Política e Amnésia criar PDF versão para impressão
29-Jul-2006

jose_manuelpureza.jpgA memória pode ser um tormento, uma obsessão. Mas a desmemória é sempre um vazio insuportável.
Em “Palombella Rossa”, Nanni Moretti filmou de modo genial um militante comunista que perde subitamente a memória devido a um acidente de automóvel. É a angústia de um militante que sabe que tem causas mas não se lembra porquê. É a angústia de um homem que perdeu os fundamentos da sua acção. E essa é a condição a que a política mediática hoje nos reduz.

A política mediática é o reino da desmemória. Nada tem origens e muito menos origens complexas. Tudo é simples, a preto e branco, e esgota-se em dois dias de prime time televisivo. É a política soundbyte, onde o fait divers vale incomensuravelmente mais que a substância da argumentação. É a agressão sem fim à Palestina reduzida à “resposta” ao rapto rocambolesco de um soldado israelita. É o pântano genocida no Darfur empacotado no choque de civilizações. É a invisibilidade do debate sobre os lucros da banca explicada pelo “maior interesse” das precedências no protocolo de Estado ou do código de indumentária de Alberto João Jardim. Quando a História se serve como um amontoado informe de flashes sem sentido, a explicação mais fácil e a argumentação mais preguiçosa são as que valem. E o resto é tido por fundamentalismo ideológico.
Aqui o fascismo nunca existiu a não ser nos cinco episódios do tele-filme. E a Revolução também não (afinal de contas, Abril é evolução, é ou não?). Na António Maria Cardoso nunca houve lugar de tortura e de morte. Na Boa Hora nunca houve tribunal plenário (o que é isso, ahn?). O Quartel de Beja é um quartel tão feio como os outros e a Sala 17 de Abril das Matemáticas de Coimbra é isso mesmo, uma sala de aulas e pronto. E, neste aperto das finanças públicas, se houver um benemérito que os queira comprar para os valorizar (com condomínios de luxo, studio residences com “amplos espaços verdes” e tal), a gente agradece. 
Não apaguem a memória. Não nos submetam a uma lobotomia colectiva que elimina selectivamente referências e critérios de juízo. Temos, tem quem vier, o direito de recordar (do latim, re-cordis: voltar a passar pelo coração). Por isso, a petição entregue na Assembleia da República que exprime a nossa indignação pelo crime contra a memória que é o condomínio fechado na PIDE de Lisboa ou a ruína do Aljube pede pouco. Não pede mais do que é perfeitamente normal: os roteiros de memória e resistência em França, na Holanda, na Alemanha ou nos Estados Unidos. Mas, com isso, pede afinal muito: que o Estado cumpra a sua parte de responsabilidades para que a educação para a cidadania democrática deixe de ser apenas um bordão retórico.
Em nome de uma política feita de escolhas claras, agora e para a frente, não apaguem a memória!
 
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