Quarteto em Lisboa, uma peça de mau gosto criar PDF versão para impressão
20-Jul-2007

Miguel PortasJosé Sócrates aproveitou imediatamente para um soundbyte - "temos um antes e um depois" da reunião do Quarteto em Lisboa. (assim costuma ser em tudo na vida, né?) - e um salamaleque a G.W.Bush - "as suas declarações deixam-me muito satisfeito".
Comecemos por aqui. Condoleezza Rice chega a Lisboa com três posições fechadas, inegociáveis.

Primeira: apoio do Quarteto à proposta da casa Branca de uma Conferência de Paz em Setembro ou Outubro, envolvendo Israel, o Presidente da Autoridade Palestiniana e os Estados árabes ditos moderados (Egipto, Jordânia e Arábia Saudita em particular).

Segunda: nenhum estímulo ao diálogo intra-palestiniano e aposta a fundo na Fatah e em Mahmoud Abbas, o presidente. Gaza deve, em consequência, ser abordada do estrito ponto de vista humanitário. A ONU e a UE que paguem o pão de todos os dias.

Terceira: o seu amigo Tony pode ser chamado de "representante especial do Quarteto" para a Terra Prometida, mas o seu papel é "complementar" do de Deus, ou seja, de G.W.Bush. Sobre isto, nada de confusões.
Deve dizer-se que ganhou em toda a linha, como aliás, era de esperar.

Mas o facto de ter levado a sua avante, não significa que a reunião tenha progredido um mílimetro sobre o conflito em causa. Pelo contrário, acentuou todos os principais factores de bloqueio já existentes.

A conferência de Paz

Na óptica da Casa Branca, o conflito israelo/palestiniano é apenas um capítulo da sua visão para o Grande Médio Oriente. Nada do que aí venha a acontecer, deve contrariar um desenho que tem nos teatros de guerra o seu epicentro. São eles que definem a política de alianças: Irão e Síria de um lado; Israel, ocidente e governos árabes "moderados" do outro. Se este esquema não serve para o Iraque, muito menos é útil para o Próximo Oriente. Não há solução sem o envolvimento do conjunto dos países que influenciam as forças no terreno. Uma conferência sem a Síria e o Irão é um gesto de propaganda, não um passo para acordos duráveis.
Não se trata de uma profecia, mas de encarar os problemas práticos. Por exemplo, admitamos como verdadeira a intenção de Condoleezza Rice de oferecer aos palestinianos "uma clara perspectiva de 2 Estados" na Palestina histórica. Tal horizonte - anunciado pelo Quarteto em 2002 e aí fixado para 2008... - envolve, além das fronteiras e da definição de um estatuto para Jerusalém, a questão do direito de retorno dos refugiados. Como se sabe, eles existem em grande número na Síria, o país que, de resto, os trata, comparativamente, menos mal.
A esquerda europeia tem defendido, com a esquerda laica palestiniana, uma conferência internacional de Paz. O Parlamento Europeu aprovou recomendações nesse sentido. Mas essa conferência não é a de Condoleezza. A conferência da senhora é apenas mais uma tentativa - vã, diga-se de passagem - de cristalizar uma santa aliança contra o "eixo do mal".

Tony Blair

Aqui não há novidades. Ele será amigo do imperador, mas este nem sonha em abandonar o comando central a um europeu. A União engoliu. Engole sempre. Tem a noção das suas proporções. A grandiloquência é para os soundbytes, não para a realpolitik.

O principal: que fazer com o Hamas?

É possível lidar com o conflito fazendo de conta que o Hamas não existe? Não é. Todos os projectos de diálogo israelo/palestiniano que finjam poder dispensá-lo, acreditam na sua própria ilusão. Mas, principalmente, são extraordinariamente perigosos.

Eis a profecia norte-americana: se se fizerem chegar dólares, euros e armas bastantes a Mahmoud Abbas, a situação na Cisjordânia melhorará o bastante para que os palestinianos agradeçam a quem lhes dê de comer. Acto contínuo, as eleições compensarão a generosidade. Finalmente, Israel aceitará um road map II, aligeirando os controlos e desafectando uns quantos colonatos selvagens. No fim, os bons ganham e os maus perdem. Gaza fica para o fim da estrada e a comunidade internacional fará com que não morra de fome até lá.

Basta a descrição para se perceber que só pode correr mal. Eleições sem o acordo do Hamas só se farão na Cisjordânia e em condições de elevada violência. O novo parlamento, na melhor das hipóteses, será "regional". Representa, por isso, um passo mais na fractura intra-palestiniana, consumando um golpe de Estado, mesmo que em resposta a uma tomada de poder em Gaza. Com a diferença que esta foi defensiva, e é negociável; a do Presidente é ofensiva e em quadro aberto de conflito.

O poder nascido desse golpe será ainda mais fraco do que o actual. Vai precisar dos ofícios do ocidente para obter um acordo com Israel. Mas quem mexe os cordelinhos é a Casa Branca e por isso ele será ainda pior do que o de Oslo. Acresce que depois de terem alguma comida na barriga, os palestinianos não esquecerão, nem a afronta, nem a vergonha de terem cedido pela fome. A Palestina não se dividirá apenas entre Gaza e Cisjordânia, mas entre "traidores" e "patriotas". Em que estes, para mal dos nossos pecados, serão islamistas.

O menos mau dos cenários desta peça trágica é o do Hamas se dividir entre uma ala política e outra, armada. Esta radicalizará o discurso islamista, aproximando-se das conexões com outros fundamentalismos armados. E será, mais uma vez, impossível de derrotar militarmente. Eis onde leva a cegueira do Quarteto e a cumplicidade europeia com os planos de Washington.

A boa notícia é que o plano tem tão poucas hipóteses de vingar que não teremos de assistir, impotentes, aos seus últimos capítulos.

Miguel Portas (texto publicado no blogue miguelportas.net/blog)

 
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