O Porto em pedaços criar PDF versão para impressão
22-Jul-2006

João Teixeira LopesRui Rio quer concessionar a privados a gestão e programação do Rivoli, Teatro Municipal, e do Pavilhão Rosa Mota. A lógica, implacável, bebe no mais brutal da regressiva utopia liberal: se os privados podem fazê-lo, por que razão há de a administração central ou local tomar conta de equipamentos culturais ou desportivos? A resposta passa-lhes ao lado: trata-se de serviços públicos.

Pelo Rivoli passaram centenas de jovens de bairros sociais, em programas de formação de públicos, milhares de estudantes com bilhetes gratuitos, associações e grupos de artes do espectáculo dos mais experimentais aos mais tradicionais, com a possibilidade de apresentarem os seus repertórios. Mas a lógica de serviço público, fugindo ao populismo fácil, consubstanciava-se, ainda, numa programação de excelência, fortemente internacionalizada e ancorada em parcerias e redes de itinerância. Só assim se respeita a diversidade de expressões, géneros, linguagens. Só assim se captam os excluídos para a familiaridade com os mundos da arte. A cultura é para outra coisa que não o lucro e essa coisa, que é linda, chama-se cidadania. Rio, recém condecorado por Cavaco, odeia a livre força criadora, a originalidade, o pensamento divergente e sem muros. Odeia a possibilidade das pessoas se tornarem autónomas, críticas e independentes das modorras do pensamento único. O ódio aos intelectuais provém do ódio à liberdade. Só com apoio público é que as artes, na sua diversidade, podem subsistir. Sem esse apoio, o Porto transformar-se-á num imenso Parque Mayer ou numa alucinação A La Feria. O mais curioso, neste imenso insulto, é que a autarquia continuará a pagar, à companhia ou empresa a quem concessionar o teatro, os custos de manutenção da infraestrutura. Os mais selváticos liberais não hesitam em usar o Estado quando se trata de suportar as negociatas que lhes apraz urdir...

Infelizmente, nada de muito diferente do que exibiu a Ministra da Cultura ao calcular o preço médio de espectador por cada sessão em diferentes equipamentos e distintas companhias, de maneira a exigir contrapartidas e a condicionar apoios. Tudo se quantifica, mede, troca. Nada é gratuito.

A cultura e a arte existem muito antes das leis do capital. A elas sobreviverão. Estes políticos é que para sempre se reduzem a pó. O tempo ri-se deles. Mas a nós, deste tempo, de aqui e agora, cabe-nos combatê-los, fazendo dessa luta CULTURA.

 
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