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19-Ago-2006

DA MANIA À DEPRESSÃO
avnery20060819Este artigo de Uri Avnery faz um balanço desassombrado da segunda guerra do Líbano e alerta para o perigo da nova retórica da direita israelita: a teoria de que a vitória militar foi impedida pelos políticos quando estava à beira de ser conquistada. "O que ficou claramente demonstrado", diz, " é que não há solução militar. Isto é verdade no Norte. Também é verdade no Sul, onde nos confrontamos com um povo inteiro que já nada tem a perder."
Uri Avnery é uma figura decisiva do movimento pacifista e da esquerda israelita. Como jornalista, foi editor-chefe do semanário Haolam Hazeh, um tablóide alternativo que nos anos 50 e 60 atacava violentamente o establishment político. Fundou o Gush Shalom (Bloco da Paz) em 1992. Antes, em Julho de 1982, no auge da primeira guerra do Líbano, Avnery atravessou a linha de batalha e reuniu-se publicamente com Yasser Arafat. Vale a pena ler uma biografia desenvolvida de Avnery aqui (em inglês) e conhecer o seu site.

A Guerra dos 33 dias

DA MANIA À DEPRESSÃO


Por URI AVNERY

Trinta e três dias de guerra. A maior das nossas guerras desde 1949.

Do lado israelita: 154 mortos - 117 deles soldados. 3970 rockets disparados contra nós, 37 civis mortos, mais de 422 civis feridos.

Do lado libanês: cerca de mil mortos civis, milhares de feridos. Um número desconhecido de combatentes do Hezbollah mortos ou feridos.

Mais de um milhão de refugiados dos dois lados.

E o que foi conseguido a este terrível preço?

"Sombrio, humilde, abatido": eis como o jornalista Yossef Werter descreveu Ehud Olmert, poucas horas depois de o cessar-fogo ter entrado em vigor.

Olmert? Humilde? É o mesmo Olmert que conhecemos? O mesmo Olmert que bateu na mesa e gritou: "Basta!" Que disse: "Depois da guerra, a situação será completamente diferente de antes! Que prometeu um "Novo Médio Oriente" como resultado da guerra?

 * * *

OS RESULTADOS da guerra são óbvios:

* Os prisioneiros, que serviram de casus belli (ou pretexto) para a guerra, não foram libertados. Eles só vão voltar como resultado de uma troca de prisioneiros, exactamente como Hassan Nasrallah propôs antes da guerra.

* O Hezbollah manteve-se como era. Não foi destruído, nem desarmado, nem mesmo afastado de onde estava. Os seus combatentes provaram-se na batalha e conquistaram cumprimentos dos soldados israelitas. A sua estrutura de comando e comunicações continuou a funcionar até o fim. A sua estação de TV continua a emitir.

* Hassan Nasrallah está vivo e recomenda-se. As persistentes tentativas de matá-lo fracassaram. O seu prestígio subiu às alturas. Em todo o mundo árabe, de Marrocos ao Iraque, compõem-se músicas em sua honra e o seu retrato ornamenta as paredes.

*  O exército libanês será deslocado para a fronteira, ao lado de uma grande força internacional. Esta é a única mudança material conseguida.

Mas não vão substituir o Hezbollah. O Hezbollah vai continuar na área, em cada aldeia e cidade. O exército israelita não conseguiu expulsá-lo de uma única aldeia. Era simplesmente impossível, sem remover permanentemente toda a população, à qual o Hezbollah pertence.

O exército libanês e a força internacional não podem e não vão confrontar o Hezbollah. A sua própria presença lá depende do consentimento do Hezbollah. Na prática, vai acontecer uma espécie de coexistência das três forças, cada qual sabendo que tem de viver com as outras duas.

Talvez a força internacional consiga evitar incursões do Hezbollah, como a que precedeu esta guerra. Mas também vai ter de evitar acções israelitas, tais como os voos de reconhecimento da nossa força aérea sobre o Líbano. É por isso que o exército israelita no início se opôs tão energicamente à introdução desta força.

 * * *

EM ISRAEL, existe agora uma atmosfera geral de desilusão e abatimento. Da mania à depressão. Não é só que os políticos e os generais estão a disparar acusações uns contra os outros, como previmos, mas o público em geral está a dar voz a críticas feitas de todos os ângulos possíveis. Os soldados criticam a conduta da guerra, os reservistas insurgem-se em relação ao caos e ao falhanço do abastecimento.

Por todos os lados, há novos agrupamentos de oposição e ameaças de cisões. No Kadima. No Labour. Parece que também no Meretz há muita fermentação, porque muitos dos seus líderes apoiaram o dragão da guerra quase até ao último momento, quando apanharam a sua cauda e a trespassaram com a sua pequena lança.

Na vanguarda de todos os críticos marcham - surpresa, surpresa - os média. A horda completa de entrevistadores e comentadores, correspondentes e presstitutes (expressão intraduzível que combina imprensa e prostitutas), os que (com muitas poucas excepções) se apaixonaram pela guerra, aqueles que enganaram, iludiram, falsificaram, ignoraram lograram e mentiram pela pátria, os que sufocaram todas as críticas e acusaram de traição todos os que se opunham à guerra - hoje correm na vanguarda da multidão de linchadores. Que previsível, que feio. Subitamente lembram-se do que dissemos desde o início da guerra.

O símbolo desta fase é Dan Halutz, o Chefe do Estado-Maior. Ainda ontem era o herói das massas, era proibido pronunciar uma palavra contra ele. Agora, dizem que ele é um aproveitador. Um momento antes de mandar os seus soldados para a batalha, ele arranjou tempo para vender as suas acções, com a expectativa de uma queda da bolsa. (Esperemos que um momento antes do fim tenha arranjado tempo para comprá-las outra vez).

