Berardo. My name is Joe Berardo. criar PDF versão para impressão
11-Set-2007
Alice BritoNão é bem na Quinta dos Loridos. É ao lado. No Bombarral. Imagine-se um edifício que supostamente integrará uma infra-estrutura de apoio a um jardim auto-denominado do "Oriente". O prédio tem 13 arcos que acedem a variadíssimas salas e um piso inferior.
O "Público" terá questionado a autarquia no passado dia 17 de Agosto sobre a ausência de uma placa identificativa da obra.
Com uma ingenuidade tocante, o Presidente da Câmara revelou que desconhecia a existência daquele edifício.

Eventualmente o mesmo Presidente desconhecerá também todo o projecto de construção do "Jardim do Oriente" com os seus 35 hectares de dimensão, onde ultimamente se colocaram, como bibelots em cima de uma cómoda de estimação, 6 mil toneladas de estátuas "made in china".

Não existe qualquer projecto na autarquia.

Uma adega construída também junto à quinta, com uma área de mil metros quadrados, teria de igual modo sido edificada, o ano passado, do princípio ao fim, sem qualquer licença camarária.

Este "Jardim do Oriente" implicou a construção de acessos, a ampliação da área desmatada, a remodelação de terrenos e a transformação do revestimento vegetal.

Para todas estas operações é indispensável um licenciamento prévio de acordo com o Dec.Lei 555/99.

Nada foi licenciado.

A Câmara entende, de acordo com o proprietário, que se trata apenas de um jardim (35 ha) e que as estátuas com o levíssimo peso de 6 mil toneladas seriam "peças amovíveis".

Licenciamento para quê?

A edilidade, contudo, alertada devidamente pelo "Público" para a ilegalidade do arqueado edifício, mostrou-se feroz: instaurou uma contra-ordenação sancionável com uma coima de 2.500,00 €.

Irá a Câmara embargar a obra? Não vai.

Não vai porque estamos perante uma ilegalidade que "não é muito grave porque no local já chegou a haver construções", de acordo com as sábias declarações do sapientíssimo Presidente da autarquia.

Joe Berardo é o proprietário e autor de tudo isto.

É o proprietário do espaço, do poder, do tempo, das pessoas e presume-se que da autarquia.

Com uma prosápia de pavão, dá ordens, concebe projectos, envia mensagens, emite pareceres, acusa, absolve, aponta o dedo comendador a tudo quanto mexa e donde possa sair um cêntimo.

Com um narcisismo flamejante e a certeza de que a engrenagem deste sistema de impunidades continuará eterno, Joe, Joe Berardo, manipula, lucra, saca, vai jogando com uma rotunda falta de vergonha todos os ases de um baralho viciadíssimo que o Estado, temeroso e subserviente, vai admitindo, elogiando, subsidiando com um discurso afável, cheio de arestas pontiagudas logo apaziguadas por um silêncio humilde e venerador.

Joe Berardo acede assim confiante ao terraço de todos os poderes.

Mostra-se, sorri, invectiva, censura, pontifica.

O dinheiro que possui e se reproduz nos negócios relampejantes na Bolsa, na Banca e noutros territórios interditos ao cidadão comum, calcina, neste caso concreto do Bombarral, as regras básicas do Estado de Direito.

A pouca saúde do poder autárquico, esta paupérrima mentalidade de curvar a espinha perante qualquer beneficiozinho que possa advir de um eventualíssimo Mecenas, esta ausência de verticalidade perante o espectáculo do poder do dinheiro, transformam o "Jardim do Oriente", a adega dos mil metros quadrados, o edifício dos 13 arcos, o Presidente da Câmara do Bombarral e a ridícula coima dos 2.500,00 €, num espectáculo perverso.

Há uma preguiça mole, de gato aborralhado no torpor do meio-dia, neste Estado Português, supostamente de Direito, quando se trata de agir contra os profissionais de todas as riquezas. Uma preguiça e uma cumplicidade activas na reiterada transgressão consentida.

"Não é uma ilegalidade muito grave". Seremos todos parvos?

Alice Brito

 
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