Dois imigrantes radicais, condenados e executados pelo Estado criar PDF versão para impressão
07-Ago-2007

Manifestação em Londres pela libertação de Sacco e Vanzetti"Eu queria um tecto para todas as famílias, pão para todas as bocas, educação para todos os corações, luz para todos os intelectos. Estou convencido que a história humana ainda não começou - que nos encontramos no último período da pré-história. Vejo com os olhos da minha alma como no céu se difundem os raios do novo milénio."
Bartolomeo Vanzetti
A execução dos imigrantes italianos e revolucionários Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti deu-se há 80 anos, em Agosto. Um novo documentário, "Sacco and Vanzetti", oferece um retrato profundo de um caso que ainda impressiona as pessoas que lutam pela justiça hoje.
Artigo de Marlene Martin[*] publicado em counterpunch

Sacco e Vanzetti nasceram e cresceram em vilas remotas, na Itália. Conheceram-se quando emigraram para os Estado Unidos, em 1908. Sacco encontrou trabalho numa fábrica de sapatos e Vanzetti era um vendedor ambulante de peixe.

Eram tempos de perseguição política contra imigrantes e radicais. Os imigrantes faziam os trabalhos piores e mais perigosos, em condições de opressão sufocante e de desigualdade.

No tempo do Medo Vermelho de 1919-1920, a repressão era extrema. Milhares de imigrantes eram levados e deportados sem julgamento e sem serem ouvidos. O historiador Howard Zinn, que é entrevistado no documentário, fala sobre cerca de 500 imigrantes que foram acorrentados e levados pelas ruas de Boston, e depois deportados.

Como muitos outros, Sacco e Vanzetti sentiram-se atraídos pela política anarquista, não só porque viam a necessidade de avançar e de melhorar as condições de vida da classe trabalhadora, mas também porque sentiam que era preciso haver uma mudança estrutural da sociedade.

"Muitas pessoas concordaram com a filosofia do anarquismo", diz Zinn. "Acreditavam que os recursos económicos da sociedade deviam ser propriedade colectiva e distribuídos de uma forma igualitária para que todos pudessem ter um emprego e satisfazer as necessidades da vida. Opunham-se ao governo e ao Estado. Achavam que o estado era opressor e estava do lado dos ricos."

Em Abril de 1920, ocorreram um roubo e um homicídio em Braintree, Massachusetts. Os homens armados roubaram mais de 15 mil dólares e atiraram sobre o encarregado dos salários e o guarda, enquanto fugiam pela rua principal da vila, levando o dinheiro destinado aos salários de uma fábrica.

A polícia prendeu Sacco e Vanzetti num eléctrico, numa noite três semanas depois. A nenhum dos dois foi dito porque os prendiam. Ambos estavam armados, embora isso não fosse anormal, nesse tempo.

A polícia perguntou se os dois eram anarquistas, e tanto Sacco como Vanzetti mentiram, temendo que fosse esse o motivo da prisão. Apenas alguns meses antes, um anarquista tinha sido preso e interrogado durante oito semanas, nos escritórios do FBI em Boston, sobre um atentado à bomba recente - antes de "saltar" para a sua morte, do 14º andar. Depois deste incidente trágico, os radicais espalharam a mensagem de não dar nas vistas e esconder provas incriminatórias.

O caso contra os dois era frágil. Portanto, a acusação tentou antes de mais garantir uma sentença contra Vanzetti, num outro caso de roubo que remontava a 1919.

Vanzetti tinha um álibi sólido - mais de uma dúzia de pessoas testemunharam que lhe tinham comprado enguias no dia do roubo de 1919. Outro homem testemunhou que tinha vendido ao lado de Vanzetti durante o dia inteiro. Mas, por causa da histeria anti-imigrante, a acusação lançou, facilmente, dúvidas sobre as declarações das testemunhas que falavam italiano.

Vanzetti foi condenado por este crime antigo, o que tornou muito mais fácil a tarefa de construir um caso relacionado com South Braintree contra os dois homens.

A sala de tribunal estava contaminada com uma atmosfera descaradamente patriótica e anti-imigrante. Todos os dias, o presidente dos jurados chegava e saudava a bandeira. O juiz, Webster Thayer, deixou claro o seu preconceito. "Este homem [Vanzetti], apesar de talvez não ter cometido realmente o crime que lhe é atribuído, é todavia culpado", disse Thayer ao júri no início, "porque é o inimigo das nossas instituições."