Como se sabe muito bem, a vitória tem muitos pais, mas a derrota na guerra é órfã.

 * * *

DO DILÚVIO de acusações e de queixas, destaca-se uma frase, uma frase que deve provocar um arrepio na espinha de qualquer um com boa memória: "os políticos não deixaram o exército vencer."

Tal como escrevi há duas semanas, vemos diante de nós a ressurreição do velho grito "eles apunhalaram o exército pelas costas!"

Funciona assim: No máximo dois dias antes do fim, começou a ofensiva terrestre. Graças aos nossos heróicos soldados, aos homens da reserva, foi um sucesso arrasador. E então, quando estávamos à beira da grande vitória, o cessar-fogo entrou em vigor.

Não há uma única palavra verdadeira nisto. Esta operação, que foi planeada e para a qual o exército treinou durante anos, não foi desencadeada antes porque era claro que não traria quaisquer ganhos significativos, mas custaria muitas vidas. O exército conseguiria, realmente, ocupar amplas áreas, mas sem desalojar delas os combatentes do Hezbollah.

A cidade de Bint Jbeil, por exemplo, mesmo junto à fronteira, foi tomada pelo exército três vezes, e os combatentes do Hezbollah permaneceram lá até o fim. Se tivéssemos ocupado 20 cidades e aldeias como esta, os soldados e os tanques ter-se-iam exposto em 20 lugares aos ataques mortais das guerrilhas e às suas eficazes armas antitanque.

Se é assim, porque é que se decidiu, no último momento, desencadear esta operação - logo depois de a ONU ter chamado ao fim das hostilidades? A horrível resposta: era um cínico -  para não dizer vil - exercício do fracassado trio. Olmert, Peretz e Halutz queriam criar uma "imagem de vitória", como foi dito abertamente nos média. Neste altar, as vidas de 33 soldados (incluindo uma mulher) foram sacrificadas.

O objectivo final era fotografar os vitoriosos soldados na margem do Litani. A operação podia durar apenas 48 horas, até o cessar-fogo entrar em vigor. Apesar do facto de o exército ter usado helicópteros para levar as tropas, o objectivo não foi atingido. O exército não chegou a qualquer ponto do Litani.

Só para comparar: na primeira guerra do Líbano, a de Sharon de 1982, o exército atravessou o Litani nas primeiras horas. (O Litani, por falar nisso, já não é um verdadeiro rio, mas apenas um ribeiro. A maior parte das suas águas são drenadas longe daqui, no norte. O seu último trecho fica a cerca de 25 quilómetros de distância da fronteira, mas perto de Metulla a distância é apenas de quatro quilómetros.)

Desta vez, quando o cessar-fogo entrou em vigor, todas as unidades tinham chegado a aldeias a caminho do rio. Lá ficaram encravadas, cercadas por combatentes do Hezbollah, sem linhas de abastecimento seguras. Daquele momento em diante, o exército passou a ter um só alvo: tirá-los de lá o mais rápido possível, independentemente de quem fosse tomar o seu lugar.

Se for formada uma comissão de inquérito - como deve ser - e investigar todas as movimentações desta guerra, começando pela forma como foi tomada a decisão de começá-la, também terá de investigar a decisão de dar início a esta última operação. A morte de 33 soldados (incluindo o filho do escritor David Grossman, que apoiou a guerra) e a dor que causou às famílias exige-o!

 * * *

 MAS ESTES FACTOS ainda não são claros para o público em geral. A lavagem cerebral feita pelos comentadores militares e pelos generais, que dominaram os média nessa altura, tornou a louca - quase diria "criminosa" - operação numa vibrante parada vitoriosa. A decisão de detê-la, tomada pela liderança política, é hoje vista por muitos como um acto de políticos derrotistas, fracos, corruptos e mesmo traidores.

E é esse exactamente o novo lema da direita fascista que agora levanta a sua feia cabeça.

Depois da I Guerra Mundial, em circunstâncias semelhantes, a lenda da "facada nas costas do exército vitorioso" cresceu. Adolf Hitler usou-a para ascender ao poder - e para a II Guerra Mundial.

Agora, ainda antes do enterro do último soldado caído, os generais incompetentes começam a falar desavergonhadamente de "outro round", da próxima guerra que vai certamente vir "num mês ou num ano", se Deus quiser. Afinal, não podemos acabar este assunto assim, em fracasso. Onde está o nosso orgulho?


* * *

 O PÚBLICO ISRAELITA está hoje em estado de choque e de desorientação. Lançam-se acusações - justificadas ou não - em todas as direcções, e não se pode prever a evolução dos acontecimentos.

Talvez, no fim, acabe por vencer a lógica. A lógica diz: o que ficou claramente demonstrado é que não há solução militar. Isto é verdade no Norte. Também é verdade no Sul, onde nos confrontamos com um povo inteiro que já nada tem a perder. O sucesso da guerrilha libanesa vai encorajar a guerrilha palestiniana.

Para que a lógica vença, temos de ser honestos connosco mesmos: apontar os erros, investigar as suas causas profundas, tirar as conclusões adequadas.

Alguns querem evitá-lo a qualquer preço. O presidente Bush declara vociferante que nós vencemos a guerra. Uma gloriosa vitória sobre os Maus. Como a sua própria vitória no Iraque.

Quando uma equipe de futebol consegue escolher o árbitro, não surpreende que seja declarada vencedora.

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