Musharraf conseguirá sobreviver? criar PDF versão para impressão
15-Ago-2007
immanuel_wallerstein.jpgPobre Pervez Musharraf! Não é muito popular e vive sob pressão de quase toda gente. Apesar disso, trabalha para manter o seu equilíbrio, e o seu poder, sentado em cima de um vulcão fumegante. A verdade é que se saiu melhor do que se poderia prever.

Para começar a história pelo início, temos de recordar as origens do estado do Paquistão. O principal movimento nacionalista na Índia colonial era o Congresso Nacional Indiano, dirigido por Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru. Mohammed Ali Jinnah, um advogado laico de origem muçulmana, era membro activo do movimento. Mas começou a sentir cada vez mais que os muçulmanos como grupo (poder-se-ia dizer como grupo étnico) eram relegados a uma cidadania de segunda classe. Aderiu à Liga Muçulmana, um movimento que buscava a autonomia/independência para uma região "muçulmana". Em 1934, Jinnah tornou-se o seu presidente, e, nas negociações finais com o Reino Unido para a independência da Índia, conseguiu obter um estatuto independente e separado para o Paquistão.

Em 14 de Agosto de 1947, quando o Paquistão se tornou um Estado independente, consistia nalgumas províncias no noroeste da Índia colonial e uma província bengali no nordeste, bastante distante do sector ocidental. Em 11 de Agosto desse ano, Jinnah fez um discurso inaugural diante do que estava para se tornar o corpo legislativo do Paquistão, apelando a uma "democracia inclusiva e pluralista", que garantiria direitos iguais para todos os seus cidadãos de qualquer religião ou grupo étnico. A Liga Muçulmana não só era essencialmente um movimento nacionalista laico e moderno, como as forças armadas que iria estabelecer recrutaram o seu efectivo das velhas forças militares britânicas da Índia, e o seu corpo de oficiais era igualmente, na sua maioria, laico.

Como sabemos, a independência da Índia e do Paquistão deu imediatamente origem a uma terrível violência entre grupos e, entre outras coisas, numa luta pelo controlo da Cashemira. O desfecho dessa luta foi não só uma partição de facto (e contestada até hoje) da Cashemira, como também a transferência de populações, de tal forma que o Paquistão passou a ter uma esmagadora maioria muçulmana. Em 2007, a sua população é de 165 milhões, o que torna o Paquistão o sexto estado mais populoso do mundo, e um dos que têm crescimento demográfico mais alto. A sua população hoje é 97% muçulmana, da qual 20% xiita.

A história política do Paquistão tem sido muito tumultuosa. As suas relações com o seu principal vizinho, a Índia, sempre foram ténues e conflitivas. A parte oriental do Paquistão separou-se em 1971, com o encorajamento da Índia, para se tornar o estado do Bangladesh. O primeiro golpe militar ocorreu em 1958. O regime civil, sob uma partido maioritariamente laico e urbano, dirigido por Zulfikar Ali Bhutto, foi restaurado em 1972, apenas para ser derrubado de novo cinco anos mais tarde. O golpe foi dirigido pelo general Zia ul-Haq, que era um devoto muçulmano e instalou a sharia como a lei do país. Também mudou o nome do país para República Islâmica do Paquistão. O regime civil foi restaurado anos depois sob a égide da filha de Bhutto, Benazir Bhutto, que depois cedeu o lugar a Nawaz Sharif. Em 1999, Sharif tentou prender o seu chefe de Estado-Maior, um tal general Pervez Musharraf, que conseguiu, em vez de ser preso, prender Sharif e subir ele próprio à chefia do governo. Foi proclamado presidente em 2001, e eleito para esse cargo em 2002.

