Sócrates e Mariano Gago: A infinita Generosidade criar PDF versão para impressão
27-Ago-2007
lucas_manarte.jpgO ministro Mariano Gago deu uma entrevista no telejornal para defender a sua última medida: os empréstimos aos estudantes. Começo por esclarecer que não sou contra os empréstimos aos estudantes, os bancos são "livres" de ter os empréstimos que quiserem, e de criarem os "produtos" que bem entenderem.
Mas o ministro disse que o "spread" seria mais baixo, graças ao fundo do Estado que permite reduzir o risco, e que isso era uma generosidade dos contribuintes, daí que os estudantes tivessem que se esforçar, pois toda a sociedade os está a ajudar.


Pois é, o ministro Mariano Gago até teria legitimidade para falar assim se os estudos universitários fossem gratuitos e universais. Aí sim, seria um investimento da sociedade nos alunos. Mas, precisamente no momento em que se criam as condições para serem os próprios estudantes a pagar todos os seus custos de vida, e a ficarem endividados logo no início da vida activa, o ministro vem falar em grande generosidade da sociedade. Até parece que ele, ministro, pagou todos os seus próprios estudos...dá vontade de lhe exigir o dinheiro de volta com rectro-activos...

O que vai acontecer é que os alunos e alunas vão começar as suas vidas com um encargo financeiro, sem garantias de poderem pagar, pois como se sabe o desemprego é elevado, 20% nos jovens entre os 20 e os 30 anos.

E para que serve um empréstimo, se depois tem de ser pago no número de anos que o curso dura? Se for um curso de 3 anos tem que ser pago em 3 anos...mais os juros....Então mais valia ter ganho o dinheiro durante aqueles três anos de curso, trabalhando e estudando ao mesmo tempo.

Ainda por cima, um aluno que chumbe num ano deixa de ter direito ao empréstimo...o que significa que fica "apeado" do ensino superior porque perdeu capacidade económica para lá estar e sai sem licenciatura nem mestrado com uma dívida para pagar...que rico futuro o desse cidadão . E que rico exemplo de solidariedade que isto representa.

Nem quero imaginar o ambiente nas faculdades em que haja mais estudantes neste tipo de esquema: é o que se chama a verdadeira violência capitalista.

O ministro veio também garantir que não haverá aumentos de propinas durante esta legislatura: isso significa que vai haver na próxima? Ou Mariano Gago é capaz de se distanciar da palavras de Vital Moreira, quando este diz no seu blog " A Causa Nossa": "Com este novo instrumento criam-se também condições para, a prazo, ser equacionada (como desde há muito defendo) a elevação do montante das propinas (sem prejuízo das isenções devidas), de modo a reforçar o nível de recursos e de auto-suficiência financeira das universidades e politécnicos."

Disse também que há aumentos nas bolsas aos alunos, mas continuo sem compreender, até como ex-bolseiro, porque continuam as faculdades a pagar bolsas para depois exigirem o pagamento de propinas a esses estudantes. Dão com uma mão, tiram com a outra. Afinal andamos só a passear o dinheiro pelos bancos. Não seria mais barato isentar deste pagamento os estudantes cujas bolsas são iguais às propinas e evitar este círculo patético de toma lá dá cá?

Mas o momento alto e enternecedor foi a resposta do ministro à pergunta da jornalista Cecília Carmo: "O que ganha a banca com isto? Ao que Mariano gago respondeu: "Ganha uma sociedade melhor, mais qualificada".
Esse foi o momento mais hilariante, a banca...interessada numa sociedade melhor?...E é isso que a motiva a entrar neste negócio? Francamente, o ministro sabe o que faz, não precisa de nos contar a história da carochinha, já basta sermos roubados em milhões nos impostos que a banca não paga, e que dariam para pagar todo o ensino superior, para ainda por cima termos de ouvir, com cara de santo, um ministro a contar fábulas...

Quanto mais estudantes enveredarem por este mecanismo mais o ensino superior ficará dependente dos bancos, pois quem financia é que manda, o que significa mais um sector da sociedade nas mãos do sector financeiro.

Há também que ter em conta outros efeitos desta medida, pois a maior parte das pessoas sabe o que a vida custa, sabe fazer contas, não devemos achar que os outros são estúpidos. Se menos pessoas têm filhos por alguma razão é, daí a minha pergunta: De que vale ter políticas de natalidade assim? Se quem vai ter filhos começa logo endividado?

Se a política do governo é apenas e somente retirar os custos ao estado, porque não se voltam a criar horários nocturnos, que permitem equilibrar os estudos com o trabalho, o que permitiu já a muita gente estudar, incluindo ex-ministros do PS, em vez de criar subterfúgios que adiam o problema ?

Em resumo, e olhando todos estes desenvolvimentos com mais distância, podemos formar o puzzle, e ver a teia que se vai tecendo:

Primeiro vem Bolonha para que os dois últimos anos não sejam licenciatura, o que "iliba" o estado de garantir uma comparticipação no custo desse nível de formação, pois passa a haver mestrados a custos "livres".

Depois cria-se a possibilidade de financiamentos bancários a pagar pelos estudantes, afinal são eles os grandes "beneficiados", ao mesmo tempo que se muda o regime jurídico das universidades, passando estas a ser fundações de direito privado. Nas ditas fundações, mandará o conselho de administração, com nomeações da sacro-santa "sociedade civil", na qual os bancos e outras instituições de "elevado prestígio" poderão escolher os seus representantes, naquele que é considerado um dos últimos bastiões dos valores de Abril.

No final, a banca ganha, o estado garante, a sociedade obedece.

Lucas Manarte 

 
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