Porque é que o YouTube recebe o meu voto criar PDF versão para impressão
05-Ago-2007

 

A Revolução não será transmitida na televisão. Será emitida no YouTube. A TV dos povos já se está a transformar num poderoso instrumento político - de comunicação, mensagem e imagem - para as próximas eleições americanas. Testemunho: Os democratas Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards; o republicano Sam Brownback e outros candidatos anunciaram as suas candidaturas à Casa Branca não em entrevistas nos canais de televisão, nem em grandes eventos públicos, mas sim nos seus vídeos pessoais online.
Artigo de Jeff Jarvis, colunista do jornal britânico Guardian, publicado a 29 de Julho de 2007

As vantagens são muitas: os candidatos escolhem os seus cenários - Edwards em frente a uma casa em construção em Nova Orleães; Clinton numa sala que faz lembrar a Sala Oval. Eles controlam a mensagem sem jornalistas inoportunos - Edwards convidou os video-bloggers do site Rocketboom.com para conversar com ele; Brownback, um conservador religioso, invocou Deus e rezou tantas vezes que parecia um sermão; Clinton pode dizer que quer retirar do Iraque da maneira certa, sem ter que explicar qual é. Tornaram-se instantaneamente em cybercool - o Huffington Post fez-me saber que o Rep. Dennis Kucinich usa uma pequena câmara de vídeo para poder gravar mensagens nos corredores do Congresso; e que o democrata Christopher Dodd tem links na sua homepage para os sites MySpace, Facebook e Flickr, o que faz com que mais pareça um jovem estudante que um candidato grisalho. Mas mais importante, estes políticos têm a oportunidade de falar olhos nos olhos com os eleitores.

O vídeo na Internet é um meio que permite escolher - tem de se clicar para ver - e é um meio intimista. Esse é o modo como os candidatos estão a tentar usá-lo, para falar directamente com os eleitores, um de cada vez.

Clinton disse que ia lançar uma conversa informal como se fosse uma campanha, esperando poder visitar todas as salas de estar de família, para tal está a usar a tecnologia para apresentar a próxima novidade, tendo começado as conversas em directo durante a passada semana. É melhor do que beijar crianças.

É claro que este meio também pode ser utilizado para lhes fazer oposição. Quando o anterior governador de Massachusetts, Mitt Romney, se juntou à corrida para a nomeação dos Republicanos, os detractores conservadores recuperaram um vídeo de um debate com o Senador Ted Kennedy, no qual Romney apoiou completamente as posições liberais sobre o aborto e os direitos gays. Eles usaram o YouTube como uma arma poderosa. Então Romney usou o YouTube para reagir. Ele apareceu num podcast feito pelo poderoso blog Instapundit e a campanha gravou a troca e pô-la online, uma história depois retomada pelos principais meios de comunicação.

Mas cuidado com a possibilidade de fazer figura de tolo. Este é também um meio propício ao ridículo. Existe um vídeo hilariante e virulento de John Edwards a preparar-se para uma presença na TV arranjando-se como a Paris Hilton, ao som da música 'I Feel Pretty'. Cada campanha aguarda nervosa o momento embaraçoso que será captado e transmitido através dos telemóveis dos eleitores; um desses momentos que fez um senador perder a sua eleição e com ele a maioria Republicana em 2006. Horas depois de Clinton ter colocado no YouTube o vídeo de anúncio da candidatura já existiam versões parodiadas que tentavam lembrar-nos dos escândalos da administração do seu marido. Eu, também, aqueci o meu Mac e fiz uma mistura comparando e contrastando os vídeos de Clinton e de Brownback, enumerando as questões dela e as referências dele à cultura (leia-se: religião), vida (leia-se: aborto), e família (leia-se: casamentos homossexuais).

E aí reside o verdadeiro poder de eleição do YouTube: os candidatos não serão os únicos a fazer uso deste novo instrumento revolucionário. Os cidadãos também irão. O Pew Internet & American Life Project deram a conhecer uma pesquisa que revelava que grande parte do eleitorado não está apenas a assistir, mas a usar a internet para influenciar a política: nas eleições americanas de 2006, 60 milhões de Americanos - quase metade dos utilizadores de internet - estavam online juntando informação e trocando pontos de vista, disse Pew.

Mais de um terço dos votantes com menos de 36 anos dizem que a internet é a sua fonte principal de notícias políticas - o dobro dos jornais.

Mais significativamente, cerca de 14 milhões de Americanos usam a 'rede ler-escrever', nas palavras de Pew, para 'contribuir para o debate e para a actividade políticos', publicando as suas opiniões online, reenviando ou publicando os comentários de outros, até criando e reenviando áudios e vídeos. Não estão apenas a consumir informação, estão a agir politicamente. E agora que quase metade da América está ligada através de banda larga, aumenta o número dos que preferem ver vídeos da internet a ver TV. Logo a influência do YouTube irá apenas crescer.

Só podemos desejar que diminua a influencia negativa da velha TV com as suas narrativas de combates e de desporto, com as personagens de sucesso e os falhados, com os seus soundbytes simplistas (apesar de, também, vir a existir bastante disso no YouTube), e as suas campanhas comerciais sórdidas (apesar do YouTube, também, vir a ter o seu lixo). Mas é assim, as revoluções levam tempo. E nós estamos apenas a ver o brotar das sementes de uma diante dos nossos olhos.

 
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