Cantigas socráticas criar PDF versão para impressão
14-Out-2007
natasha_nunes.jpgDizer, como diz Sócrates, que o cumprimento das regras do PEC é uma grande notícia para Portugal e para a economia portuguesa, só mostra que, se de números o primeiro-ministro até pode perceber alguma coisa, de pessoas e de política não percebe mesmo nada. Porque a política só serve para alguma coisa se for para pensar o bem-estar dos cidadãos

Pois. Vivessem o ministro das finanças e o primeiro-ministro no país real e com certeza não andavam para aí aos altos brados a proclamar esse grande feito que é o controle do défice. Não andavam, porque saberiam que isso em nada significa a melhoria do nível de vida de quem por cá mora.

Mais de 8% de taxa de desemprego, milhares sem subsídio de desemprego, um valor de salário mínimo vergonhoso, assim como a pensão mínima para idosos. Os gastos associados à habitação, à educação e à saúde, assim como o nível de endividamento das famílias, num aumento veloz. Mais pobreza, cada vez mais evidente e explícita.

Dizer, como diz Sócrates, que o cumprimento das regras do PEC é uma grande notícia para Portugal e para a economia portuguesa, só mostra que, se de números o primeiro-ministro até pode perceber alguma coisa, de pessoas e de política não percebe mesmo nada. Porque a política só serve para alguma coisa se for para pensar o bem-estar dos cidadãos e das populações. Por isso é que não podemos cogitar que o facto de o deficit público ficar pelos 3% do PIB é sinónimo do início do crescimento sustentado do país. Não o é, porque um rumo para o desenvolvimento sustentado da sociedade portuguesa não existe no socratismo.

O que queremos discutir com Sócrates não é só, se os impostos aumentam ou baixam em 2008, o que queremos é uma profunda reforma fiscal. Não queremos perder mais tempo a discernir se os números que vêm do INE são ou não correspondentes ao número concreto de desempregados, o que queremos é um governo que impulsione a criação de emprego. Não nos interessa mais perceber se a melhor gestão para os hospitais é a pública ou a privada, o que queremos é a reconversão do sistema nacional de saúde num âmbito de universalidade e gratuidade.

O que Sócrates tem de perceber é que um orçamento feito para ir atrás do flop que é a Estratégia de Lisboa não nos serve para grande coisa e que um orçamento útil é aquele que é pensado para as reformas estruturais de que o país precisa. Tomar consciência de que, sem um melhor investimento público e sem uma mais bem direccionada regulação estatal da vida económica, nenhuma boa nova vai, de facto, alguma vez chegar.

Se em vez de andar a fazer aquele jogging sorridente, só para português ver, nas avenidas de Washington, perdesse meia hora lá pelo Pragal, pela Amadora, ou pela Mouraria, para ver como andam as contas domésticas daqueles e daquelas que esticam a corda para sobreviver, o primeiro ministro não estava para aí nesses clamores desmedidos de modernidade .

Natasha Nunes

 
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