A eleição YouTube criar PDF versão para impressão
05-Ago-2007

Os candidatos presidenciais de 2008 querem que se saiba que eles sabem mover-se no YouTube. Hillary Clinton, Barack Obama, John Edwards e Sam Brownback, todos anunciaram as suas candidaturas no site de partilha de vídeos, e uma página oficial hospeda vídeos de dezassete candidatos. Alguns comentadores chamam a isto a eleição YouTube.
Artigo de por Rebecca Tinkelman publicado no jornal norte-americano The Nation a 20 de Junho de 2007

Até agora, parece que toda a gente percebeu os vídeos da rede excepto os candidatos. Ninguém anda a falar do vídeo do discurso de Sam Brownback em Ames, Iowa, mas a maioria de nós já viu o John Edwards a arranjar-se ao som de 'I Feel Pretty' ou a Hillary Clinton a falar para uma audiência atordoada numa paródia de um anúncio antigo aos computadores Mac. John McCain teve um êxito por cantar 'Bomb Iran'. E depois há a Obama girl (Rapariga do Obama). Estes vídeos, pequenos clips que jogam com as preocupações dos espectadores em relação aos candidatos (é Edwards apenas uma cara bonita? Ficará o MacCain demasiado excitado com a guerra? O Obama é mesmo assim tão atraente?), acenderam uma cobertura extensiva dos meios generalistas da comunicação social e ajudaram a cristalizar a imagem pública dos candidatos. Em troca, poucos candidatos publicaram outra coisa que os discursos e comícios, que têm toda a atenção e segurança do C-SPAN.

Mesmo nas raras ocasiões em que a campanha se torna criativa, os resultados são nulos. A campanha de Edwards apostou na sua imagem de sulista ao filmar dois dos seus principais assistentes a tentar, e a falhar, cozinhar a tarte de noz da mãe dele. A 19 de Junho, Clinton anunciou a sua canção de campanha ('You and I' de Celine Dion) num vídeo imitando o último episódio de Os Sopranos. A ideia, presumo, é demonstrar que eles têm sentido de humor, mas não é convincente.

O melhor do grupo é Mitt Romney. Para além das cópias das entrevistas televisivas, o seu site tem vídeos narrados pelo seu filho Tagg, que intercala discursos com citações de apoiantes entusiastas explicando o seu amor pelo candidato. O vídeo prende a atenção do espectador e projecta um entusiasmo contagiante que parece espontâneo.

Mas os candidatos presidenciais americanos não são os primeiros a explorar os vídeos na rede – candidatos na Europa já tinham feito experiências do género.

Na Grã-Bretanha, David Cameron, líder do partido conservador Torie, desenvolveu a WebCameron, um website pessoal que exibe blogs e vídeos. O primeiro vídeo, anunciando o lançamento do site, mostra Cameron na cozinha, a lavar a loiça com os seus filhos enquanto fala para a câmara acerca do seu novo projecto. Vídeos posteriores mostram o líder do partido a visitar cidadãos anónimos – a acompanhar um polícia em South Wales (um vídeo que desaponta por não ter loucas perseguições de carros), agindo como um professor a visitar uma mesquita. Num clip Cameron fala com as pessoas que encontra, faz perguntas sobre os seus problemas, para depois fazer um breve discurso sumariando os assuntos, confrontando o grupo com quem falou, como é que ajudaria a resolver os problemas. A mensagem, claro, é que Cameron – e por conseguinte, o seu partido – se preocupa com o homem 'comum' e é de confiar para solucionar problemas.

WebCameron foi louvado como uma nova táctica política pelos media Britânicos: o Guardian noticiou-o como a 'arma secreta' dos tories. Sentindo-se ameaçado, Tony Blair apressou-se a lançar o Labour: Vision on YouTube, com vídeos dos políticos do seu partido a discursarem.

Nas recentes eleições Francesas, a candidata socialista Ségolène Royal concentrou-se na criação de uma campanha interactiva na rede que daria aos eleitores um poder sem precedentes para influenciarem a maneira como a campanha era gerida.

Enquanto Hillary Clintou levou à cena truques, como convidar os eleitores a visitar o seu site e votar para escolher a sua canção de campanha, Royal foi muito mais longe. A imagem exibida na abertura da sua página oficial é uma fotografia tirada por um apoiante. A página principal do seu site divulga blogues escritos por outros apoiantes, assim como vídeos criados pelos utilizadores, alguns dos quais foram vistos mais de 2 milhões de vezes. Royal até perguntou às pessoas qual devia ser a sua plataforma. “Na verdade, ela abdicou de parte do controlo, quer da mensagem quer da substância, numa medida nunca antes vista num grande líder político”, escreveu Colin Delany na techPresident, um site que escrutina o uso da Internet pelos candidatos.

O facto de Royal não ter ganho as eleições, perdendo para Nicolas Sarkozy não é importante. Ele adoptou uma abordagem diferente aos vídeos na rede, publicando maioritariamente fotografias de comícios e vídeos de campanha, assim como cenas de humor tais como DiscoSarko, que exibia um cartoon de Sarkozy a dançar, desenhado para suavizar a imagem severa do candidato. É difícil dizer qual foi o impacto que as campanhas na rede tiveram na eleição. Sarkozy partia com vantagem nas sondagens, e o crescimento de um partido de extrema-direita sugere que o público francês estava a tornar-se mais favorável a propostas conservadoras. Royal ter abdicado de tanto protagonismo na sua campanha para um constituinte virtual, pode não ter ajudado.

Então com todos estes sites no ar, com todos os artigos e truques publicitários, será que alguns têm ajudado os seus candidatos? Poderão os vídeos de campanha e os sites interactivos iniciar um diálogo entre candidatos e espectadores? Serão as campanhas online eficazes para atrair os eleitores às mesas de voto?

Até os vídeos mais populares dos sites políticos são demasiado fúteis. A publicação mais popular do Labour:Vision é um retrato da comediante Catherine Tate a espreitar Blair no seu gabinete, um vídeo visto mais de 500.000 vezes em três meses. Uma entrevista de Blair sobre as mudanças climática? Apenas teve 1.700 visitas em oito semanas. A campanha de David Cameron não nos diz nada acerca daquilo que o seu partido defende, enquanto que o site ambivalente de Royal sugere que ela não defende nada.

Parte do problema é que a grande maioria das pessoas prefere ver vídeos que sejam divertidos. Os políticos, pelo seu lado, parecem mais dispostos a investir em vídeos que mostrem o seu sentido de humor, do que aqueles que possam ajudar os eleitores a perceber as suas propostas políticas.

Os vídeos na rede é no seu melhor um programa sem guião, nem controlo. Os vídeos são mais eficazes quando acidentalmente focam algo de divertido ou perturbador e depois o manipulam. Mas as campanhas precisam de controlar a mensagem e os vídeos precisam de reforçar consistentemente essa mensagem. As mensagens precisam de guião, orientação e ajuda de conselheiros. Nesta campanha, os estranhos têm usado os vídeos para fazer anúncios de ataque eficientes e baratos, mas parece pouco provável que os vídeos de qualquer candidato tenham grande efeito na decisão dos eleitores.

 
Artigo seguinte >
tit_todosdosiers.png
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.