Entrevista com Han Deqiang sobre os custos sociais do neoliberalismo na China criar PDF versão para impressão
13-Out-2007

Wal-mart em ChongqingHan Deqiang é um conceituado economista da Escola de Economia e Gestão da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Beijing, fazendo parte de um crescente número de académicos que criticam a estratégia de desenvolvimento neoliberal da China. Mas a sua crítica não é recente: desde há quase duas décadas que Han mantém esta atitude, tendo escrito muitos livros e artigos sobre a crise social que afectou camponeses e trabalhadores durante o novo regime económico chinês.
Este texto é um excerto da entrevista conduzida por Stephen Philion
, publicada na revista Dollars and Sense em Julho/Agosto de 2007 e disponível no site de S. Philion

Quando conheci o Han, em 2000, ele viajava por todo o país, distribuindo pelos estudantes universitários artigos acutilantes e eloquentes que refutavam a doutrina dominante de então. Na mesma altura, eu conduzia um trabalho de investigação sobre os protestos dos trabalhadores contra as privatizações na cidade de Zhengzhou, e a maior parte dos líderes e activistas sindicais que conheci estavam familiarizados com as devastadoras críticas de Han à obsessão privatizadora que varreu a China no final dos anos 90 e início deste século. Não seria errado caracterizá-lo como o Noam Chomsky Chinês, embora com o seu próprio dom oratório!

Em Setembro de 2005, entrevistei o Han durante cerca de três horas. A nossa conversa centrou-se no impacto da entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001, bem como sobre os custos sociais, tanto dentro como fora da China, do desenvolvimento neoliberal acelerado que se seguiu a esse acontecimento crucial. Em Janeiro de 2007, continuei a conversa com uma segunda entrevista. O que se segue é uma versão traduzida e editada dessas duas entrevistas.

STEPHEN PHILION: A última vez que nos encontrámos foi durante o auge da crise financeira asiática. Nessa altura, prognosticaste várias consequências para a China resultantes da entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC). Cinco anos mais tarde, quais dessas previsões se concretizaram?

HAN DEQIANG: Na altura, sustentei que os danos mais gravosos se prendiam com a capacidade da China para controlar de forma autónoma o seu desenvolvimento industrial e tecnológico. Penso que é seguro dizer que estes últimos cinco anos provam que tinha razão. Na China, qualquer indústria que queira desenvolver a sua própria tecnologia ou mercado tem encontrado barreiras cada vez maiores.

Em segundo lugar, previ que o desemprego cresceria de forma dramática, o que se veio também a concretizar. Claro que alguns podem dizer que recentemente tem havido uma redução da migração de trabalhadores do campo, o que alegadamente provaria que a OMC não teria originado um grande desemprego. Mas este facto necessita de uma análise mais cuidada. No final dos anos 90, os preços dos produtos agrícolas caíram e os impostos aumentaram. Daí que tenhamos assistido a uma migração em larga escala dos trabalhadores e ao aumento do desemprego nas cidades. De qualquer modo, a partir de 2002-2003, o governo baixou os impostos para os agricultores e aumentou os subsídios para a educação nos distritos rurais mais pobres. Como resultado destas novas políticas, as contradições nas zonas rurais suavizaram-se. Além disso, quando o preço do arroz caiu a pique, um grande número de agricultores deixou de o produzir. Em consequência, os preços voltaram a subir, melhorando a qualidade de vida dos agricultores em 2003 e 2004. Por isso, a população rural tem agora menos motivação para aceitar o tipo de exploração que existe no sector de exportação da indústria urbana, são muito menos aqueles que migram para as cidades à procura disso!

De qualquer forma, este facto não anula o nosso argumento: quando as companhias estrangeiras conquistam indústrias nacionais, o resultado é um grande aumento do desemprego. Pelo contrário, o nosso argumento reforça-se: quando a Wal-Mart se instalou em Gweiyang ou em Beijing, arrasou imediatamente quatro ou cinco grandes lojas.

PHILION: E quanto às lojas mais pequenas?

HAN: Ah! Nem vá por aí! Lojas médias, comerciantes de bairro, todos aqueles que supostamente seriam capazes de dominar os mercados locais devido à vantagem do seu tamanho, viram todas essas vantagens desaparecer.

Em terceiro lugar, sempre admiti que a entrada da China na OMC lhe permitiria algumas vantagens de curto prazo. Por exemplo, sem dúvida que ocorreram aumentos nos investimentos e nas exportações. Mas também sustentei que entrar na OMC era o mesmo que beber whisky para matar a sede. Isto tem duas consequências. Em primeiro lugar acaba-se com a sede. No fim de contas, se não há mais nenhum líquido por perto, não tenho outra escolha senão virar-me para o whisky. Mas a outra consequência, obviamente, é a morte! Ou seja, a indústria chinesa resolveu o seu problema de investimento, mas assinou a sua sentença de morte.

