Na rua contra a cimeira da conspiração criar PDF versão para impressão
14-Out-2007

Carlos SantosVão decidir nas costas dos povos europeus, desprezando-os e prevendo que este tratado não seja referendado em nenhum país da União Europeia...
... porque esta vergonhosa cimeira se realiza em Lisboa, é preciso que todas e todos estejamos no dia 18 no Parque das Nações, para responder ao apelo da CGTP e lutar por uma Europa Social, pelo emprego com direitos.

Para dia dia 18 e 19 de Outubro prepara-se um dos actos mais hipócritas da União Europeia, desde sempre: a aprovação de um tratado que reformula os anteriores numa cimeira de presidentes e primeiros ministros. E vão aprová-lo contra os referendos de 2005, que na Holanda e na França rejeitaram o projecto de tratado constitucional europeu. Vão decidir nas costas dos povos europeus, desprezando-os e prevendo que este tratado não seja referendado em nenhum país da União Europeia.

Como disse Giscard d'Estaing, o pai do tratado constitucional que morreu e agora ressurge, "os governos europeus puseram-se de acordo sobre mudanças cosméticas à Constituição para que ela seja mais fácil de engolir". O termo "Constituição" foi apagado, mas o alcance é o mesmo e o essencial dela ficou, sobretudo no que tinha de negativo, de promoção da liberalização do capital e do sector financeiro contra o modelo social europeu e contra os serviços públicos. Na verdade foram os povos e a democracia que foram banidos.

Pior ainda, os presidentes e primeiros-ministros conspiram juntos para que o novo tratado não seja referendado em nenhum país. É este o fruto da aliança entre a direita europeia, de Merkel, Sarkozy e Barroso, e o blairismo, de Brown, Sócrates e Zapatero. Se há risco de os povos não votarem de acordo com os dogmas da política neoliberal que perfilham, então dispensa-se os povos.

Mas a cimeira da conspiração e do desprezo pelos povos acontece num momento novo e que pode vir a acarretar novas dificuldades para os povos da Europa. A crise financeira que teve origem nos Estados Unidos pode vir a reflectir-se duramente na economia real europeia e os dogmas neoliberais, que já faziam parte de anteriores tratados e são reforçados neste, acentuam o risco da União Europeia ficar atada a políticas desastrosas, obrigada a seguir uma política económica que em vez de combater a crise financeira a acentue, assim como ao seu reflexo sobre a economia real e a vida das pessoas, em particular das mais desfavorecidas.

Nós, portugueses, sentimos já esta situação. Vivemos num país que está há seis anos em recessão, que reduziu a política económica à redução do défice e que como resultado mergulhou o país numa profunda crise social que o afastou ainda mais das médias europeias.

Portugal bate recordes no crescimento do desemprego, cuja taxa ultrapassou já a da Espanha e é a quinta pior da União Europeia. A precariedade é também das maiores e os juros altos agravam as condições de vida. Conhecemos também a degradação dos serviços públicos imposta pela redução do défice, em particular os cortes no serviço nacional de saúde, com os constantes encerramentos de serviços e urgências.

A cimeira da conspiração, que é igualmente uma cimeira para a liberalização contra os serviços públicos, pode vir a revelar-se também a cimeira que faz aumentar o desemprego e a precariedade na União Europeia.

Por tudo isto, e porque esta vergonhosa cimeira se realiza em Lisboa, é preciso que todas e todos estejamos no dia 18 no Parque das Nações, para responder ao apelo da CGTP e lutar por uma Europa Social, pelo emprego com direitos.

Carlos Santos

Editorial do jornal Esquerda nº 23

 
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