Durante uma ocasião em que Sacco podia dar o seu testemunho, um advogado da acusação intimidou-o para que respondesse se tinha "fugido" para o México em vez de combater na I Guerra Mundial:

Pergunta: Disse ontem que amava um país livre?

Resposta: Sim senhor.

Pergunta: Amava este país no mês de Maio de 1917?

Resposta: Eu não disse - não quero dizer que não amava este país.

Pergunta: Amava este país no mês de Maio de 1917?

Resposta: Se pudesse, senhor Katzmann, se me deixar - posso explicar - 

Pergunta: Compreende a pergunta?

Resposta: Sim.

Pergunta: Então, faz o favor de responder?

Resposta: Não posso responder numa palavra, senhor Katzmann.

Pergunta: Não pode dizer a este júri se amava o país ou não?

Resposta: Posso explicar isso, sim, se amava.

Pergunta: O quê?

Resposta: Posso explicar isso, sim, se amava, se me desse uma hipótese.

Pergunta: Peço-lhe que responda a esta pergunta. Amava estes Estados Unidos da América em Maio de 1917?

Resposta: Não consigo responder numa palavra.

A intimidação continuou por muito tempo: " E foi para mostrar o seu amor pelos Estados Unidos da América, quando estes estavam prestes a chamá-lo para ser um soldado, que fugiu para o México?" e "A sua ideia de amor pela sua esposa seria que ia fugir dela quando ela precisasse de si?".

O que tinha isto a ver com o roubo em Braintree e o homicídio do encarregado e do guarda, pode perguntar-se? E, no entanto, Thayer permitiu este interrogatório, e até o manteve, sob apelo. "O julgamento foi completamente justo", relatou o "New York Times" depois da sentença, "Em resumo, todos os direitos dos arguidos foram assegurados."

O julgamento de Sacco e Vanzetti durou sete semanas, mas em poucas horas o júri declarou os dois homens culpados e eles foram sentenciados à morte por electrocussão.

O historiador Michael Todd destaca uma pesquisa dos anos 70 que descobriu que a acusação soube desde o início que a arma de Vanzetti não podia ter sido utilizada no crime de Braintree.

Mesmo no tempo de Sacco e Vanzetti, surgiram provas que os deviam ter inocentado imediatamente. Celestino Madeiros, do gang Morelli, admitiu ter cometido o crime e deu detalhes que suportaram esta declaração. Mas os tribunais decidiram que a confissão de Madeiros era "duvidosa".

A historiadora Mary Anne lembra Fred Moore, o advogado principal da defesa de Sacco e Vanzetti, que disse que "um italiano acusado de homicídio em Massachusetts tem tantas hipóteses de ter um julgamento justo como um homem negro acusado de violação no Sul."

Ambos os homens compreendiam o que enfrentavam e tinham poucas esperanças em obter a justiça dos tribunais. Infelizmente, estavam certos.

Como disse Vanzetti numa sala do tribunal, antes de Thayer ler a sentença, "Estou a sofrer porque sou um radical, e de facto sou um radical; sofri porque sou italiano, e de facto sou italiano; sofri mais pela minha família e pelos que amo do que por mim; mas estou tão convencido do que está certo que... se me executassem duas vezes, e se eu renascesse outras duas, viveria de novo para fazer o que já fiz."

Apesar de um enorme protesto mundial que juntou milhões de pessoas, Sacco e Vanzetti foram executados pelo estado a 23 de Agosto de 1927. Houve protestos em todo o mundo - em Londres, paris, Genebra, Berlim, Varsóvia, Buenos Aires, Cidade do México, Roma, Moscovo, Barcelona, Milão, Havana, Tóquio e Lisboa - e também em muitos locais dos EUA.

"Sacco e Vanzetti" não aprofunda o tema da luta que foi organizada para tentar salvar estes homens - e, numa desconsideração desnecessária, destaca que um comunista disse uma vez que Sacco e Vanzetti serviriam melhor o movimento se fossem executados. Não era este, certamente, o sentimento do movimento como um todo, e reduz a sua verdadeira essência.

Porém, vale bem a pena ver este documentário. Ilustra um exemplo particularmente doloroso e que enfurece sobre o que fez o governo dos EUA para condenar pessoas com crenças radicais.

E, para não pensarmos que este é apenas um capítulo sombrio dos livros de História, o filme acaba com clips dos detidos na Baía de Guantanamo, acorrentados e levados a andar à volta do campo. Compreendido.


[*] Marlene Martin é a directora americana da Campanha pela Abolição da Pena de Morte. Campaign to End the Death Penalty

 
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