A escolha da Ota como localização preferencial está amplamente documentada criar PDF versão para impressão
11-Jul-2007

aeroporto2017Parece-me incrível a lavagem ao cérebro que anda a ser feita aos portugueses a propósito da Ota e do TGV. Não se trata de calcular estacas ou projectar estruturas , áreas em que alguns dos críticos da Ota poderão ser excelentes; trata-se de gestão do território, de ecologia,  de geoeconomia e de geoestratégia.
Opinião de António Manso

Portugal é um país pequeno, pobre e periférico que sempre tentou sobreviver em oposição ao centralismo castelhano.

Daí ter-se virado para o mar. Dessa aventura resultou um património de afectos, de permutas culturais e económicas, consubstanciado em cerca de trezentos milhões de falantes da língua portuguesa - é neste contexto que Portugal deve procurar uma especificidade que o distinga dos restantes países europeus, evitando que o território português, quando observado de Bruxelas, seja visto como apenas um parte da Ibéria, daquela jangada de pedra de que falava Saramago e que tem, não por acaso, Madrid no centro.

Perdida a centralidade marítima, que fez de Lisboa em determinada altura o primeiro porto do Mundo, Portugal tem conseguido manter na Portela (muito por mérito de Fernando Pinto) um hub ou placa giratória da lusofonia, graças à superior oferta de ligações a África e ao Brasil.

Quem já foi a um país hispânico (e para certos pontos dos Estados Unidos) se utilizou um voo regular, necessitou, com elevado grau de probabilidade, de o fazer via Madrid. Madrid é naturalmente, o principal hub da hispanidade na Europa.

A Espanha não se quer ficar por aqui, agora planeou construir um aeroporto junto à fronteira, em Badajoz, onde não há população que justifique um aeroporto internacional daquela dimensão... É evidente que pretende captar passageiros no território português, uma vez que o principal mérito daquela localização resulta do facto de se encontrar entre Lisboa e Madrid, numa linha por onde os espanhóis sempre têm insistido que passe o TGV. De futuro, a Espanha, se não houver discernimento da nossa parte, irá concentrar no seu território os dois hubs, o da hispanidade e o da lusofonia, conseguindo cada vez mais as massas críticas que nos escapam e que são essenciais para que se possa dispor de ligações frequentes, rápidas, regulares e baratas que projectam os países no exterior e que facilitam a actividade económica. A Espanha não brinca em serviço enquanto nós nos entretemos com intermináveis bizantinices.

A principal ligação do TGV em Portugal, a única que faz sentido do ponto de vista económico, é a ligação Lisboa-Porto (a ligação a Madrid não se processa estritamente em território nacional).

Segundo o censo de 2001, Portugal tinha, à data, 8 197 420 habitantes a Norte do Tejo e 1 635 988 a Sul. O Centro de gravidade populacional encontra-se um pouco a Norte do Entroncamento perto da povoação de Zibreiros. Parece-me óbvio que quanto mais próximo estiver um porto ou aeroporto da população, mais facilitada ficará a actividade económica e as deslocações das pessoas, com diminuição dos custos de encaminhamento terrestres, com diminuição dos custos energéticos e dos decorrentes custos ambientais.

Em Portugal contrariar evidências passa por ser sinónimo de superior inteligência. Por isso há quem procure fazer exactamente o oposto... à semelhança do que foi feito com o Terminal XXI de Sines que se manteve em estado comatoso até começar a ir buscar as mercadorias a Norte do Tejo (gostava de saber se a CP ganha dinheiro com este tráfego e quanto os contribuintes portugueses pagaram para que esse terminal se viesse a tornar no terminal privativo de uma única linha de navegação). Curiosamente, este terminal, bem como o colossal mamarracho que querem colocar em pleno Estuário do Tejo e que dá pelo nome de travessia ferroviária Chelas-Barreiro, não sofrem qualquer contestação.

Se a lógica pura e dura recomenda que o novo aeroporto seja feito a Norte do Tejo, só um conjunto de problemas insanáveis deveria contrariar esse objectivo.

A escolha da Ota como localização preferencial está amplamente documentada, inclusive na net, só não vê que não quiser, só vai recomendar mais estudos quem quiser encher ainda mais a mula a alguns gabinetes de consultadoria que obviamente dizem mal de todos os estudos em que não participam.

Vejamos primeiro a questão da Portela:

Está saturada e tudo o que lá se investir será apenas um paliativo até que exista outro aeroporto. A Portela é uma péssima plataforma logística, é um perigo para a população de Lisboa e constitui uma permanente fonte de agressão no plano ambiental. Do ponto vista da segurança coloca riscos muito sérios, encontrando-se sob a trajectória de aproximação da pista 03 alguns dos alvos mais apetecíveis deste país... Se a Portela não deve ser mantida, obviamente que caem por terra todas as soluções do tipo Portela +1.

Há cidades com mais do que um aeroporto, porquê? Porque precisam.

Na realidade é mais caro operar dois aeroportos do que apenas um (já ouviram falar em economias de escala?), é mais complicado organizar o espaço aéreo com dois aeroportos, e obriga-se os passageiros a andarem de Herodes para Pilatos sempre que os voos de ligação escalam num aeroporto diferente do dos voos principais.

Voltemos à questão da OTA, quais são as críticas principais?

1-Orografia/Segurança

2-Custo

3- Capacidade

4-Ambientais

5-Acessibilidades

Haverá provavelmente outras que ainda estão para ser inventadas uma vez que os críticos da Ota a cada passo tiram mais um coelho da cartola, ainda vão dizer que tem caspa...

1-Nas proximidades da Ota existem elevações com cerca de 600 metros no seu coroamento, porém na Ota funcionou durante décadas uma base aérea, sem que lá se tenha verificado qualquer sinistralidade anormal devida à orografia.