Do meu ponto de vista, a crise social que a China atravessa vai continuar a intensificar-se, tal como a negação da sua autonomia económica, além do eventual colapso do sistema financeiro do país. Isto é totalmente previsível: chegará o momento - é apenas uma questão de tempo - em que a China vai enfrentar uma situação parecida com a crise financeira asiática de 1997. Não podemos prever exactamente quando vai ocorrer, mas suspeito que não seja muito longe no tempo.

PHILION: De que forma a OMC afectou as grandes empresas estatais?

HAN: As empresas estatais (EEs) dividem-se em duas categorias. Na primeira, incluem-se as EEs que estão sujeitas à competição com empresas privadas, como é o caso da fábrica de máquinas Shenyang ou da companhia de tractores Luoyang. Estas empresas faliram rapidamente. Por outro lado, as empresas estatais que detêm o monopólio no sector respectivo, como é o caso das produtoras de petróleo, são menos afectadas directamente pela pertença da China à OMC.

PHILION: Os líderes chineses parecem actuar sob o pressuposto de que enquanto as EEs que produzem os maiores dividendos permanecerem vitais, o socialismo chinês não está em risco.

HAN: Primeiro que tudo, neste momento a China não é socialista.

PHILION: Sim, certo. Refiro-me ao sentido que eles dão à expressão "socialismo com características chinesas".

HAN: Mesmo assim não é verdade. É um facto que em termos de impostos e lucros as pequenas e médias empresas estatais não representam muito. Mas em termos dos empregos que garantem, em números absolutos, elas são importantes. A sua influência no emprego e nas finanças locais é deveras substancial. Logo, no rescaldo do quase completo colapso destas pequenas e médias EEs, torna-se extremamente difícil para o Estado central garantir a subsistência dos 1,3 mil milhões de chineses, ancorando-se apenas nas grandes empresas estatais.

PHILION: Parece que a esperança dos líderes chineses é que o capital privado local e estrangeiro possa substituir estas pequenas e médias empresas como fonte de investimento e resolver o problema do desemprego.

HAN: O que eu responderia é que por cada posto de trabalho salvo pelo investimento capitalista estrangeiro, três a quatro serão perdidos, a não ser que o investimento estrangeiro incida apenas na produção para exportação. Esta situação é real, sem dúvida. Neste momento, 60% das nossas exportações são feitas por empresas estrangeiras.

Para a China, a entrada na OMC foi como beber whisky para matar a sede.

De qualquer modo, o potencial do investimento estrangeiro para impulsionar um futuro crescimento da economia chinesa é fraco. Apenas pode resolver uma parte do problema do desemprego. Não pode fazer muito pela expansão e modernização da indústria chinesa. E a sua utilidade para resolver a crise fiscal que a China atravessa é ainda mais problemática. Desde 1949 em diante, construímos a nossa nação usando as empresas estatais como forma de suplemento ou substituição das contribuições de empresas estrangeiras para a economia. A ideia de fazer o oposto é uma fantasia.

PHILION: Os governantes chineses também parecem acreditar que enquanto as grandes empresas estatais monopolistas perdurarem, a sua capacidade para determinar a direcção do desenvolvimento económico será forte.

HAN: É uma questão que envolve duas vertentes. Em primeiro lugar, se é ou não possível um governo de um país sem empresas estatais controlar a direcção da economia nacional. Eu acho que é possível. No fundo, trata-se do modelo europeu e, mesmo em certa medida, do modelo americano. Nestas economias grandes, o controlo das empresas está nas mãos de privados. Mas isto não tem um grande impacto nas receitas fiscais do Estado e na sua capacidade para regular a economia. Se o Estado for poderoso, pode desempenhar um papel crucial na regulação da economia, mesmo se não controla directamente muitas empresas.

Por outro lado, onde o Estado controla uma porção maioritária das empresas mas é fraco, tem dificuldades em regular a economia. E se a colaboração entre esse Estado fraco e os interesses capitalistas é profunda, o resultado é a distorção da política pelos capitalistas ao ponto do Estado perder mais e mais capacidade para controlar a economia e a direcção do desenvolvimento económico. O factor chave é a força do governo e não o número de empresas que controla.

Tradução de Miguel Reis

1 Stephen Philion Professor de sociologia em St. Cloud State University

 
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