Para dar sentido a estas idas e vindas temos de identificar os principais actores políticos dentro do Paquistão e as suas alianças geopolíticas. Para começar por estas últimas, a principal preocupação do Paquistão sempre foi a Índia, e, por isso, sempre procurou, logicamente, o apoio de dois estados que mantinham reservas nas suas relações com a Índia durante a Guerra Fria: os Estados Unidos e a China. Estes dois estados consideravam a política externa da Índia demasiado próxima da União Soviética. As tensões militares entre a Índia e o Paquistão levaram os dois países a rejeitar o tratado de não-proliferação e a desenvolver armas nucleares, provocando grande contrariedade dos Estados Unidos.

Internamente, a situação de 2007 é muito diferente da de 1947. O islamismo, como força política, tornou-se extremamente forte e permeia grandes sectores das forças armadas. Os islamistas estão descontentes com as ligações do Paquistão aos Estados Unidos, especialmente nos últimos cinco anos. As forças urbanas, laicas, gostariam de forçar a saída de Musharraf (assim como das forças armadas) do poder político e mostraram recentemente a sua força ao apoiar o chefe do Supremo Tribunal que Musharraf tentara afastar. As forças armadas, tal como os islamistas, não querem verdadeiramente ceder o seu papel aos elementos jihadistas como a al-Qaeda, e por isso tentam cumprir o papel de ponte - apaziguando mas tentando conter as forças jihadistas.

Quando os Estados Unidos apoiavam os jihadistas no Afeganistão nos anos 80, o seu principal aliado era o Paquistão, e em particular as unidades de informações das forças armadas, a ISI. Nos anos 90, a ISI ajudou os taliban a chegar ao poder no Afeganistão. Assim, a ISI ficou bastante descontente quando os Estados Unidos derrubaram os taliban e não tem sido muito cooperante em relação ao Afeganistão, algo que merece queixas, até hoje, do actual presidente do Afeganistão, Hamid Karzai.

Parece bastante claro que, quando Osama bin Laden desencadeou o ataque contra os Estados Unidos em 11 de Setembro de 2001, um dos seus maiores objectivos, se não o principal, era derrubar os regimes do Paquistão e da Arábia Saudita. Isto porquê e como? Bin Laden considerava que os regimes de ambos os países estavam demasiado acomodados aos Estados Unidos, por trás da sua linguagem ambígua sobre o islamismo. Ele esperava que os Estados Unidos pusessem sob pressão o regime de Musharraf para que combatesse totalmente as suas crias islamistas. A teoria de Bin Laden era que, se o fizesse, o regime de Musharraf cairia.

Musharraf resistiu a esta pressão (tal como a Arábia Saudita), concordando com Bin Laden de que seria politicamente suicida fazer o que os Estados Unidos queriam que fizesse. Por outro lado, tinha de manter relativamente satisfeitos os Estados Unidos, para que o Paquistão não perdesse o seu crucial apoio militar e político. Assim, de vez em quando, atirava um osso aos Estados Unidos, como no caso do recente assalto à Mesquita Vermelha, uma fortaleza dos islamistas. Mas é suficientemente cauteloso para não ir mais além.

E é esta contradição que nos traz à situação actual. Os jihadistas estão bem instalados nas chamadas áreas de fronteira (que sempre foram, de facto, autónomas) e Musharraf não se atreve a combatê-los efectivamente. Os jihadistas denunciam Musharraf por ser demasiado pró-americano. Os Estados Unidos, por outro lado, consideram-no demasiado acomodado aos jihadistas. Os Estados Unidos continuam a resmungar acerca de acção directa. Mas não podem virar-se inteiramente contra Musharraf, para que este não seja sucedido por um regime ainda pior. Entretanto, as classes urbanas laicas estão a pressionar um Musharraf enfraquecido para que saia e abra o caminho a um verdadeiro regime civil.

O apoio-chave de Musharraf, na verdade o único, continuam a ser as forças armadas. Mas enquanto as guerras no Afeganistão e no Iraque continuarem, a força política dos islamistas continua a crescer. E o Paquistão tem muitas armas nucleares. Se os islamistas chegassem ao poder, este facto colocaria uma ameaça geopolítica real para os Estados Unidos, diferente da ameaça inventada de Saddam Hussein.

Immanuel Wallerstein, 1/8/2007

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.