Esmagar o Capitalismo, por Barbara Ehrenreich criar PDF versão para impressão
16-Set-2007
Barbara EhrenreichAlgures nos Hamptons um membro da alta sociedade insulta a empregada de limpeza e ergue os punhos para os jardineiros. Os americanos pobres, geralmente cautelosos o suficiente para se manterem invisíveis para a classe multimilionária, saltaram de repente para o centro da acção e começaram a esmagar o sistema financeiro global. Por incrível que pareça, este pode ser o primeiro caso na história em que os explorados conseguem deitar abaixo um sistema económico injusto, sem passarem pela trabalheira de uma revolução.
Artigo de Barbara Ehrenreich 1, publicado em The Nation
em 20 de Agosto de 2007

Primeiro deixaram de pagar as hipotecas, atitude seguida depois por muita gente da apertada classe média, apesar de os pobres terem sem dúvida tomado a dianteira. Tudo bem, eram hipotecas matreiras, muitas delas feitas de forma a já não serem sustentáveis logo dois anos após a assinatura do contrato. Havia créditos "NINJA", por exemplo, concedidos às pessoas "sem salário, sem emprego nem activos" (em inglês, No Income, No Job or Assets - NINJA). O colunista conservador Niall Fergusen lamenta os baixos níveis de "literacia económica", que permitiram que as pessoas fossem exploradas por empréstimos de alto risco [NT: por já não terem solvabilidade que permita a concessão um empréstimo bancário]. Por que é que estas pessoas de baixos rendimentos não arranjam advogados para analisar os contratos? E já agora, por que é que não têm consultores financeiros?

Depois, numa reacção de esperteza diabólica, os pobres - uma categoria que agora coincide vagamente com a classe trabalhadora - pararam de fazer compras. Quer a Wal-Mart, quer a Home Depot anunciaram performances desanimadoras no segundo trimestre, arrastando o mercado para outro arrefecimento ao estilo do Árctico. H. Lee Scott, CEO do império Wal-Mart dos baixos salários, admitiu com uma sensibilidade admirável que "não é segredo que muitos clientes ficam sem dinheiro ao fim do mês".

Quem me dera poder dizer que este ataque ao capitalismo representa uma estratégia deliberada por parte dos pobres, que houve reuniões secretas em refeitórios e parques de estacionamento por todo o país, onde os chefes de cada célula davam instruções como "Tu, Vinny, não pagas a hipoteca este mês. Tu, Carolina, esquece as compras do regresso às aulas, ok?" Mas todas as provas sugerem que esta crise é algo que os membros da alta sociedade fizeram cair sobre si próprios.

Quando, por exemplo, o maior empregador privado americano, a Wal-Mart, começa a sentir falta de clientes, precisa de se olhar longa e duramente ao espelho. Há cerca de um século, Henry Ford percebeu que a sua empresa só prosperaria se os seus trabalhadores ganhassem o suficiente para comprar um Ford. A Wal-Mart, por outro lado, parece nunca ter percebido que os seus salários cruelmente baixos iriam cercear o seu próprio crescimento, mesmo com os famosos preços de desconto da empresa.

A triste verdade é que as pessoas com salários ao nível Wal-Mart tendem a preferir as tendências da moda disponíveis no Exército de Salvação. Não lhes são sequer muito úteis outros departamentos, tais como a Electrónica, Jardinagem ou Farmácia.

Mas a situação consegue piorar. Enquanto a alta sociedade, nela se incluindo H. Lee Scott, com uma mão espremia os salários dos trabalhadores, com a outra oferecia-lhes tentadoras propostas de crédito. De facto, o crédito fácil tornou-se o substituto dos salários decentes na América. Já houve tempos em que se trabalhava pelo dinheiro, agora era suposto pagar-se por ele. Já foi suposto ganhar-se o suficiente para se poder comprar uma casa com as poupanças. Agora nunca se ganhará assim tanto, mas como diziam os emprestadores - eh eh - nós temos um crédito para si!

Empréstimos de curta duração [com juros de 300% a 900% ao ano], leasings sobre a mobília, e juros exorbitantes sobre os cartões de crédito foram só o começo. A 21 de Maio, num artigo de capa intitulado "O Negócio da Pobreza", a Business Week documentava a corrida, só nos últimos anos, à oferta de empréstimos a pessoas que pelo menos pudessem pagar os juros: Compre a sua casa de sonho! Financiamos toda a gente! De certa forma, ninguém se preocupava em descobrir como é que os pobres iriam buscar dinheiro para pagar todo o dinheiro que lhes estavam a oferecer.

Pessoalmente, prefiro que as minhas revoluções sejam um pouco mais proactivas. Tem de haver manifestações e comícios, faixas e ocupações, e um fundo colorido agradável, como o vermelho ou o laranja. Obviamente que tem de existir já uma visão do que escolher para substituir o velho e mau sistema: uma democracia ao estilo europeu?, socialismo ao estilo sul americano?, e que tal o capitalismo americano, mas já com alguma regulação?

O capitalismo global vai sobreviver à actual crise do crédito; o governo apressou-se já a acalmar os mercados agitados. Mas, a longo prazo, um sistema que dependa de extorquir os pobres até ao último cêntimo não pode esperar um prognóstico saudável. Quem poderia imaginar que as penhoras e execuções em Stockton e Cleveland iriam turvar os mercados de Londres e Xangai? Os pobres levantaram-se e falaram; só que parece menos um grito de protesto do que um rouco e estrangulado grito de dor.

1 Barbara Ehrenreich, jornalista e escritora norte-americana, autora de "Salário de Pobreza, como (não) sobreviver na América". Site pessoal: barbaraehrenreich.com; blogue ehrenreich.blogs.com/

 
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