Aquele que morreu interpela-nos - tributo a Eduardo Prado Coelho criar PDF versão para impressão
30-Ago-2007

João Teixeira LopesA morte dos outros liberta-nos um pouco do sectarismo íntimo. Ao saber que Eduardo Prado Coelho morrera procurei, de imediato, os meus recortes de imprensa. E admirei-me por serem tantos e tão diversificados, no conjunto, desses recortes, os textos por ele assinados. Qualquer texto liberta-se do autor no momento em que é terminado, editado e publicado. Mas estes permanecem-lhe estranhamente ligados, como se o autor respirasse através deles e continuasse a interpelar-nos. Há um estilo muito próprio, inconfundível, entre o erudito e o coloquial, por onde perpassa, amiúde, um tom de provocação, mas também singelas incursões no quotidiano.

Releio e confirmo algumas profundas divergências, tanto nas tomadas de posição políticas como nos juízos estéticos. Aqui e ali desagrada-me alguma vertigem pós-moderna; todavia, mais adiante, ressurge, insurgente, a tradição do pensamento crítico e um olhar actualizadíssimo sobre certas temáticas da contemporaneidade, em particular as que dizem respeito aos velhos e novos mecanismos de simbolização e de produção de sentido. Mas folheio também as pequenas crónicas e emociono-me, de novo, quando fala do seu espanto ao descobrir, no espelho embaciado de um quarto de Paris, palavras de amor que ressurgem, quase que por magia, sempre que o vidro fica turvo - uma espécie de frágil gravura que consegue, ainda assim, resistir ao tempo.

Mantive com EPC agudo azedume na troca de palavras, quando fui programador de «Porto, Capital Europeia da Cultura» e combati, então, as intrusões e tentações de «Príncipe» do então Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho. Mas, logo a seguir, dialogávamos já sobre políticas culturais e foi decisivo o seu contributo para que eu tentasse arrancar, em trabalhos académicos, a tralha populista e voluntarista agarrada ainda ao conceito de democracia cultural, associando, em tensão permanente, a preocupação e a exigência de padrões de qualidade com o respeito antropológico pela dignidade e relatividade de todos os saberes.

Tenho à minha frente uma citação que EPC resgatara a Agustina Bessa-Luís, num dos seus artigos: "Eles haviam de envelhecer e morrer e nada tinham acrescentado à beleza do mundo". Não foi esse o caso de Eduardo Prado Coelho.

 
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