apoio entusiasmado da burguesia brasileira que exige de seus partidos que colaborem com Lula - favorecido, acidental e involuntariamente, pela conjuntura econômica mundial de aumento de demanda de commodities - ajuda a compreender a força relativa do Governo.

           As últimas eleições, porém, sinalizaram um deslocamento das bases sociais de sustentação do governo do PT. Uma parcela ainda minoritária, contudo, significativa dos trabalhadores de categorias, sindicalmente, mais organizadas se deslocou para o voto na Frente de Esquerda no primeiro turno. Ocorreu, também, um afastamento da classe média. Desesperada pelo avanço da criminalidade, depois que, por exemplo, o PCC (Primeiro Comando da Capital)- que organiza os 150.000 presos do Estado de São Paulo e, pelo menos, mais 150.000 com mandato de prisão que estão em liberdade - demonstrou ser capaz de parar a maior cidade do país, a classe média se sentiu seduzida pela oposição de direita, capitaneada pelo PSDB de FHC, Serra e Alckmin, e impôs o segundo turno. O voto das maiorias despojadas e desorganizadas das regiões mais pobres do país foi suficiente para garantir mais quatro anos para Lula.

           Não obstante, a situação tende a se agravar. Os sinais de turbulência na economia mundial já provocaram uma elevação das taxas de juros básicas do Federal Reserve Board dos Estados Unidos, diminuindo a atratividade dos papéis da dívida brasileira que receberam quase US$ 25 bilhões nos primeiros quatro meses de 2007, e permitiram a valorização do real, a redução da inflação e o barateamento das importações. A crise política no Senado contribui para deslegitimar o discurso do Governo que exige que a população aceite uma nova reforma da Previdência Social - desta vez, para aumentar o limite de idade da aposentadoria para 65 anos. O funcionalismo público tampouco deve aceitar, sem resistência, os dez anos de congelamento salarial e a proibição, na prática, do direito de greve.

            O recente congresso do MST, se não representou uma ruptura com Lula, sinalizou um distanciamento e disposição para ações mais radicais em defesa da Reforma agrária, como a resistência à transposição do rio São Francisco, uma mega-obra pública que promete entregar muitos bilhões às empreiteiras, e que levou um bispo da Igreja à greve de fome em 2005. A Conlutas aprovou um convite à unificação com a Intersindical e um congresso foi convocado para maio de 2008, e há razões para esperar que esta fusão possa acelerar o processo de fortalecimento da vanguarda ativista que deposita esperança na luta independente, e aposte na libertação dos sindicatos do controle da CUT e do governo. Um calendário de lutas foi acertado entre Conlutas, Intersindical e MST - com apoio do PSOL, PSTU, e Consulta Popular - para o segundo semestre, prevendo um plebiscito nacional pela anulação da privatização da Vale do Rio Doce, hoje, uma das maiores mineradoras do mundo, e uma marcha nacional em oposição às contra-reformas reacionárias para outubro. Em uma palavra, os novos humores entre os trabalhadores e a juventude, mais descrentes de Lula, decepcionados com o PT e desconfiados da CUT e da UNE, impulsiona a reorganização do movimento sindical e popular, leva à aproximação do sindicalismo revolucionário do MST, e estimula as lutas que virão. 

Valério Arcary, professor do CEFET/SP, doutor em História pela USP, militante do PSTU, é autor de As esquinas perigosas da história e O encontro da revolução com a história.

 
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