Neutralidade protege o mais forte criar PDF versão para impressão
25-Jul-2006

João RomãoArrumei o Público entre os megafones da normalização neo-liberal pouco tempo depois de o Sr. Fernandes ter assumido a direcção do jornal, que se tornaria intransigente defensor do PSD, ainda que salpicado da variedade ideológica editorialmente correcta. Ao longo dos últimos anos surpreendeu-me que tanta gente, muitas vezes poliglota e com suficientes habilidades na navegação virtual, continuasse a ler esse jornal, tendo em conta a quantidade e variedade de informação gratuita disponível na internet. Um destes dias, voltei a comprar um exemplar do Público, com grande cobertura da Guerra no Médio Oriente, mas sempre desde a perspectiva israelita. Depois vim a perceber: o Sr. Fernandes encontrava-se instalado em Telavive, a convite do governo de Israel.

As dúvidas que pudesse haver sobre a participação activa de órgãos de comunicação social em situação de guerra foram dissipadas pela CNN durante a Guerra do Golfo. Na Guerra actual, meticulosamente programada à distância (Donald Rumsfeld esteve ligado a um relatório norte-americano de 1996, para o governo israelita, que apontava o derrube de Saddam Hussein como o caminho para dominar a Síria), o controle da comunicação é mais sofisticado e inclui convites aos directores de "jornais de referência" em todo o Mundo para assistir à Guerra desde a tribuna dos patrocinadores do evento. Quando se olha para o outro lado - o dos árabes - é para assinalar com preocupação a crescente influência do Hezbollah e do fundamentalismo islâmico.

Depois da Faixa de Gaza, o Líbano foi bombardeado pela aviação israelita e está a ser ocupado pelo exército, devidamente coberto pela massiva presença de tropas norte-americanas e inglesas na região e pela ausência de qualquer efectiva reacção internacional. Do lado das centenas de pessoas que já morreram, das centenas de milhar que estão em fuga, das que estão às escuras, sem água, doentes e com as estradas cortadas, só o Hezbollah tem uma resposta efectiva à agressão. É natural que as pessoas se identifiquem com esta organização contra o gigantesco monstro invasor que vai do Sr. Bush ao Sr. Fernandes. A falta de alternativas facilita a escolha e, nesta guerra de forças altamente desiguais, a neutralidade protege o mais forte.

 
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