Os aviões da força aérea que lá operaram (gladiators, ju52, mohawk, airacobra, Hurricane, Spitfire, Blenheim, Vampire, Chipmunk e f84g Thunderjet) são autênticas relíquias quando comparados com os aviões actuais e não dispunham de instrumentação nem das ajudas à navegação que o novo aeroporto vai ter. A orientação das pistas vai ser diferente da pista única existente na base aérea, o que descarta ainda mais a possibilidade de ocorrência de acidentes. Se não pode haver elevações perto dos aeroportos então será necessário encerrar a maior parte dos aeroportos do Mundo, incluindo o de Denver, o novo de Hong Kong (que tem uma elevação com cerca de 1000 metros no enfiamento das pistas), St Maarten, seria necessário encerrar o Funchal e assim por diante.

2-Segundo os estudos apresentados, será mais caro construir o aeroporto na Ota do que em Rio Frio ou na Margem Sul, mas o custo de exploração anual será mais baixo. De qualquer forma, o mais importante neste caso não é o custo de construção mas a relação beneficio/custo que na OTA é nitidamente superior.

3-Capacidade. Estimada em 40 milhões de passageiros. Este valor resultou do facto de a cada projecto ter que estar associado um objectivo razoável, não se projecta para um trilião de passageiros...À capacidade do aeroporto da Ota haverá que acrescentar a dos aeroportos Sá Carneiro e de Faro pelo que digamos que mesmo que a capacidade da OTA ficasse circunscrita a esse valor a oferta aeroportuária nacional seria bem superior... Pelos registos de nascimentos e taxas de óbitos é possivel perspectivar quantos seremos daqui a vinte ou trinta anos a menos que se escancarem as portas à imigração não seremos muitos mais do que somos hoje, será que cada português vai fazer 4 voos anuais em média?

Mais de 4 aliás se contarmos com os outros aeroportos atrás citados.

O novo aeroporto de Hong Kong tem uma configuração semelhante ao da Ota, com apenas duas pistas e já no ano passado movimentou mais de 30 milhões de passageiros, estando a sua capacidade estimada em 87 milhões...

Num dos textos que li fala-se que na Margem Sul seria mais fácil colocar um aeroporto com 4 pistas...Meu Deus! Quantos aeroportos há no Mundo com 4 pistas paralelas?

4-Todos os estudos ambientais indicam que a OTA será menos agressiva do ponto de vista ambiental do que o Montijo ou Rio Frio. Para além das questões estritamente ambientais colocam-se as de segurança: Porque é que os críticos da OTA escamoteiam o facto de uma aeronave da Força Aérea se ter despenhado, com morte do piloto, por ter colidido com uma ave quando fazia a aproximação ao Montijo?

5-Acessibilidades. Hoje em dia não faz sentido construir um aeroporto que não esteja servido por um transporte ferroviário de alta capacidade. A Ota encontra-se na Linha Lisboa-Porto garantindo a melhor acessibilidade a estes dois destinos e permitindo que o shuttle ferroviário utilize a infra-estrutura do TGV. A Margem Sul é excêntrica em relação à população e tem custos de acessibilidade muito superiores que se traduzem em centenas de milhões de passageiros.km em cada ano.

Isto não significa desamor pela Margem Sul e em particular pelo Alentejo: sou de opinião de que a não construção do aeroporto a Sul abre novos oportunidades para o Alentejo se se encerrar Alverca e se utiliza o aeroporto de Beja para aí sediar a componente portuguesa da indústria aeroespacial europeia. A Parceria das Ogma com a Embrer (o quarto construtor aeronáutico internacional) abre perspectivas interessantes embora a industria aeroespacial europeia sofra neste momento um período de retracção.

Vamos alterar o paradigma nacional, vamos acabar com alógico do coitadinho atrazadinhos pobrezinhos, vamos deixar de falar do leite das criancinhas a propósito do aeroporto e de outras obras estruturantes, vamos afirmar que merece a pena viver em democracia porque não se demonstra que esta descambe em cacofonia e que só em ditadura, de Pombal ao Estado Novo, passando pelo fontismo, este país conseguiu produzir obra duradoura e estruturante.

Vamos descartar a falsa ciência daqueles que opinam em matérias em que não têm particular competência como aquele lente de Coimbra que perante o telefone e a luz eléctrica convidava os alunos a não acreditarem na voz que vem do fio nem na luz que não vem do pavio... ou o "cientista" que veio à televisão afirmar que a albufeira de Alqueva ia levar trinta anos a encher.

Magister Dixit (o mestre disse, logo é verdade) era o argumento supremo da escolástica medieval, pela nossa parte supúnhamos que Portugal já tivesse saído da Idade Média

 
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Deveria haver um bom motor de busca
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Visito o Esquerda.net 1 a 2 vezes por semana. Leio sobretudo notícias pouco ou nada cobertas pela imprensa corrente, artigos de opinião de alguns nomes que me interessam mais, às vezes os Sons da terra e podcasts sobre eventos do BE ou entrevistas, dependendo do tema.
A minha proposta é para todos os sites do BE: deveria haver um bom motor de busca (o do próprio software é muito débil e induz em erro) que permita pesquisas simples ou mais avançadas (booleanas, palavras adjacentes, por exemplo). O Copernic é um bom motor, freeware e creio que poderá ser usado como add-on neste software. É preciso testar e ver o resultado. À medida que crescer o fundo de notícias, precisamos cada vez mais de explorar a totalidade, retrospectivamente e, idealmente, independentemente do tipo de ficheiro que as suporte (texto, imagem, som). Seria um bom recurso de formação e difusão.

Paula Sequeiros, BE Porto



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